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	<title>Arquivos Ryan Murphy - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Ryan Murphy - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: A Festa de Formatura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Dec 2020 12:32:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há sempre certo burburinho quando uma nova obra dirigida e/ou escrita por Ryan Murphy (The Normal Heart) é anunciada. Isto se torna mais intenso quando figuras renomadas do cinema, como Meryl Streep (Adoráveis Mulheres) e Nicole Kidman (O Escândalo), estão envolvidas no projeto. Assim, as expectativas para A Festa de Formatura estavam altas. Talvez, por isso, o espectador desavisado tenha uma experiência mais significativa e prazerosa, por esperar menos, a recepção pode acontecer de maneira mais tranquila. Mas, no geral, [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Há sempre certo burburinho quando uma nova obra dirigida e/ou escrita por Ryan Murphy (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-the-normal-heart-hbo/" target="_blank" rel="noopener"><em>The Normal Heart</em></a>) é anunciada. Isto se torna mais intenso quando figuras renomadas do cinema, como Meryl Streep (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-adoraveis-mulheres/"><em>Adoráveis Mulheres</em></a>) e Nicole Kidman (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-o-escandalo/"><em>O Escândalo</em></a>), estão envolvidas no projeto. Assim, as expectativas para <strong><em>A Festa de Formatura</em></strong> estavam altas. Talvez, por isso, o espectador desavisado tenha uma experiência mais significativa e prazerosa, por esperar menos, a recepção pode acontecer de maneira mais tranquila. Mas, no geral, é possível dizer que o que acontece aqui é a realização de uma produção mediana, sem viço e irregular.</p>
<p>As principais razões para este resultado estão no roteiro e na direção. Baseado na peça homônima da Broadway, esta adaptação peca por suas idas e vindas no seguimento do <em>plot</em> e por colocar uma protagonista que, diferentemente do esperado, não move as ações, deixando-se levar pelas decisões dos outros, na maior parte da projeção. Emma (Jo Ellen Pellman) é uma adolescente que deseja levar sua namorada para a festa de formatura, mas o conselho de pais é homofóbico e faz de tudo para que a jovem não consiga o que quer. Ao mesmo tempo, um quarteto de atores decadentes vê esta informação no <em>Twitter</em> e decide interferir no caso, para conseguir visibilidade para as suas carreiras desafortunadas.</p>
<p>É nisso que o filme mais se complica! Entre tentar desenvolver o romance de Emma e seus percalços para alcançar seu sonho e dos quatro artistas, os roteiristas Bob Martin (<em>Som e Fúria: O Filme</em>) e Chad Beguelin (<em>Elf: Buddy&#8217;s Musical Christmas</em>) se enrolam e não acertam na mão ao contar uma história que apresente uma unidade ou fluxo da trama de maneira equilibrada. Talvez, o mais próximo que cheguem em iniciar e fechar o ciclo narrativo seja com Dee Dee (Streep).  A dupla foi ambiciosa demais ao inserir tantas premissas que não consegue dar conta de suas próprias criações, deixando soluções fáceis e ingênuas para os últimos minutos de projeção, como a repentina mudança de ideia de Mrs. Greene (Kerry Washington) ou a rodada de conclusões de arcos, na qual, praticamente, todos do elenco anunciam que venceram os seus problemas.</p>
<p>Outro fator que chama atenção no longa é a ausência de ritmo. Veja bem, existe uma ideia forte no imaginário das pessoas que velocidade é sinônimo de qualidade rítmica. Contudo, é o equilíbrio entre aceleração, lentidão, intensidade e alívio que imprime uma boa dinâmica neste quesito. A direção de Murphy é uma das maiores responsáveis por esta sensação. Os giros de câmera e uma quantidade incontável de zoom in e out podem cansar o público logo nos primeiros minutos de exibição. É como se ele quisesse, constantemente, chamar a atenção para algo. Mas, quando se utiliza um recurso tantas vezes fica difícil não deixar as ações diluídas. Poucos respiros visuais são inseridos, dificultando o engajamento com a própria história.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-13602" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2020/12/201211-the-prom-netflix-ew-305p_1b7b20b1bc6468f75bbba783f3514f59.jpg" alt="A Festa de Formatura" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2020/12/201211-the-prom-netflix-ew-305p_1b7b20b1bc6468f75bbba783f3514f59.