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	<title>Arquivos Marcus Curvelo - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Marcus Curvelo - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>15º Olhar de Cinema: Entrevista com o cineasta Marcus Curvelo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:07:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Marcus Curvelo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Falando sobre luto e memória, Marcus Curvelo revela detalhes sobre seu novo longa-metragem. De acordo com o cineasta, em Reparação, são convocados sentimentos profundos sobre a perda de seus pais. Através do uso da autoficção, Curvelo explica como juntou o desejo de homenagear seus pais com o amadurecimento de uma linguagem cinematográfica. O artista revela que se inspira em um universo fantasmagórico e em cineastas que mesclam o ficcional com o “real”. Sobre a escolha pelo documentário, Curvelo afirma que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="font-weight: 400;">Falando sobre luto e memória, Marcus Curvelo revela detalhes sobre seu novo longa-metragem. De acordo com o cineasta, em <i>Reparação</i>, são convocados sentimentos profundos sobre a perda de seus pais.</p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Através do uso da autoficção, Curvelo explica como juntou o desejo de homenagear seus pais com o amadurecimento de uma linguagem cinematográfica.<br />
</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">O artista revela que se inspira em um universo fantasmagórico e em cineastas que mesclam o ficcional com o “real”. </span><span style="font-weight: 400;">Sobre a escolha pelo documentário, Curvelo afirma que o próprio contexto de sua carreira fomentou esse caminho.<br />
</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">“Pelo modelo de produção, pela maioria desses filmes teriam sido feitos sem dinheiro”. </span><span style="font-weight: 400;">Para o artista, descristalizar o seu cinema e se colocar vulnerável foram pontos centrais para <em>Reparação</em>. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Mesclando declaração sobre processo artístico e emoções complexas de seu cotidiano, o bate-papo com Curvelo se desenvolveu. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ENTREVISTA COMPLETA</b></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>Enoe Lopes Pontes </b><span style="font-weight: 400;">&#8211; Eu queria começar um pouco tentando conectar a sua trajetória com como você chega a esse filme. Como é que você chega até esse momento desse filme? Você sente uma diferença estilística, temática? </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>Marcus Curvelo</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Tem um curta que eu acho que é mais próximo desse longa, que é </span><i><span style="font-weight: 400;">A destruição do planeta Live</span></i><span style="font-weight: 400;">. Não sei se você viu esse.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211;  Vi! Eu sou “Curveler”. (Risos).</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Ele é preto e branco também, e tem meus pais também. Inclusive tem um plano que eu repito, que é meu pai sentadinho, aí eu pego a sacolinha com a arma dele. É o mesmo plano.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211;  Ah! </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Que está nos dois filmes. Mas, eu comecei a pensar no </span><i><span style="font-weight: 400;">Reparação</span></i><span style="font-weight: 400;">, porque eu estava já com os materiais dos meus pais e eu queria fazer um filme sobre eles. Porque fui sentindo eles envelhecendo, veio a pandemia e tinha passado já muitos anos fora de casa. Eu acho que sempre houve uma pesquisa,  uma prática na autoficção, desde alguns curtas. Eu sei que teve um período que essa autoficção estava mais dentro da ficção mesmo, com personagens fictícios, o Joder. Mas, eu acho que desde a distribuição do </span><i><span style="font-weight: 400;">Planeta Live</span></i><span style="font-weight: 400;">, que eu tô mais indo pro documentário, para a autoficção. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Sim.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Dentro dessas tentativas, desses experimentos, eu fui entendendo que eu queria aprofundar mais o documentário, até também por modelo de produção, pela maioria desses filmes teriam sido feitos sem dinheiro.  Eu acho que combina mais, talvez, com o meu estilo, com o que eu estou fazendo, com equipes reduzidas, filmar às vezes em tempos mais espaçados e não necessariamente fazer um filme de forma linear.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Ah, sim.