Inspirado no caso real de uma idosa que denunciou um grupo criminoso atuante na comunidade em frente a sua casa no Rio de Janeiro, Vitória tem a seu favor a escalação de Fernanda Montenegro para viver esta personagem. O drama dirigido por Andrucha Waddington tem muitas faltas, especialmente no roteiro, mas a presença de Montenegro como a personagem-título muitas vezes supre ou camufla as falhas do projeto.
O longa é inspirado na história de Joana Zeferino da Paz, uma idosa de 80 anos que em 2005, da janela de sua casa, registrou com uma câmera o cotidiano de um grupo criminoso que agia violentamente na sua vizinhança. Joana tentou denunciar o caso para a polícia, mas só viu a queixa gerar algum tipo de comoção nas autoridades quando contou com a ajuda da imprensa. Tendo sido posteriormente protegida pelo Programa de Apoio à Testemunha, Joana teve sua identidade mantida em sigilo, só vindo à tona no ano de seu falecimento, 2023, quando as filmagens de Vitória já haviam terminado.
A princípio, Vitória era um projeto do diretor e roteirista Brenno Silveira, mas o longa acabou nas mãos de Andrucha Waddington (Eu Tu Eles e Casa de Areia) após o falecimento do cineasta às vésperas das filmagens. A troca não prejudicou o resultado de Vitória, que tem um diretor se esforçando ao máximo para suprir carências do roteiro, dando sutileza, sensibilidade e buscando até mesmo alguma profundidade na construção psicológica das personagens.
Waddington acerta sobretudo ao valorizar os momentos nos quais o público acompanha apenas Fernanda Montenegro em cena. Existem longas sequências em que Vitória se resume ao cotidiano de Nina, nome criado para a protagonista do filme, em seu apartamento, vivendo o seu cotidiano. Quando Vitória é centrado em Fernanda Montenegro, o filme tem os seus melhores momentos porque a atriz valoriza cada gesto da personagem em cena, traz riqueza para os sentimentos e a personalidade daquela mulher.
O desempenho de Montenegro supre algumas lacunas deixadas pelo roteiro de Vitória. Há reticências no passado da protagonista e detalhes como as motivações profundas daquela mulher que poderiam ser melhor esmiuçadas pelo roteiro a fim de valorizar o clímax dramático daquela história. Nina é só uma mulher querendo fazer o bem e ter paz e isso é o suficiente para Vitória, mas não para o espectador, que poderia ter uma relação mais engajante com o longa caso o filme mergulhasse de fato no passado dessa protagonista. A resolução do conflito entre Nina e a ameaça violenta da sua vizinhança também é pouco elaborada passando a impressão de apressar a ação a fim de que o filme tenha enfim o seu desfecho.
Vitória é o tipo de experiência que só é minimamente satisfatória porque Fernanda Montenegro consegue trazer a densidade e a urgência necessárias para engajar o espectador na trajetória da sua protagonista. Entendemos Vitória como um evento cinematográfico porque Fernanda Montenegro está nele e aproveita cada oportunidade para confirmar seu nome como um dos maiores das nossas artes dramáticas. De outra forma, o teor fugidio e superficial do roteiro deste drama ficaria mais evidente e tornaria mais emperrada a experiência de assistir o longa.
Direção: Andrucha Waddington
Elenco: Fernanda Montenegro, Silvio Guindane, Jeniffer Dias
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