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2020/12/201211-the-prom-netflix-ew-305p_1b7b20b1bc6468f75bbba783f3514f59-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2020/12/201211-the-prom-netflix-ew-305p_1b7b20b1bc6468f75bbba783f3514f59-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2020/12/201211-the-prom-netflix-ew-305p_1b7b20b1bc6468f75bbba783f3514f59-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Neste frenesi, esta espécie de Romeu e Julieta lésbico contemporâneo, com toques de musical tradicional da Broadway, se perde por tentar ser muito e alcançar pouco. No entanto, apesar das falhas gerais, um dos destaques positivos é a atuação de Kerry Washington. Dentro de um contexto monocórdico, consegue evocar nuance em sua interpretação. Washington colore as palavras com tônicas distintas, está sempre trabalhando os seus gestos e olhares com destreza, pois circula entre o maior e o menor.</p>
<p>Os outros intérpretes não estão ruins, porém a maioria se entrega a forma – incluindo Meryl Streep. Numa impossibilidade de ir mais adiante dentro do que o próprio enredo traz, eles são mais tipos do que qualquer coisa. Nicole Kidman escapa um pouco desta dinâmica, mas, é preciso salientar como seu papel é subaproveitado. A atriz mostra todo seu potencial na sequência na qual canta “Zazz” e em todas as suas contracenas. Ela sabe jogar com seus colegas e reage na medida aos acontecimentos ao seu redor. Ou seja, Kidman está atenta as emoções de sua personagem e o que ocorre perto dela, mas não tira a atenção do que está sendo mostrado no ecrã.</p>
<p>No final das contas, <strong><em>A Festa de Formatura</em></strong> é ok. Se quem assiste tiver paciência para suportar as partes entediantes, alguns momentos irão valer a pena. Para as mulheres lésbicas e bissexuais há algum ganho, porque ninguém morre, é trocada por um homem ou possui qualquer final trágico do tipo – sim, é o mais comum no cinema, nas séries e nos livros. De acordo com o Salon.com, além dos desfechos tristes recorrentes, desde 1976, 67% das personagens femininas lésbicas ou bissexuais faleceram na ficção. Este avanço é um tanto pequeno, mas não deixa de ser importante. Além disso, instantes de fofura vos esperam! Rápidos, porém significativos.</p>
<p><strong>Direção</strong>: Ryan Murphy</p>
<p><strong>Elenco</strong>: Meryl Streep, Nicole Kidman, Jo Ellen Pellman, James Corden, Kerry Washington, Tracey Ullman, Keegan-Michael Key, Andrew Rannells, Ariana DeBose</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/_udCjJu4DpQ" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p><p>O post <a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-a-festa-de-formatura/">Crítica: A Festa de Formatura</a> apareceu primeiro em <a href="https://coisadecinefilo.com.br">Coisa de Cinéfilo</a>.</p>
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		<title>Para sentir o drama mesmo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marcela Gelinski]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Aug 2014 00:30:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Premiações]]></category>
		<category><![CDATA[Alfred Molina]]></category>
		<category><![CDATA[Jim Parsons]]></category>
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		<category><![CDATA[Mark Ruffalo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; A produção original da HBO The Normal Heart tem fortes chances de faturar alguns Emmys no próximo dia 25 de agosto – foram onze indicações ao prêmio, entre elas, as de melhor filme para TV, melhor ator principal e coadjuvantes em filmes neste formato, assim como de direção e roteiro. O filme já foi discutido antes aqui, mas merece destaque nessa coluna. Dirigido por Ryan Murphy e escrito por Larry Kramer, o filme se baseia na peça teatral de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_1792" aria-describedby="caption-attachment-1792" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/normalh2.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1792 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/normalh2-620x368.jpg" alt="normalh2" width="620" height="368" /></a><figcaption id="caption-attachment-1792" class="wp-caption-text">11 indicações: Telefilme chega ao Emmy com pinta de favorito aos prêmios das categorias nas quais concorre.</figcaption></figure></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A produção original da HBO <em>The Normal Heart</em> tem fortes chances de faturar alguns Emmys no próximo dia 25 de agosto – foram onze indicações ao prêmio, entre elas, as de melhor filme para TV, melhor ator principal e coadjuvantes em filmes neste formato, assim como de direção e roteiro. O filme já foi discutido antes <a href="http://coisadecinefilo.com.br/critica-the-normal-heart-hbo/">aqui</a>, mas merece destaque nessa coluna.</p>