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; E eu senti necessidade de me distanciar. Eu estou muito no filme, claro, mas senti uma necessidade de distanciar, dessa coisa tão central no personagem, que era Joder o ser o que guiava. O filme é sobre alguma coisa que acontece com esse personagem. Ele atravessa isso, mas ele não é o centro. E fiz, uns curtas, uma coisa que torna um estilo, que é humor, a autoironia, de brincar com a própria precariedade.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Sim.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Mas, aqui, nesse filme, eu acho que, juntando esses elementos, ele é menos identitário, no sentido de Joder, esse cara branco, idiota, esquecido à margem, empolgado e deixado de lado. E </span><i><span style="font-weight: 400;">Reparação</span></i><span style="font-weight: 400;">, é meu primeiro longa solo, porque </span><i><span style="font-weight: 400;">Eu, empresa</span></i><span style="font-weight: 400;"> com o Leon (Sampaio) e lançado na pandemia. Eu não pude também estar presente, então, agora é uma sensação de primeiro longa.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Você nota que tem uma progressão da melancolia nos seus filmes? Como é que você lida com isso?</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; É. Acho que tem. Tanto pela própria maturidade, de idade mesmo, de estar ficando mais velho, e da própria vida nos últimos anos, que foi um pouco mais difícil. Pelas perdas, pelos lutos, pela própria pandemia, que a gente fala pouco, mas foi… Pouco não, mas parece que passou há muito tempo, mas teve um impacto muito grande nas nossas vidas, e na minha, especialmente, foi um ano terrível, 2020.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Entendo. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; E eu acho também de um lugar que vai se contendo, vai se domando a urgência, porque você já vai fazendo muita coisa, parece que tem ali uma demanda reprimida de falar, de fazer filme, de não esperar editar, mas aí chega num ponto que você fez dez curtas e pensa: já pode ir para um lugar mais elaborado. Não estou dizendo que vou parar de fazer curta, que vou fazer menos filmes, não. É que eu fazia três por ano. (Risos). Mas, talvez, acessar lugares mais profundos mesmo. E também se deixar ser mais vulnerável, porque acho que a coisa do humor é muito um escudo, para você não falar exatamente o que você quer por medo de ser ridículo, medo de ser julgado, medo de ser exposto. Aí quando você ri, você fala: ah, eu sei que eu estou sendo ridículo, então, eu vou rir também aqui.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Sim!</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; E aí acho que cheguei num lugar, talvez, de falar: vou me mostrar mais vulnerável mesmo, sem precisar esconder tanto através do humor. Mas aí, às vezes, era uma coisa de me colocarem como Joder em um lugar até social mesmo. Falavam: ah, lá vai esse cara privilegiado, com white people &#8216;s problem. Eu fiquei pensando: será que eu quero ser visto assim? Que esse seja meu legado? Por isso que eu pensei que tinha que ser um pouco mais vulnerável, para sair desse lugar, porque eu sentia que estava criando um bloqueio, em alguns nichos. A forma de ver meu filme estava muito cristalizada. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Ah, sim.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; E aí eu pensei em dar essa variada. Não que não seja white people &#8216;s (risos), acho que ainda é.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Não, mas é porque não tem como não ser white people &#8216;s problem, se você é white.Eu já comecei a encarar isso também na minha vida. Inclusive, uau, agora que estamos falando sobre white people &#8216;s problem, isso é um white people’s problem! </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Exatamente!</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Nossa, que barra, que barra. (Risos). </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Metalinguagem! (Risos).</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Mas, voltando aqui, em termos de forma, acho que </span><i><span style="font-weight: 400;">Reparação</span></i><span style="font-weight: 400;"> tem algo de fantasmagórico também. Para mim foi um filme muito difícil. Por questões minhas. E teve a surpresa mesmo de você ter quebrado essa coisa que a gente está falando aqui. Como foi que você construiu a decupagem? Porque parece que tem uma coisa assim nos seus filmes, espontânea. Mas não é.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; É, você falou fantasmagórico?</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Sim.