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	<title>Arquivos Destaque - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Destaque - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Especial: Rambo é mais do que tiro, porrada e bomba</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Michel Gutwilen]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Sep 2019 18:28:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Tiro, porrada e bomba. Atualmente, a associação da franquia Rambo feita pelo espectador parece ser essa. Grandes metralhadoras, munição infinita, armadilhas, explosões e helicópteros. Por um lado, essa não é uma interpretação errada, uma vez que a partir de Rambo II &#8211; A Vingança do Herói, tal camada de violência fica mais explícita. Entretanto, torna-se urgente relembrar sobre o que verdadeiramente trata o primeiro drama da saga, Rambo: Programado Para Matar. Primeiramente, repare bem no gênero que eu coloquei o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Tiro, porrada e bomba. Atualmente, a associação da franquia <strong><em>Rambo</em> </strong>feita pelo espectador parece ser essa. Grandes metralhadoras, munição infinita, armadilhas, explosões e helicópteros. Por um lado, essa não é uma interpretação errada, uma vez que a partir de <em><strong>Rambo II &#8211; A Vingança do Herói</strong></em>, tal camada de violência fica mais explícita. Entretanto, torna-se urgente relembrar sobre o que verdadeiramente trata o primeiro drama da saga, <em><strong>Rambo: Programado Para Matar</strong></em>.</p>
<p>Primeiramente, repare bem no gênero que eu coloquei o longa de 1982. Drama. Baseado no livro de David Morrell (<strong><a href="https://twitter.com/_DavidMorrell/status/1175060258399481857">que recentemente criticou Rambo: Até o Fim, lançado em 2019</a></strong>), escrito dez anos antes, a narrativa acompanha John Rambo, veterano da Guerra do Vietnã, como um vagante pelas terras norte-americanas. Desolado, solitário e perdido, o herói não sabe o que fazer, nem para onde ir. Como indica a boa tradução brasileira (o que é raro, então é sempre bom ressaltar quando acertam), John foi programado apenas para fazer uma única coisa: matar.</p>
<p>Por este motivo, quando a guerra acaba, Rambo parece desnorteado. Como viver em um ambiente de paz? A primeira coisa que busca é, não por coincidência, um colega dos tempos de conflito. Ele não quer esquecer suas aventuras, ele quer relembrar. Mais do que isso, ele precisa lembrar. Assim, ao descobrir que o amigo havia falecido, seu sentimento de isolamento e não pertencimento aumenta.</p>
<p>Posteriormente, ao sofrer uma abordagem truculenta do xerife Teasle, reforça-se este sentimento. É quase como se Rambo fosse um estrangeiro em sua própria terra. Justamente a nação que jurou defender e viu diversos amigos perecerem. O antagonista do filme nunca deixa seus motivos claros, mas torna-se óbvio: A Guerra do Vietnã foi considerada um fracasso e os combatentes ficaram com estigma de problemáticos, agressivos e transtornados. Ninguém os quer por perto.</p>
<p>Em uma das cenas mais emblemáticas de <em>Programado Para Matar</em>, logo no primeiro ato, Teasle dá uma carona coercitiva para Rambo até o limite de cidade, delimitado por uma ponte. Segundo o xerife, caso voltasse, arranjaria problemas para si mesmo. Com isso, o herói até começa a caminhar na direção correta, mas para e dá meia volta. Mais do que a travessia literal da ponte, este momento significa muito. Afinal, caso seguisse em frente, qual seria seu destino? O que o mundo lá fora tem para oferecer? Ao perceber que a resposta é &#8220;nada&#8221;, Rambo cruza um caminho sem volta para o único ambiente que conhece, a eterna guerra.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-11342" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/Rambo-750x500.jpg" alt="" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/Rambo.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/Rambo-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/Rambo-360x240.jpg 360w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Neste sentido, o figurino indica muito sobre esta natureza. Quando o filme começa, o protagonista está usando um casaco militar, com a bandeira dos EUA, em um tom de verde desbotado e um botão aberto. Por baixo, ele veste uma camisa vermelha, que representa sua violência parcialmente escondida, como se estivesse tentando escondê-lá. Ainda assim, sua camada exterior não se confunde com a de um cidadão normal. Rambo é, em sua essência, a personificação da guerra norte-americana.</p>
<p>Naturalmente, com o passar da história, o personagem descobre uma dura realidade. O inimigo está em todo lugar, seja na floresta do Vietnã, quanto no ambiente urbano norte-americano. Aliás, esse mostra-se um vilão muito pior e mais cruel. Mais do que enfrentar soldados e policias, ele está lutando contra o Estado repressor.</p>