<p>Dirigido por Ryan Murphy e escrito por Larry Kramer, o filme se baseia na peça teatral de mesmo nome escrita por ele em 1985. Conduzidos pelo protagonista Ned Weeks, interpretado por Mark Ruffalo, acompanhamos o drama vivenciado pelas pessoas LGBT no início daquela década, quando os primeiros casos de AIDS começaram a atingir a população gay. Ao presenciar a morte dos amigos e o descaso do governo com aquela situação, cada vez mais agravante, Weeks, um escritor polêmico e combativo, que, inclusive, não é tão bem recebido pelo público gay por suas críticas aos comportamentos de liberdade sexual por julgá-los moralmente como promíscuos, junta forças com a Dra. Emma Brookner (Julia Roberts) para militar em busca de estudos sobre a doença que acabara de surgir assim como auxiliar e conscientizar a população atingida pela AIDS.</p>
<p><figure id="attachment_1794" aria-describedby="caption-attachment-1794" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-1794 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/julia-620x348.jpg" alt="julia" width="620" height="348" /><figcaption id="caption-attachment-1794" class="wp-caption-text">Aliada: Médica vivida por Julia Roberts junta-se ao protagonista na luta da causa.</figcaption></figure></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É interessante notar, então, as estratégias que o filme toma ao trazer a tensão constante existente dentro do grupo identitário composto pelos LGBT. Os diálogos monologais, possivelmente advindos da peça original, dão um tom de confissão e desabafo ao filme. Aqui, não é só a AIDS que é discutida, mas a própria condição sexual e a maneira que os indivíduos vivenciam suas realidades através dela.</p>
<p>Quando Weeks e a Dra. Brookner passam a reunir amigos e realizar reuniões para conscientizar os mais próximos da necessidade de controlarem seus impulsos sexuais, já que haviam indicações da transmissão sexual da doença, os gays não aceitam bem a ideia já que vinham, até então, defendendo a sua liberdade de se relacionarem abertamente sem temerem sua sexualidade.</p>
<p>O temperamento explosivo de Weeks e o modo com que milita pelo suporte daqueles gays contaminados pela AIDS, com suas polêmicas atitudes para chamar a atenção das autoridades, seja em público ou na mídia, passa a ser vista por alguns como uma maneira de autopromoção, de modo a questionarem as reais intenções do escritor.</p>
<p><figure id="attachment_1795" aria-describedby="caption-attachment-1795" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/the-normal-heart.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1795 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/the-normal-heart-620x319.jpg" alt="the-normal-heart" width="620" height="319" /></a><figcaption id="caption-attachment-1795" class="wp-caption-text">As duas vozes da causa: As abordagens da questão pelos personagens de Mark Ruffalo e Taylor Kitsch chamam a atenção.</figcaption></figure></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por isso, os amigos, que no início o ajudam e inclusive, se juntam pra montar uma instituição de apoio, começam a se sentir cada vez mais incomodados com a combatividade de Weeks, gerando um desgaste crescente dentro do grupo. Ora, Weeks já não era tão bem aceito por suas ideias em suas obras, agora, alguns passam a enxergá-lo como uma ameaça às conquistas da comunidade ao defender uma forma de repressão dos desejos sexuais dos gays.</p>
<p>A lógica de alguns personagens pode até parecer rasa e simplista à primeira vista, mas é compreensível graças ao modo com que, talvez por ser derivada de uma peça teatral, o filme traz os diálogos bem dramáticas e, muitas vezes, com um tom monologal como afirmei mais acima – é muito difícil não se emocionar e compreender a dor do personagem Mickey Marcus (Joe Mantello), em um ponto chave e representativo deste conflito entre os personagens, quando realiza um desabafo em que demonstra ao mesmo tempo uma indignação com a realidade de descaso vivida por eles diante da falta de atenção das autoridades, a culpa sentida por ter lutado durante tempos para terem a liberdade de vivenciarem suas sexualidades e agora ter essa liberdade apontada como a causa pela contaminação dentro da comunidade e a discordância com os métodos e as ideias de Weeks.</p>
