Crítica: A Garota no Trem

 

Publicado em 2015, A Garota no Trem é um suspense psicológico de autoria da britânica Paula Hawkins que logo se transformou em best-seller mundial. Como destino natural de qualquer best-seller que tem uma repercussão com as suas proporções, o romance teve os seus direitos comprados por um grande estúdio de Hollywood para ganhar uma versão nas telonas que chegou aos cinemas esse ano.

Também é natural que muita expectativa tenha sido gerada no entorno da produção. Existiam associações da obra com outro título que fizera bastante sucesso há muito pouco tempo atrás, Garota Exemplar, de David Fincher (comparação descabida, já que ambos tem em comum apenas o gênero e o fato de ter uma personagem feminina muito presente na história). Além disso, Emily Blunt, que vem com uma carreira ascendente com interpretações marcantes em filmes como Caminhos da FlorestaNo Limite do Amanhã Sicario – e que só está à espera de uma protelada indicação ao Oscar -, protagonizaria a produção. 

Além dos elementos de bastidor que fizeram parte da própria campanha do filme antes mesmo dele começar a ser rodado, a premissa de A Garota no Trem bastava como grande chamariz para o longa. O livro traz a  história de Rachel, uma jovem deprimida e alcóolatra que tenta superar o casamento do seu ex-marido com a amante dele. Enquanto persegue o casal e vive um cotidiano vazio, Rachel fantasia sobre o romance perfeito de uma moça que sempre vê da janela do trem e seu marido, mal imaginando que logo estará enredada em uma trama de assassinato que a transformará em peça fundamental do seu desfecho.

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Todo esse contexto que prenunciava a realização de uma grande obra infelizmente não resultou no esperado ainda que A Garota no Trem esteja longe de ser um completo fiasco. O filme prende o espectador com o quebra-cabeça que constrói, mantendo sua atenção na resolução do mistério central como uma fita burocrática de suspense exige. Além disso, o longa traz uma interpretação empenhada de Emily Blunt, que, ainda que não receba um material complexo e desafiador o suficiente graças a visão estreita do roteiro do filme e da sua direção, consegue fazer da protagonista uma personagem cujo arco dramático é realmente interessante para se acompanhar. Acontece que falta muito para o longa sublimar as suas falhas.

O que impede A Garota no Trem de explorar todo o potencial que ele possui é o mesmo obstáculo que se coloca diante do desempenho de Blunt: a falta de visão do seu diretor Tate Taylor (Histórias Cruzadas) e da sua roteirista Erin Cressida Wilson (Homens, Mulheres e Filhos) a respeito do próprio material que têm em mãos. Wilson não consegue dar substância a personagens que são relevantes para a trama e que poderiam render muito em um roteiro que explorasse suas camadas, como a babá Megan (Haley Bennett, de Sete Homens e um Destino), o marido dela (Luke Evans, de Imortais), a investigadora do caso (Allison Janney, de Tallulah), o terapeuta de Megan (Edgar Ramírez, de Joy), o ex-marido de Rachel (vivido por Justin Theroux, da série The Leftovers) e sua rival (Rebecca Ferguson, de Missão: Impossível – Nação Secreta).

O diretor Tate Taylor, por sua vez, não consegue resolver a superficialidade do seu roteiro com uma condução mais firme, respondendo de maneira burocrática e pouco inventiva aos comandos de Wilson. Há ainda outras questões que brecam uma apreciação mais fluida do espectador, como a dificuldade que Taylor tem ao lidar com as constantes idas e vindas na linha temporal do filme que fazem cruzar a história de Rachel com a de Megan ou o fato dele pouco explorar um tema sugerido na obra e que a faria alçar voos mais ambiciosos, a cumplicidade feminina diante de históricos de relacionamentos abusivos.

Não dá para dizer que ao final da sessão de A Garota no Trem o espectador sairá insatisfeito do cinema. Visto pela chave do gênero, o longa funciona como um suspense cujo caminho até a sua resolução mostra-se sempre instigante e mantém o espectador fiel ao filme do início ao fim. Acontece que não deixa de ser frustrante perceber que a obra tinha muito mais potencial a ser explorado. É frustrante perceber que graças a pouca visão dos seus realizadores questões tão pulsantes e personagens tão interessantes como os de A Garota no Trem não puderam ser exploradas a contento proporcionando ao espectador uma experiência melhor.

Assista ao trailer do filme: 

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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