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Achei muito massa, porque eu sou muito fã de Apichatpong (Weerasethakul, diretor). Ele tem um naturalismo, que parece quase documental. E também tem um texto de uma mostra que teve sobre ele no Rio. Eu esqueci o nome da autora,  mas ela fala de naturalismo e realismo fantasmagórico.  Então, eu queria muito fazer um filme que tivesse essa espontaneidade, que fosse muito de filme diário e documentário. Mas, que tivesse uma encenação pensada. Gosto muito dos filmes do Affonso Uchôa e do Adirley Queirós também nesse lugar, do documentário, que é muito performado. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Sim.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Tem a minha tentativa de realmente fazer algo diferente. Até o </span><i><span style="font-weight: 400;">Planeta Live,</span></i><span style="font-weight: 400;"> está muito em um lugar menos encenado. Tem alguns planos que eu pensei, mas tem muita coisa que foi capturada do momento. A câmera era ligada e a gente gravava o que estava ali na hora. E esse eu queria fazer isso.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><strong>ELP</strong> &#8211; Entendi.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><strong>MC</strong> &#8211; Porque eu pensei em como fazer esse filme ser um filme que também fale para o mundo, sendo um filme sobre meus pais, sobre algo muito pessoal, mas que consiga ter um apoio estético. E que eu conseguisse ter uma temática também, alguma simbologia maior, que desse para ser acessado também como obra, como um filme, que não fosse só um processo individual.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Entendi.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Então eu acho que essa tentativa de encenar mais, de encontrar tanto aquela cena mais performante, mais fantasmagórica, com o salitre, mas até os planos em casa. Eu pensei numa decupagem mais clássica, para tentar fazer algo mais universal. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Para finalizar, sabe o que eu gostaria de saber sobre os aspectos de filmagem mesmo e como foi que você direcionou sua mãe? </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Ah, eu não direcionei muito ela não, eu só conversei com ela. Tudo espontâneo. Eu acho que ela já estava acostumada, porque eu já a filmava há muito tempo. Eu ligava a câmera um pouquinho antes, quando eu ligava a câmera ela ficava olhando para ela. Então, precisava fazer todo um processo. Ela está no </span><i><span style="font-weight: 400;">Joderismo</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela faz uma foto dela. Eu pedi para ela: pergunta meu pai se ela acredita em um purgatório. É um áudio que estava no </span><i><span style="font-weight: 400;">Joderismo</span></i><span style="font-weight: 400;">, que em </span><i><span style="font-weight: 400;">Reparação</span></i><span style="font-weight: 400;"> também. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Verdade! </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Aí eu falei, aí depois eu quero que você faça uma selfie. Aí ela me mandou uma foto super arrumada, maquiada, não sei o quê (risos). Falei, mas é uma coisa cotidiana, assim, tipo você fazendo um muxoxo, em casa. E aí para ela chegar e deixar filmar ela sem cabelo e tal, foi um processo, assim, de ganhar a confiança dela e entender que era natural. E eu filmei também coisas que eu gostaria para ela, coisas pessoais, tipo festa de aniversário, réveillon. Eu fiz filmes que não necessariamente tinham sentido para mim estar nesse filme agora, mas que ela se viu também, ela se acostumou com a imagem dela sendo filmada por mim. Então, foi uma confiança e uma relação construída ao longo da minha carreira inteira.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Você acha que é uma reparação mesmo?</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Para eles? </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>ELP</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Para eles.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><b>MC</b><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Boa pergunta. Eu acho que eu fiz o que eu podia nesse lugar de tentar homenageá-los, claro. Tentar também deixar ali um legado deles para o mundo. Claro que ele é centrado muito no meu luto, a partir do meu luto e da minha visão sobre eles. Eu nunca quis fazer um filme sobre os meus pais, mas eu acho que dentro dessa proposta, sim. Porque, especialmente, minha mãe e eu, a gente era muito conectado. Eu não sou exatamente religioso, mas eu sou ecumênico. Então, os contatos que eu tive, que pessoas tiveram, eu sonhei com somente alguém que é espírita sempre falavam assim, que minha mãe estava bem, mas muito preocupada comigo. E eu entendo que dentro da natureza dela, que minha mãe era assim, eu imagino que é verdade. </span></p>