<p>Tal tensão também é percebida, por exemplo, quando nas reuniões para se eleger o representante da instituição, há claramente uma preferência por Bruce Miles (Taylor Kitsch) – este é justamente o oposto de Weeks; masculino, com um pé dentro do armário e com um discurso de assimilação e integração aos padrões heterossexuais, Miles é enxergado como um caminho mais tranquilo para se dialogar com as autoridades e conseguir o apoio necessário. No entanto, Miles tem justamente em Weeks o melhor amigo, que o escuta em todos os momentos de crise – inclusive quando ele começa a sentir o peso da suspeita de ter sido um dos vetores iniciais da doença, já que perde, sucessivamente, parceiros contaminados pela AIDS ao longo do filme, o que vai gerando uma instabilidade emocional crescente no personagem.</p>
<p><figure id="attachment_1796" aria-describedby="caption-attachment-1796" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/650_1000_140524-normal-heart-mark-struggling-1024.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1796 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/650_1000_140524-normal-heart-mark-struggling-1024-620x349.jpg" alt="650_1000_140524-normal-heart-mark-struggling-1024" width="620" height="349" /></a><figcaption id="caption-attachment-1796" class="wp-caption-text">Alta tensão: Elevado teor emocional do protagonista dimensionam o problema para o espectador.</figcaption></figure></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entender como e o porquê Ned Weeks tem um temperamento explosivo é um processo que se dá a partir de seu relacionamento com o irmão Ben Weeks (Alfred Molina), com o namorado, o jornalista Felix Turner (Matt Bomer) e também, embora em uma quantidade de tempo menor no longa, mas não menos importante, com a Dra. Emma Brooks e Tommy Boatwright (Jim Parsons). É na interação com estes personagens que Ned nos é revelado quanto a sua personalidade e seus posicionamentos, assim como nota-se a força da atuação deste núcleo de personagens – especialmente os dois últimos citados, que marcam pela ausência e sempre roubam a cena quando surgem.</p>
<p>Em um diálogo fortíssimo (palmas para Mark Ruffalo e Alfred Molina), a indignação de Ned transparece numa catarse em que ele dá um ultimato ao irmão de que só irá considera-lo novamente, quando aquele o enxergar como igual. Embora sempre tenha apoiado o irmão, fica claro que Ben foi cúmplice da maneira com que a família tratou a sexualidade de Ned, levando a vários psicólogos que tentavam curá-lo de sua “doença”; no discurso de Ben, embora revelado em meio a confusão e a dor, fica claro também a sua incompreensão com a luta do irmão e o modo como ele ainda o enxerga como um doente, revelando assim a contradição que muitos familiares têm com seus parentes LGBT ao ficarem dividos entre o sentimento que têm por eles e sua não aceitação da sexualidade do outro.</p>
<p>Assim, surpreendentemente, é Felix Turner, que, ao final, surge como uma possibilidade de retorno ao contato entre os irmãos quando, em outro ponto chave, é responsável por esse restabelecimento. A interpretação reservada de Matt Bomer é um dos pontos fortes do filme – namorado de Ned, o personagem ganha profundidade com o avanço do longa e dá ao telespectador um elo que demonstra os medos e fraquezas do outro personagem, já que ele sempre parece em combate com os outros e, com Turner, tem, naturalmente, um comportamento amoroso e confessional, ao mesmo tempo que, a partir do momento em que se descobre contaminado pelo vírus, nos apresenta a triste realidade vivenciada pelo casal advinda da crescente piora de sua saúde.</p>
<p><figure id="attachment_1797" aria-describedby="caption-attachment-1797" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/normalh6.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1797 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/08/normalh6-620x348.jpg" alt="normalh6" width="620" height="348" /></a><figcaption id="caption-attachment-1797" class="wp-caption-text">Jim Parsons: Ator de &#8220;The Big Bang Theory&#8221; é um dos destaques do projeto de Ryan Murphy.</figcaption></figure></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Outros dois grandes destaques do filme, embora com pouco espaço na tela, são os personagens interpretados por Julia Roberts e Jim Parsons. A Dra. Emma Brookner é de longe a personagem mais interessante e complexa do filme – muito difícil entender suas motivações (fora aquelas alegadas explicitamente), visto que pouco nos é revelado sobre ela, a não ser o que a levou a paralisia foi a pólio em sua infância. Certo é que sempre rouba cena, seja pela personalidade arredia e ao mesmo tempo protetora, seja pelo esforço e paciência da personagem ao lidar com temperamentos, igualmente, difíceis como o próprio Ned Weeks, demonstrando, assim, um grande esforço de empatia. Destaque para a cena em que ela explode diante de uma comissão de apoio financeiro do Estado, que julga seu projeto para pesquisar a AIDS e nega o suporte.</p>
