Crítica: Aquarius

Estreia nesta semana Aquarius, o novo filme dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça (O Som ao Redor) e estrelado por Sônia Braga (Gabriela Cravo e Canela). Intenso, cheio de metáforas para o cenário social e político brasileiro, o longa é aquele soco no estômago que gera diversas reflexões de forma pontual. Isto porque ele discute as transformações dos aspectos físicos e sociais do Brasil, o que há de mais bonito em alguns e de tão sujo e corrupto em outros.

A história se passa em Recife e, desde seu início, se pode compreender as relações que serão estabelecidas durante a projeção. Nas primeiras cenas, o público se depara com a família da protagonista, com toda a história forte da personagem e da relação que ela estabelece com a cidade. Clara (Braga) é uma mulher que passou por um câncer, viúva, mãe, jornalista. Cheia de força, personalidade e inteligência, ela precisa defender o prédio que mora, no qual passou por tantos momentos importantes e marcantes, porque uma construtora deseja comprar o lugar para fazer mais uma daquelas edificações luxuosas na orla de Pina.

Entre os planos abertos que mostram os grandes prédios da cidade e os closes em Clara, Kleber Mendonça passa a sensação do distanciamento e aproximação da realidade deste tipo de situação recorrente no país. Ao mesmo tempo que se têm pessoas que lutam cotidianamente para se manterem vivas, outras habitam um universo egoísta e possuem as coisas mais fáceis, fazem parte de famílias importantes, que dominam diversos mercados e acabam controlando a maioria dos setores financeiros, culturais e sociais.

Para além da discussão tão profunda sobre a sociedade do Brasil, a juventude insensível e a ignorância da elite brasileira, o longa não só traz discussões pungentes, como faz isso de forma bem executada. A narrativa, dividida em capítulos, constrói a visão do espectador sobre Clara e sua força e certeza sobre suas convicções. Mendonça consegue captar a essência da mulher emponderada e o que resta de sensibilidade na sociedade contemporânea.

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O elenco também contribui para o desenvolver progressivo da trama. As necessidades, revoltas e urgências das personas vão se revelando no roteiro e os atores vão intensificando a medida em suas interpretações. Por exemplo, enquanto nos primeiros contatos entre as personagens Clara e Diego (Humberto Carrão, mais conhecido por seu trabalho em telenovelas como Cheias de Charme) começam com palavras cordiais, no meio até o final da trama os confrontos passam a ser mais diretos, firmes, chegando até o ponto no qual não se tem mais tanto pudor nas palavras. A máscara de Diego cai e a personagem de Braga já não suporta mais tanta desconsideração e falta de caráter.

A relação destas duas personagens é inclusive o destaque da película. São duas gerações, duas formas distintas de enxergar o mundo, de ter posições sobre a vida e cada um representa um retrato diferente da classe média do Brasil. O que poderia ser exposto como o embate entre o garoto galã, abastado e a mulher intelectual, politizada e preenchida de sensibilidade.

Para arrematar toda a qualidade do longa, ele ainda tem uma trilha sonora fantástica! Dois navegantes, Maria Bethânia, Alcione, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo. As músicas, além de boas, não estão apenas como pano de fundo, mas também como fator determinante da personalidade da protagonista, que é crítica musical. A relação que ela estabelece com as canções é forte e profunda, mostrada não tão somente em sua profissão, mas como em seus olhares, nos momentos marcantes, na memória de Clara.

Aquarius é uma película forte, marcada pela exposição sutil de um declínio de valores da sociedade brasileira, mas uma fagulha de esperança na força da personagem principal, que ultrapassa as telas e chega no espectador em formas de arrepios, lágrimas, vibrações e uma sensação de que tudo pode mudar se houver coerência, reflexão e resiliência.

Assista ao trailer!

 

Enoe Lopes Pontes43 Posts

Do blockbuster ao chamado cult, estou aqui para observar o cenário do cinema e das séries. Cinéfila desde os seis anos de idade, o vício permanece. Até hoje. Até sempre.

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