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	<title>Arquivos Virginie Efira - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: Benedetta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jan 2022 22:06:58 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Existem poucos realizadores dispostos a ultrapassar os limites e provocar tanto a audiência quanto Paul Verhoeven. Aos 83 anos, Verhoeven consegue ser mais ousado do que a maioria dos seus colegas mais jovens em tempos tão moralistas no que tange a relação do público com a arte. Seu mais recente longa, <strong><em>Benedetta</em></strong>, é mais uma prova dessa habilidade de um realizador que segue disposto a esgarçar as relações do público com sua obra. Como no seu longa anterior, o controverso Elle, Verhoeven atravessa a trama de <em><strong>Benedetta </strong></em>com sentimentos diversos, complexos e, por vezes, contraditórios, culminando em uma experiência singular.</p>
<p>Em <em><strong>Benedetta</strong></em>, Verhoeven se apropria da biografia da freira Benedetta Carlini para compor uma história que mistura religião e sexualidade, uma combinação sempre explosiva nas telas. Benedetta foi entregue por seus pais muito cedo para o convento entre o século XVI e XVII e acreditava piamente que tinha uma relação íntima com Deus, assumindo-se como santa, inclusive, por suas visões. Quando se torna abadessa do convento, Benedetta sente ter passe livre para estabelecer de forma mais íntima uma relação antes reprimida com a noviça Bartolomea. Em dado ponto da história, a relação entre as duas é descoberta por instâncias poderosas da Igreja e ambas passam a ser perseguidas. Ao mesmo tempo, a percepção pública de Benedetta como uma santa se fortalece em uma população oprimida pelo medo da peste e da chegada de um cometa na Terra.</p>
<p>A partir dessa história singular, Verhoeven cria um filme que testa o tempo inteiro a natureza dos sentimentos do espectador por sua protagonista. Se de um lado, a crença na santidade e o poder que a credulidade de terceiros nela traz para Benedetta uma postura tirânica e desconfianças sobre sua própria sanidade, além da segurança para viver sem culpa uma relação homossexual, por outro, quando a divindade da freira é posta em dúvida, somos apresentados a uma faceta ainda mais perversa da Igreja representada pelos homens que sempre a governaram. Nesse segundo momento, tendemos até mesmo a aderir por completo ao ponto de vista de Benedetta sobre os eventos. A capacidade que o filme tem de lidar de maneira tão maliciosa com a moral do espectador e, consequentemente, com a interpretação que temos dos eventos narrados só mesmo Verhoeven tem coragem de fazer nas telas de modo tão autenticamente provocador.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-15031" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta.jpg" alt="Benedetta" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Toda a jornada do público pela história é costurada com astúcia pelo cineasta. Da maneira como ele retrata o contexto histórico do filme com a explosão da peste pela Europa e a chegada de um cometa na Terra, cenário de fim dos tempos mais do que propício para a instauração de uma atmosfera febril propícia ao aparecimento de falsos profetas, até os signos e representações que permeiam a trama, o que inclui, por exemplo, um Jesus Cristo que oscila entre o amante castrador e o cavaleiro salvador para a protagonista. Localizando-se em extremos, o longa também está sempre disposto a construir suas personagens como figuras dúbias, oras agindo como vilões, sobretudo quando detém poder na instituição, outras se transformando em vítimas da própria Igreja onde corroboraram com a manutenção de preconceitos e dogmas que em dado momento se voltam contra elas.</p>
<p>Não é um filme de meios termos. <strong><em>Benedetta </em></strong>tende a polarizar sua recepção. Nada mais natural. Como toda a filmografia do realizador, o longa é claramente feito por Verhoeven para gerar esse tipo de inquietação, todos os seus elementos estão dispostos da maneira como o cineasta coloca justamente para isso. É por conta desse programa de efeitos que Verhoeven ocupa espaços tão extremos mexendo com instituições  e temas marcados por percepções públicas aparentemente sólidas. No caso de <strong><em>Benedetta</em></strong>, temos uma carta declarada de Verhoeven sobre a humanidade e a maneira esquizofrênica com a qual ela lida com o poder, a fé e a sexualidade alheia (e própria) desde sempre, levando todos  para um cadafalso com expectativas nulas de redenção. Com o filme, o diretor demonstra mais uma vez como consegue desestabilizar discursos e visões de mundo aparentemente estáveis, cumprindo no final das contas um papel que não deveria ser negado a arte.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Paul Verhoeven</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Virginie Efira, Charlotte Rampling, Daphne Patakia</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
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