<p>Inclusive, o fato de Rambo não matar diretamente nenhum desses representantes do Estado — uma mudança em relação ao livro — diz muito. Assim como ele foi um fruto desta política belicística, aquelas pessoas são apenas peões de um sistema muito maior. Fazer uma pilha de corpos seria inútil, pois assim como uma hidra, a cada cabeça cortada nasceriam duas. No único falecimento do filme, há ainda o cuidado de não ser ação provocada diretamente por Rambo, com o soldado caindo de um helicóptero sozinho.</p>
<p>Caso seguisse fielmente o livro de Morrell, <em>Programado Para Matar</em> teria mais uma morte: a do próprio protagonista, que chegou a ser filmada como um suicídio, mas descartada. E talvez esse fosse o final mais apropriado para o filme, uma vez que o personagem vivido por Sylvester Stallone percebe que não há mais esperança. Abandonado, perseguido e rejeitado, Rambo seria perseguido pelos traumas da guerra aonde quer que fosse, como incansáveis sombras. Todavia, o espírito otimista de Stallone, somado a busca insaciável de Hollywood pelo lucro, permitiu que posteriores sequências fossem feitas e desvirtuassem completamente da essência original da franquia <strong><em>Rambo</em></strong>, virando somente tiro, porrada e bomba.</p>
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		<title>Especial: O horror de Ari Aster</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Felipe Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Sep 2019 21:58:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Midsommar - O Mal não Espera a Noite]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Numa sexta-feira 13, nada melhor do que uma boa discussão sobre o gênero que faz o público se arrepiar de medo. Em meio ao vasto universo cinematográfico do pavor, uma das maiores barreiras encontradas são as limitações de gênero. A possibilidade de um espectador interpretar o filme de forma equivocada é grande. Diante desse embate, o universo dos filmes de terror e horror vivem um dilema crucial. As diferenças entre os dois tipos de abordagens passam despercebidas ao público e, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Numa sexta-feira 13, nada melhor do que uma boa discussão sobre o gênero que faz o público se arrepiar de medo. Em meio ao vasto universo cinematográfico do pavor, uma das maiores barreiras encontradas são as limitações de gênero. A possibilidade de um espectador interpretar o filme de forma equivocada é grande. Diante desse embate, o universo dos filmes de terror e horror vivem um dilema crucial. As diferenças entre os dois tipos de abordagens passam despercebidas ao público e, em muitos casos, pode destruir a experiência. O problema se intensificou com a renovação das narrativas de horror dos últimos anos, onde o público coloca terror e horror como formatos iguais de atmosfera e efeitos.</p>
<p>Mas então qual seria a diferença na experimentação destas duas tipologias? O terror pode ser entendido como um gênero que visa assustar o espectador. Por meio de jogos com os medos mais primitivos do público, o terror se propõe a intensificar os pavores da audiência. Se bem executado, a produção tem como resultado sustos e pânico. Em contrapartida, o horror traz como proposta um diálogo com a psique do espectador. Suas narrativas brincam com a barreira do que é tolerável psicologicamente, o que pode causar repulsa, aversão ou pavor. Ou seja, em linhas bem gerais, os filmes de terror focam na composição narrativa que causa o susto, a tensão e o pânico, enquanto os longas de horror se dedicam na elaboração de uma história que leve o público aos limites da sua tolerância física e capacidade mental.</p>
<p>Em meio as confusões entre os tipos de filmes em questão, eis que surge o diretor e roteirista Ari Aster. O americano aparece nas telonas, em 2018, com seu primeiro longa-metragem, o sucesso de crítica e bilheteria <a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-hereditario/"><em>Hereditário</em></a>. O mundo se chocou com as terríveis vivências sobrenaturais que envolveram a família Graham. A produção cria – por intermédio de um universo sombrio, caótico e gélido – uma experiência de horror intensa e brutal. <em>Hereditary</em> (título original) causou algumas reviravoltas no estômago dos espectadores mundo afora por sua premissa aterrorizante tão característica do horror.</p>