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		<title>15º Olhar de Cinema: Reparação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 17:54:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É difícil falar sobre os detalhes de aspectos formais e narrativos de Reparação. Quem já perdeu o pai, a mãe ou ambos sabe bem sobre esse nó na garganta que o tema dá. Mas, em termos técnicos, esta é uma obra coesa e sensível sobre o luto em sua forma mais traiçoeira: a memória. A lembrança da imagem e da voz estão incrustadas na tela, para todo sempre. Mas, é importante destacar como Marcus Curvelo, sem intenção, enganou sua audiência. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>É difícil falar sobre os detalhes de aspectos formais e narrativos de <em>Reparação</em>. Quem já perdeu o pai, a mãe ou ambos sabe bem sobre esse nó na garganta que o tema dá. Mas, em termos técnicos, esta é uma obra coesa e sensível sobre o luto em sua forma mais traiçoeira: a memória.</p>
<p>A lembrança da imagem e da voz estão incrustadas na tela, para todo sempre. Mas, é importante destacar como Marcus Curvelo, sem intenção, enganou sua audiência. <span style="font-weight: 400;">O diretor é o “menino do Joder”, das comédias mais afiadas do Brasil contemporâneo.<br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem ama a mistura de sarcasmo refinado com humor quinta série, o cinema de Curvelo vai encantar. Esta que vos escreve, por exemplo, é fã, de verdade. </span>Fã a ponto de arranjar qualquer horário em festival para encaixar um filme do cineasta. Era Joder que esta singela crítica buscava aqui.</p>
<p>Mas, em uma sessão diurna de Olhar de Cinema, o encontrado foi um horizonte infinito de melancolia e consciência de linguagem cinematográfica. Aqui, Curvelo se vale de texturas, sobreposições e planos longos, que dão um poder para o público que talvez o público não queira.</p>
<p>Justamente porque a ideia de finitude, mesmo que seja a única certeza que a humanidade carrega, é a mais difícil de se aceitar.  Na sessão, quando a onda do mar bate, as cinzas do pai de Marcus se juntam a ela e o desespero de quem assiste aumenta.</p>
<p>O novo filme de Curvelo é um grito em formato de imagem. Ele cobre seu rosto, ou lateraliza ele, dissolve seu pai na tela e os sentidos dos sentimentos dele e de quem o assiste se ampliam. Uma relação de impermanência e sufocamento é estabelecida.</p>
<p>O luto é, de fato, um filme em p&amp;b, contemplativo, no qual é impossível mostrar o rosto de quem sofre completamente. Ainda assim, Curvelo não se esconde e a presença de sua mãe na narrativa e &#8211; aí sim mostrada com tempo estendido &#8211; dialoga com mais uma camada de sua perda e revela seu olhar para o que ele sentiu e sente.</p>
<p>O tempo que o diretor dá para Sônia também transmite força e por mais que exista dor posta no ecrã, ela é quem conecta a plateia com a lucidez e a necessidade de se viver o momento presente. Desta maneira, <em>Reparação</em> é um título sensível e até um tanto perturbador, mas que não é só um retrato de chagas de uma saudade irreparável.</p>
<p>O longa tem esperança para a vida, na figura de Sônia, e um apuro estético que se reflete nessa angústia que permanece mesmo após a exibição. Em sua autoficção, Marcus Curvelo diz muito de si e de seus pais, mas ele também continua conseguindo o que sempre fez: transformar o cinema em espelho de seu espectador.</p>
<p>A sessão escancara, com seus quadros demorados, as dores de quem acompanha a narrativa. Neste sentido, a qualidade técnica e a consciência sobre audiovisual, bem como a compreensão de como se expor em um filme fazem de Reparação uma obra contundente e expressiva.</p>
<p><strong>Direção</strong>: Marcus Curvelo</p>
<p><strong>Elenco</strong>: Sônia Gentil Curvelo, Marcus Curvelo, Joel Curvelo</p>
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		<item>
		<title>XX Panorama Internacional Coisa de Cinema: O Mediador</title>
		<link>https://coisadecinefilo.com.br/xx-panorama-internacional-coisa-de-cinema-o-mediador/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Apr 2025 15:03:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Quem conhece &#8211; e gosta &#8211; o trabalho de Marcus Curvelo (Mamata, Joderismo, Eu, empresa, etc.), vai gargalhar desde o primeiro plano de O Mediador. Mas, é aquela risada nervosa, que vem junto com um nó na garganta. Curvelo tem essa capacidade de apostar em estéticas simples para dizer coisas complexas e profundas. E funciona. Em seu curta-metragem novo é exatamente assim que acontece. O artista faz um documentário híbrido, que traz imagens dos brasileiros que clamavam por um golpe [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="font-weight: 400;">Quem conhece &#8211; e gosta &#8211; o trabalho de Marcus Curvelo (<em>Mamata</em>, <em>Joderismo</em>, <em>Eu, empresa</em>, etc.), vai gargalhar desde o primeiro plano de <em><strong>O Mediador</strong></em>. Mas, é aquela risada nervosa, que vem junto com um nó na garganta. Curvelo tem essa capacidade de apostar em estéticas simples para dizer coisas complexas e profundas. E funciona.</p>
