Trailer comentado: O Destino de uma Nação

Assim que começaram as gravações de O Destino de uma Nação (tradução brasileira para Darkest Hour) e as imagens do ator Gary Oldman como Winston Churchill, ex-primeiro ministro do Reino Unido, surgiram não havia dúvidas de que estaríamos diante de um desempenho que possivelmente poderia lhe render um Oscar. Em O Destino de uma Nação, Oldman passa por um processo de transformação que já rendeu prêmios para outros atores em temporadas passadas, compondo uma equação normalmente atrativa para a Academia: ator consagrado mas nunca premiado interpretando uma personalidade histórica ostentando um espantoso trabalho de maquiagem e dirigido por um diretor respeitado entre os pares e a crítica, mas também nunca vencedor do prêmio. O terreno parece predestinado ao ouro.

O Destino de uma Nação é dirigido por Joe Wright, que, após bater na trave com Orgulho e PreconceitoDesejo e Reparação Anna Karenina, pode ter chances com um filme que pretende contar os primeiros anos da administração de Churchill, mesma época em que o político teve que estabelecer negociações de paz com a Alemanha nazista. Com o lançamento do primeiro trailer do filme na semana passada, decidimos compartilhar com vocês leitores, ideias que passaram pela nossa cabeça do que pode ser o longa. Antes de ler nossos comentários, assista ao trailer em questão para ter uma dimensão sobre o filme que estamos tratando:

O olhar sobre o personagem biografado

O Destino de uma Nação não me parece um filme confinado na ideia de realizar uma biografia “quadradona” de Winston Churchill com o trajeto narrativo convencional contando todo o arco de sua vida. Pelo trailer, o filme parece realizar um esforço de dar conta da personalidade controversa, pesando as ranhuras do seu caráter e da sua personalidade política, analisando a mesma através dos seus atos como administrador. Me parece uma decisão acertada, evitar o deslumbramento com a personalidade biografada frisando um olhar crítico para a trajetória do mesmo sem esquecer o lado humano da personalidade.

Logo na abertura do trailer, vemos a entrada de Churchill no cargo político a partir de arranjos que tiveram a participação do primeiro ministro que o antecedeu Clement Attlee. Simultaneamente, através de aparições públicas registradas por fotógrafos, temos informações sobre a personalidade do protagonista dessa história que parece ser um homem de trato difícil e com um histórico nada favorável de administração pública. Algo que me ocorreu nos primeiros minutos do trailer é como a abordagem e as temáticas de O Destino de uma Nação se distanciam das preocupações do cineasta Joe Wright até aqui e como isso poderá ser uma faca de dois gumes, trazendo um frescor para a sua filmografia ao retirá-lo da zona de conforto, mas também pode ser uma aposta que não encontre no cineasta a pessoa certa para executá-la.


Novas e antigas colaborações

Outro aspecto que nos chama a atenção no trailer de O Destino de uma Nação é a fotografia empregada por Bruno Delbonnel, indicado quatro vezes ao Oscar (O Fabuloso Destino de Amélie PoulainEterno AmorHarry Potter e o Enigma do Príncipe Inside Llewyn Davis). As imagens do trailer dão conta de um filme que parece explorar o contraste entre os ambientes escuros dos gabinetes onde as negociações políticas serão tratados e o que lhe é externo com uma luz que incide pontualmente nesses cenários.

Wright nunca trabalhou com Delbonnel. O colaborador mais frequente do realizador nesse departamento é Seamus McGarvey (Desejo e ReparaçãoO SolistaAnna Karenina), portanto teremos uma estreia, o que será uma experiência interessante. Em contrapartida, O Destino de uma Nação traz antigos colaboradores na trajetória de Wright, como o compositor italiano Dario Marianelli, responsável pela trilha sonora do longa, e a diretora de arte Sarah Greenwood (ambos de Desejo e Reparação Anna Karenina).