<p>Dessa forma, o diretor imprimiu, de forma criativa e completa, o que é uma obra de horror. Ari Aster traz, como uma de suas principais marcas, roteiros chocantes. A partir da utilização de problemas cotidianos, Aster cria narrativas viscerais, intensas e de pura agonia.  Essas se mostram capazes, ao mesmo tempo, de causar repulsa e fascinar o espectador. O interesse pelo culto sobrenatural se mostrou uma outra fonte de inspiração do cineasta. Tanto em seu primeiro filme como agora em <em><strong>Midsommar &#8211; O Mal não Espera a Noite</strong></em> – o qual estreia na próxima quinta-feira (19) –, o diretor se inspira nas ansiedades e medos da modernidade para criar uma experiência de puro horror. Aster chega para mostrar ao público a tipologia cinematográfica que define o seu trabalho e para explicitar as diferenças entre horror e terror.</p>
<p>Mesmo imprimindo sua assinatura com clareza, Aster se mostra extremamente diverso e capacitado no quesito criação. Como resultado disso, apesar de se serem originárias dos temores reais, as narrativas dos dois filmes de Ari se mostram completamente diferentes. Por essa razão, 0 enredo, a composição imagética e a atmosfera de <em><strong>Midsommar</strong></em> é oposta à<em> Hereditário</em>. Cada uma, portanto, coexiste em seu universo de possibilidades, ansiedades e medos. E, em certa medida, as duas obras do americano podem ser interpretadas como ying e yang, opostos complementares do diretor.</p>
<p style="text-align: center;"><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-11270" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/0009771.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-750x500.jpg" alt="" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/0009771.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/0009771.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/0009771.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-360x240.jpg 360w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Enquanto <em>Hereditário</em> foca sua trama na perda de um familiar, no distanciamento entre as pessoas e no peso que segredos tem sobre uma família, <em><strong>Midsommar</strong></em> se preocupa em retratar a solidão. A segunda obra de Aster sai de uma discussão das relações familiares caóticas para uma abordagem psicológica do eu – onde esse eu moderno se vê constantemente solitário. Sendo resultado de uma direção de arte brilhante, o novo filme do cineasta mostra a verdadeira face do mal em meio a uma realidade palpável, uma vez que o medo aparece diante da luz, com cores intensas e numa faceta que condiz com o padrão social.</p>
<p>Nas escolhas técnicas das produções, Aster seguiu caminhos diferentes para cada uma de suas histórias. <em>Hereditário</em> usou jogo de sombras, cores frias e a metalinguagem das miniaturas feitas pela personagem de Toni Collette (<em>Pequena Miss Sunshine</em>, de 2006) como artifícios para transmitir o pavor vindo do sobrenatural, do desconhecido. Além disso, o constante uso de cenas com <em>close-ups</em> e plano-detalhe foram fundamentais fundamental para compor a atmosfera de <em>Hereditary.</em></p>
<p>Como seu &#8220;oposto complementar&#8221;, <strong><em>Midsommar</em></strong> é uma verdadeira carta à humanidade sobre a temida solidão. Para evidenciar isso, a produção surpreendente à todos pelos artifícios usados para provocar esse sentimento no público. O filme, ao contrário do que se pode esperar de uma temática dessas, utiliza cores vívidas em suas cenas mais assombrosas, compõe os ambientes com uma luz irradiante e uma paleta de cores extremamente diversificada. A consequência disso é a força avassaladora que resulta dessa composição cênica. A natureza nunca foi tão hostil em seus dias mais alegres.</p>
<p>Todos esses fatores se unem ao vazio existencial presente no subtexto da narrativa, em seus personagens principais e até nas escolhas de filmagens – como o uso constante de planos gerais, mostrando a insignificância das pessoas diante da imensidão da natureza e de suas forças celestiais. Escolhas ousadas as quais obtiveram um surpreendente e aterrador resultado. Dessa forma, ao final da sessão, a experiência de assistir <strong><em>Midsommar</em></strong> é completamente diferente do que se espera de uma obra de horror e até mesmo do que se especulava da produção.</p>
<p>Assim, o público ganha a oportunidade de experimentar uma nova obra de horror que segue a risca o seu significado. Complementando trabalho feito em <em>Hereditary</em> e ampliando suas abordagens das ansiedades da modernidade, Ari Aster fez o inimaginável com cuidado, esmero e criatividade extrema. Mais uma vez o diretor e roteirista se muniu de uma boa equipe que, junto à sua brilhante história, criaram um dos filmes mais complexos para a mente humana. Talvez a metáfora da solidão passe despercebida por alguns espectadores, mas, àqueles que captarem a mensagem, preparem-se para vivenciar a angústia de uma verdadeira obra de horror. Preparem-se para <strong><em>Midsommar &#8211; O Mal não Espera a Noite</em></strong>.</p>
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