<p>Em seu curta-metragem novo é exatamente assim que acontece. O artista faz um documentário híbrido, que traz imagens dos brasileiros que clamavam por um golpe de Estado, após as eleições de 2022. Ao mesmo tempo, temos as reflexões políticas e sociais de Marcus, em um estúdio e em caminhadas pelas ruas de Salvador.</p>
<p>Sem muita firula na técnica, porém com uma decupagem consciente, o que impacta aqui são os questionamentos sobre a contemporaneidade. Curvelo é inteligente e corajoso e faz um jogo com a cultura do cancelamento em seu texto.</p>
<p>Ele já se desculpa por todos os caminhos discursivos que escolhe, inclusive, reconhecendo privilégios e tensionando a própria importância da sua obra. Em uma só tacada, em uma sessão de quinze minutos, o realizador esgarça todo o imediatismo, a futilidade e o esvaziamento de pautas da sociedade contemporânea.</p>
<p>A montagem do curta ajuda nesta composição de ideias associativas. Como na sequência que Curvelo diz não ser de esquerda e, logo depois, o público vê ele “fazendo o L”, todo de vermelho e com boné do MST. Desta maneira, o espectador não é subestimado em <em><strong>O Mediador</strong></em>.</p>
<p>Há um convite na produção a reconhecer as camadas dos argumentos postos na narrativa. Para quem não conhece a ironia de Curvelo &#8211; e não é obrigada a saber, porque cada obra tem que falar por si &#8211; talvez, seja, de fato, complexo saber que há tanto sarcasmo assim por ali.</p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Até porque, inserido neste tom jocoso, existe uma interpretação que pode levar para uma leitura de que há uma angústia e uma culpa também em toda a sua brincadeira e olhar para o outro.<br />
</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Porque o autor também se implica e se coloca junto a quem assiste, durante a projeção, para pensar no que é aquele produto que ele tem em mãos. </span>É neste sentido também que o filme tem camadas de complexidade.</p>
<p style="font-weight: 400;">Porque Curvelo vai fazendo graça, vai fazendo graça, até trazer uma frase que é um soco no estômago. E esse ciclo perdura durante a exibição inteira. No entanto, essa estratégia não fica cansativa, porque um arco dramático é criado, com progressão, clímax e desenlace.</p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Há uma consciência, além de tudo, de roteiro em <em><strong>O Mediador</strong></em>. Por isso que essas estruturas funcionam. Assim, o curta é amarrado, cumpre o que se propõe fazer e é um título importante para a filmografia de Marcus Curvelo. </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Talvez, ele peque apenas por ser irônico demais, desagradando e afastando parte da plateia. Mas, também, paciência, não é mesmo? É necessário que autores tenham seu estilo e sua voz dentro da arte e Curvelo tem! </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Marcus Curvelo</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Marcus Curvelo</span></p>
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		<title>XVI Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema: Eu, Empresa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Mar 2021 19:13:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Festivais]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Baumgarten]]></category>
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		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Leon Sampaio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Dirigido por Marcus Curvelo (Mamata) e Leon Sampaio (Gente Bonita), Eu, Empresa é um retrato da sociedade contemporânea, em sua extensa pequenez.  Se existe um sistema capitalista e cruel, há também os que não se encaixam nas dinâmicas, aparentemente, obrigatórias deste contexto. O que resta para os desconectados com esta realidade é a sensação de fracasso e angústia ou a procura para reverter a derrota e, finalmente, fazer parte do todo. Assim, o filme procura mostrar em seus 82 minutos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Dirigido por Marcus Curvelo (<em>Mamata</em>) e Leon Sampaio (<em>Gente Bonita</em>), <strong><em>Eu, Empresa</em></strong> é um retrato da sociedade contemporânea, em sua extensa pequenez.  Se existe um sistema capitalista e cruel, há também os que não se encaixam nas dinâmicas, aparentemente, obrigatórias deste contexto. O que resta para os desconectados com esta realidade é a sensação de fracasso e angústia ou a procura para reverter a derrota e, finalmente, fazer parte do todo. Assim, o filme procura mostrar em seus 82 minutos de projeção as fragilidades e incoerências humanas.</p>