Sobre a colaboração com Sarah é interessante notar como o trailer de O Destino de uma Nação nos traz vestígios de características semelhantes às de Desejo e Reparação que trouxeram méritos notáveis do filme nesse departamento. Estamos nos referindo ao cuidado que Greenwood teve com os mínimos detalhes da casa dos Tallis – aqui os gabinetes que servem de cenário para as conversas de Churchill e seu quadro de apoio – e o esmero com os ambientes percorridos por Robbie (James McAvoy) destruídos por força da guerra – algo que se repete aqui ao que tudo indica.


É o show de Gary Oldman!

Se a primeira imagem oficial do filme chamava a atenção para uma transformação visual de Oldman como Churchill, o trailer de O Destino de uma Nação nos dá relance da performance do ator, mostrando que tem tudo para ser muito mais do que um empurrãozinho da maquiagem em busca de uma verossimilhança.

Oldman parece disposto a impressionar em pequenos gestos, na postura encurvada de Churchill, no jeito de andar, na colocação da sua voz… Parece um trabalho complexo que nos faz lembrar, por exemplo, da transformação visual aliada a todos esses componentes que tornaram o seu Drácula em Drácula de Bram Stoker tão interessante, por exemplo. Além disso, Oldman parece ter um roteiro que entrega de bandeja para o ator grandes cenas, monólogos e falas.

A depender de como o filme será recebido, acho que estamos sim diante de um front runner do Oscar a ser superado pelos seus concorrentes. Temos que levar em consideração ainda que Oldman é um dos mais aclamados de sua geração, mas possui apenas uma indicação em seu currículo, como melhor ator por O Espião que sabia Demais em 2012, o que o coloca na categoria “injustiçado” pela Academia. Sempre é tempo de construir a narrativa da “justiça” pelo Oscar de melhor ator e isso ajuda sobretudo se estivermos diante de um desempenho que de fato mereça a atenção.

Scott Thomas, Scott Thomas

Falando em “injustiçados” do Oscar… Não é só Oldman que nos chama a atenção no trailer, Kristin Scott Thomas como Clementine Churchill, esposa do primeiro ministro, parece ter um grande destaque no filme. Assim como Oldman, Scott Thomas tem apenas uma única indicação no currículo, a de melhor atriz por O Paciente Inglês em 1998. Vale lembrar que pelos idos de 2009, a atriz quase conseguiu uma menção por sua performance elogiada no drama francês  Há tanto tempo que te amo.

A depender do tratamento do filme para essa personagem, Scott Thomas tem tudo para duelar de igual para igual com seu parceiro de cena e conseguir semelhante destaque por sua interpretação.

Segunda Guerra, nunca sai de “moda”

Também pensamos que o filme é uma grande isca para prêmios por trazer temas propiciados por força do contexto histórico da Segunda Guerra Mundial, algo que não importa a edição do prêmio ou até mesmo a qualidade do filme, sempre chama a atenção de votantes da Academia. E O Destino de uma Nação parece estar imerso nesse contexto e mergulhar a fundo na maneira como Churchill lidou com toda a questão.

A câmera de Wright

Alguns dos momentos mais marcantes de longas como Orgulho e PreconceitoDesejo e ReparaçãoAnna Karenina e até mesmo de filmes menos visados como O Solista Hanna é quando Joe Wright toma sua história para si e até mesmo em um gesto de vaidade artística resolve pontuá-la com alguma decisão que surpreende o espectador como o plano-sequência de Desejo e Reparação ou mesmo sua transição entre cenários e coxias em Anna Karenina. Com registros como os que vemos em O Destino de uma Nação, a expectativa é que Wright pontue de alguma maneira essa história com preciosismos que fizeram seu cinema angariar tantos fãs (e detratores também). Momentos propícios para tanto não faltam no trailer, como as imagens que vemos do conflito, tomadas aéreas etc.

O Destino de uma Nação tem previsão de estreia no Brasil para janeiro de 2018.

 

Wanderley Teixeira391 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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