<p>A maior surpresa do filme, no entanto, fica a cargo de Jim Parsons. O ator, conhecido pelo seu papel na série de comédia The Big Bang Theory, traz um personagem, Tommy Boatwright, econômico e simples, mas que comunica pelo silêncio na mesma proporção que Ned Weeks comunica pelo grito. Solitário e reservado, o personagem apoia Weeks até os limites e surge como símbolo da amizade familiar existente entre os LGBT, já que muitas vezes estes têm de renunciar à vida no seio familiar dos laços de sangue pela discriminação sofrida pelos parentes e encontram nos amigos uma nova família. Vivendo sempre para os outros e para o trabalho, ele é incentivado por Ned ao longo do filme a buscar viver sua própria vida. Seu monólogo durante o enterro de um dos amigos do grupo é sem dúvida a cena mais forte e simbólica da dor e indignação sentida pelos LGBT, seja pela incapacidade de compreender o descaso e a assustadora circunstância em que eles se encontravam (e as outras vivenciadas nos dias atuais), assim como pela dificuldade em entender o porquê dele, seus amigos e aqueles que compartilhavam da mesma orientação sexual serem tão rejeitados, considerados abjetos e desumanizados pela sociedade.</p>
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		<title>Crítica: The Normal Heart (HBO)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Jun 2014 00:31:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Julia Roberts]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; A década de 1980 não foi um período muito fácil para a &#8220;comunidade&#8221; gay norte-americana &#8211; e coloco esse comunidade entre aspas pois não gosto muito da definição, restringe um grupo a um gueto ao invés de incluí-lo na sociedade. Era o auge da epidemia da Aids e os primeiros casos noticiados envolviam homossexuais do sexo masculino. Somando o estigma de &#8220;grupo de risco&#8221; ao preconceito que os gays já sofriam &#8211; se hoje é perceptível, imagina na época [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_1085" aria-describedby="caption-attachment-1085" style="width: 598px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/05/0001.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1085" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/05/0001-620x308.jpg" alt="0001" width="598" height="297" /></a><figcaption id="caption-attachment-1085" class="wp-caption-text">Causa humana: Movimento gay a favor de uma cura da Aids é o tema de telefilme da HBO.</figcaption></figure></p>
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<p>A década de 1980 não foi um período muito fácil para a &#8220;comunidade&#8221; gay norte-americana &#8211; e coloco esse comunidade entre aspas pois não gosto muito da definição, restringe um grupo a um gueto ao invés de incluí-lo na sociedade. Era o auge da epidemia da Aids e os primeiros casos noticiados envolviam homossexuais do sexo masculino. Somando o estigma de &#8220;grupo de risco&#8221; ao preconceito que os gays já sofriam &#8211; se hoje é perceptível, imagina na época -, o governo não teve intenção alguma de conter o avanço do contágio. Nesse cenário, os primeiros grupos politizados de homossexuais começaram a se organizar criando organizações de amparo às vítimas da Aids e buscando uma cura para o  que foi taxado de &#8220;câncer gay&#8221;.</p>
<p><em>The Normal Heart</em>, produção original da HBO, faz um panorama dessa época com ecos ainda sentidos no presente através da homofobia e da penumbra que insiste em rondar a Aids. O homem por trás desse telefilme é Ryan Murphy, realizador de <em>Comer Rezar Amar</em>, mas que marcou seu nome mesmo ao conceber as séries <em>Nip/Tuck </em>e <em>Glee</em>. Mas aqui o tema não é tão suave, Murphy tem em mãos um material extremamente delicado. O roteiro de Larry Kramer aborda o envolvimento de Ned Weeks na luta pela tolerância gay em função das sucessivas perdas em sua vida. Muitos amigos de Ned morrem vítimas da Aids e ele e outros companheiros fundam uma organização de amparo às vítimas. No entanto, Ned quer mais do que ser um porto seguro para doentes terminais, quer que a cura da epidemia seja objeto de pesquisas para que ele e seus amigos possam relacionar-se sem o receio de contrair o vírus.</p>