<p>Existe dentro da obra algo de semelhante com as produções anteriores da Cual (<strong>Coletivo Urgente de Audiovisual</strong>). O enredo não é apenas um olhar crítico e sarcástico para o geral, mas também para os indivíduos desesperados em pertencer a este universo cheio de palavras vazias e utilizadas de forma banal, como “mindset”, por exemplo. É nesta lógica que se insere o protagonista dentro da trama. Buscando um espaço no mundo e recém desempregado, Marcus – interpretado por Curvelo – começa a gravar vídeos para o Youtube. A sua tentativa é, em seu empreendedorismo, alcançar o dinheiro e a fama.</p>
<p>A maneira como a sua sensação de competência fantasiosa é mostrada na tela de <em><strong>Eu, Empresa</strong></em>. Passando do limite do constrangedor, não há receio aqui em apelar para o ridículo. Entre suas dúvidas sobre o futuro, Marcus é o típico homem branco privilegiado que acredita possuir direito de ocupar todos os locais que desejar e cheio de ideias geniais, constantemente. A cena que mais ilustra esta característica da personagem é quando ele está em um matagal, com Baumga (Carlos Baumgarten), um amigo que o filma. Enquanto ele tenta produzir algum conteúdo que chame atenção na rede, Marcus demonstra revela a noção que tem de si: um gênio criativo, preenchido de metáforas para as imagens que irá passar em seu canal. No entanto, a qualidade desta representação está também ligada ao fato dela carregar uma complexidade em sua construção.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-13849" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/03/eu-empresa-foto-marcus-curvelo-scaled-1-770x483-1.jpg" alt="Eu, Empresa" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/03/eu-empresa-foto-marcus-curvelo-scaled-1-770x483-1.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/03/eu-empresa-foto-marcus-curvelo-scaled-1-770x483-1-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/03/eu-empresa-foto-marcus-curvelo-scaled-1-770x483-1-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/03/eu-empresa-foto-marcus-curvelo-scaled-1-770x483-1-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>O misto de derrotismo com arrogância compõe uma personagem com mais camadas. Algo que eleva esta potencialidade são os coadjuvantes que o cerca. Entre indivíduos que notam a tolice de Marcus ou que aposta em suas estratégias, a narrativa, através disto, consegue explorar as múltiplas facetas dos altos e baixos de Marcus. Em alguns momentos, quando áudios de <em>whastapp</em> são escutados, as emoções do espectador parecem traduzidas. Todo o julgamento que pode ser feito durante a sessão são colocados ali, nas falas de um amigo de Marcus, que contém uma revolta sobre as ações do protagonista, que se mostra mimado e estúpido em diversas cenas. Talvez, este recurso não fosse necessário, pois apenas reitera o que o público já observou em <em><strong>Eu, Empresa</strong></em>. Contudo, existe uma sensação de prazer sentida quando estas frases são escutadas.</p>
<p>Ainda assim, mesmo apontando as bobagens deste início de século, falta dentro no roteiro um desenvolvimento um pouco maior das relações. Escrito por quatro roteiristas (Curvelo e Sampaio, junto com Camila Gregório e Amanda Devulsky), nota-se a presença de profundidade em Marcus. Este dado aumenta a percepção da ausência elaboração maior de seus coadjuvantes. Há o fato de haver uma aparente intenção em imprimir a superficialidade dos tempos atuais e eles servem para direcionar o olhar para os atos estapafúrdios de Marcus, mas, ao se comparar a criação de Marcus com a de seus coadjuvantes, percebe-se que ali estão somente uns tipos, um tanto aleatórios, sem personalidade alguma.</p>
<p>Outro fator que pode ser apontado é que, dentro seus aspectos formais, <strong><em>Eu, Empresa</em></strong> não é inventivo, mas apresenta bem uma execução tradicional. A decupagem é consciente e os quadros e cortes ajudam a aumentar as piadas e situações vergonhosas vividas por Marcus. Um fato que pode incomodar são as pequenas perdas de focos, em algumas sequências. Este elemento não atrapalha a fruição, porém desconcentram de leve. Ainda assim, no geral, a obra entrega o resultado que demonstra desejar: um longa irônico, que ri de si mesmo e de todos.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Marcus Curvelo, Leon Sampaio</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Marcus Curvelo, Carlos Baumgarten, Carol Alves</p>
<p><strong>Confira nossas críticas de festivais <a href="https://coisadecinefilo.com.br/tag/festival/"><em>aqui</em></a>!</strong></p>
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