<p><figure id="attachment_1086" aria-describedby="caption-attachment-1086" style="width: 588px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/05/normalheart1.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1086" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/05/normalheart1.jpg" alt="The Normal Heart Mark Ruffalo, Matt Bomer" width="588" height="328" /></a><figcaption id="caption-attachment-1086" class="wp-caption-text">Humanidade à flor da pele: A construção de relações de carne e osso pelo realizador e pelo seu elenco é um dos principais méritos do projeto. Interpretando o namorado do personagem de Mark Ruffalo, Matt Bomer é a revelação do projeto.</figcaption></figure></p>
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<p>Ryan Murphy conseguiu abordar com muita sensibilidade os relacionamentos que preenchem esse filme, seja a relação de Ned com seu namorado, o jornalista do New York Times Felix Turner (Matt Bomer), seja sua afetuosa relação com o irmão mais velho, um amparo familiar que lhe trouxe bastante segurança e conforto para lidar com a sua sexualidade. Há muita sinceridade em torno dessas relações e por isso Murphy consegue trazer para seu filme um cenário em que o espectador se importa com o destino dos seus personagens, se envolva com suas histórias e desperte a consciência para a dimensão da sua causa. O tom panfletário do longa é notório e inevitável ao projeto, mas está longe de ser impertinente e forçado como algumas outras obras de cunho político ou social já foram. Por se apoiar no aspecto humano da causa, o tom de discurso em praça pública de <em>The Normal Heart </em>se justifica e se impõe ao espectador.</p>
<p>Como o protagonista do longa, Mark Ruffalo poderia ser uma das principais &#8220;vítimas&#8221; desse tom panfletário. Eventualmente, seu personagem surge em cena aos berros com outros personagens, causando uma certa irritação pelo tom constante de confronto, como já dito um traço do projeto que o diretor consegue controlar através das relações humanas que estabelece ao longo da fita. Por estar na linha de frente, Ruffalo acaba sendo prejudicado por esse aspecto inerente ao projeto, mas nada que prejudique a obra e o trabalho do ator. Sempre respeitoso com o personagem e com o contexto que o cerca, Ruffalo evita transformar Ned em uma alegoria histérica, evitando qualquer tipo de estereotipação ou afetação em sua composição.  No entanto, apesar de ser protagonista, Ruffalo acaba sendo ofuscado por seus colegas que oferecem ao público performances irretocáveis, entre eles Matt Bomer (uma grata revelação), intérprete do parceiro de Ned, que se transforma física e psicologicamente ao longo da narrativa; Julia Roberts, interessante como a pragmática porém humana Dra. Emma Brookner; Alfred Molina, comovente como o irmão do protagonista em uma cena definitiva para a obra; e Jim Parsons (de <em>Big Bang Theory</em>), com um pequeno personagem muito bem defendido pelo ator.</p>
<p><figure id="attachment_1072" aria-describedby="caption-attachment-1072" style="width: 568px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/05/normalh5.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1072" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/05/normalh5-620x335.jpg" alt="normalh5" width="568" height="307" /></a><figcaption id="caption-attachment-1072" class="wp-caption-text">Explosões: Tom panfletário do projeto é justificado pela dimensão do drama vivido pelos personagens. Julia Roberts tem uma das interpretações mais sólidas do filme.</figcaption></figure></p>
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<p>Se <em>The Normal Heart </em>é uma obra panfletária e mergulha fundo no seu próprio tristeza é porque não havia outro meio para contar essa narrativa. Não há um momento particular de alegria nesse capítulo dos anos de 1980. Ryan Murphy justifica todo esse tom orgânico da sua obra através de personagens humanos com relacionamentos concretos, reais, de carne e osso. Por contar com atores que souberam sustentar esse aspecto da obra e por conduzí-los a nuances tão interessantes essa nova produção da HBO está entre uns dos seus melhores trabalhos nesse primeiro semestre, tão forte quanto <em>Behind the Candelabra </em>e <em>Temple Grandin </em>em anos passados . É um dos raros casos em que a emoção transcende qualquer esquema objetivo de avaliação crítica.</p>
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