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	<title>Arquivos Paul Verhoeven - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Paul Verhoeven - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: Benedetta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jan 2022 22:06:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Existem poucos realizadores dispostos a ultrapassar os limites e provocar tanto a audiência quanto Paul Verhoeven. Aos 83 anos, Verhoeven consegue ser mais ousado do que a maioria dos seus colegas mais jovens em tempos tão moralistas no que tange a relação do público com a arte. Seu mais recente longa, Benedetta, é mais uma prova dessa habilidade de um realizador que segue disposto a esgarçar as relações do público com sua obra. Como no seu longa anterior, o controverso Elle, Verhoeven atravessa a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Existem poucos realizadores dispostos a ultrapassar os limites e provocar tanto a audiência quanto Paul Verhoeven. Aos 83 anos, Verhoeven consegue ser mais ousado do que a maioria dos seus colegas mais jovens em tempos tão moralistas no que tange a relação do público com a arte. Seu mais recente longa, <strong><em>Benedetta</em></strong>, é mais uma prova dessa habilidade de um realizador que segue disposto a esgarçar as relações do público com sua obra. Como no seu longa anterior, o controverso Elle, Verhoeven atravessa a trama de <em><strong>Benedetta </strong></em>com sentimentos diversos, complexos e, por vezes, contraditórios, culminando em uma experiência singular.</p>
<p>Em <em><strong>Benedetta</strong></em>, Verhoeven se apropria da biografia da freira Benedetta Carlini para compor uma história que mistura religião e sexualidade, uma combinação sempre explosiva nas telas. Benedetta foi entregue por seus pais muito cedo para o convento entre o século XVI e XVII e acreditava piamente que tinha uma relação íntima com Deus, assumindo-se como santa, inclusive, por suas visões. Quando se torna abadessa do convento, Benedetta sente ter passe livre para estabelecer de forma mais íntima uma relação antes reprimida com a noviça Bartolomea. Em dado ponto da história, a relação entre as duas é descoberta por instâncias poderosas da Igreja e ambas passam a ser perseguidas. Ao mesmo tempo, a percepção pública de Benedetta como uma santa se fortalece em uma população oprimida pelo medo da peste e da chegada de um cometa na Terra.</p>
<p>A partir dessa história singular, Verhoeven cria um filme que testa o tempo inteiro a natureza dos sentimentos do espectador por sua protagonista. Se de um lado, a crença na santidade e o poder que a credulidade de terceiros nela traz para Benedetta uma postura tirânica e desconfianças sobre sua própria sanidade, além da segurança para viver sem culpa uma relação homossexual, por outro, quando a divindade da freira é posta em dúvida, somos apresentados a uma faceta ainda mais perversa da Igreja representada pelos homens que sempre a governaram. Nesse segundo momento, tendemos até mesmo a aderir por completo ao ponto de vista de Benedetta sobre os eventos. A capacidade que o filme tem de lidar de maneira tão maliciosa com a moral do espectador e, consequentemente, com a interpretação que temos dos eventos narrados só mesmo Verhoeven tem coragem de fazer nas telas de modo tão autenticamente provocador.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-15031" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta.jpg" alt="Benedetta" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/benedetta-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Toda a jornada do público pela história é costurada com astúcia pelo cineasta. Da maneira como ele retrata o contexto histórico do filme com a explosão da peste pela Europa e a chegada de um cometa na Terra, cenário de fim dos tempos mais do que propício para a instauração de uma atmosfera febril propícia ao aparecimento de falsos profetas, até os signos e representações que permeiam a trama, o que inclui, por exemplo, um Jesus Cristo que oscila entre o amante castrador e o cavaleiro salvador para a protagonista. Localizando-se em extremos, o longa também está sempre disposto a construir suas personagens como figuras dúbias, oras agindo como vilões, sobretudo quando detém poder na instituição, outras se transformando em vítimas da própria Igreja onde corroboraram com a manutenção de preconceitos e dogmas que em dado momento se voltam contra elas.</p>
<p>Não é um filme de meios termos. <strong><em>Benedetta </em></strong>tende a polarizar sua recepção. Nada mais natural. Como toda a filmografia do realizador, o longa é claramente feito por Verhoeven para gerar esse tipo de inquietação, todos os seus elementos estão dispostos da maneira como o cineasta coloca justamente para isso. É por conta desse programa de efeitos que Verhoeven ocupa espaços tão extremos mexendo com instituições  e temas marcados por percepções públicas aparentemente sólidas. No caso de <strong><em>Benedetta</em></strong>, temos uma carta declarada de Verhoeven sobre a humanidade e a maneira esquizofrênica com a qual ela lida com o poder, a fé e a sexualidade alheia (e própria) desde sempre, levando todos  para um cadafalso com expectativas nulas de redenção. Com o filme, o diretor demonstra mais uma vez como consegue desestabilizar discursos e visões de mundo aparentemente estáveis, cumprindo no final das contas um papel que não deveria ser negado a arte.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Paul Verhoeven</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Virginie Efira, Charlotte Rampling, Daphne Patakia</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/EWIU_-LO1Bw" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>Crítica: Elle</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Nov 2016 15:35:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Elle]]></category>
		<category><![CDATA[Isabelle Huppert]]></category>
		<category><![CDATA[Paul Verhoeven]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Depois de ser vítima de um ato de brutal violência dentro da sua própria casa, Michèle não esboça nenhum tipo de reação explosiva. Tudo o que a executiva de uma empresa especializada na criação de games faz é arrumar o local do crime e tomar um banho sob os olhares constantes da única testemunha daquilo que vivera, o seu gato de estimação. Assim, Elle nos instiga a compreender o que se passa dentro da cabeça de uma personagem que reage de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div data-blogger-escaped-style="text-align: justify;">
<p>Depois de ser vítima de um ato de brutal violência dentro da sua própria casa, Michèle não esboça nenhum tipo de reação explosiva. Tudo o que a executiva de uma empresa especializada na criação de games faz é arrumar o local do crime e tomar um banho sob os olhares constantes da única testemunha daquilo que vivera, o seu gato de estimação. Assim, <i>Elle </i>nos instiga a compreender o que se passa dentro da cabeça de uma personagem que reage de maneira tão peculiar a uma violência que levaria qualquer mulher justificadamente ao colapso.</p>
<p>Toda essa investigação orquestrada pelo cineasta Paul Verhoeven (<i>A Espiã</i>) nos leva a uma constatação: somente uma personalidade como a de Michèle é capaz de sublimar o encontro com uma das facetas mais repugnantes do ser humano e reverter aquela situação ao seu favor, qualquer outra pessoa na mesma situação não seria capaz de suportar tamanha pressão. No decorrer do filme, o espectador perceberá que a protagonista criou uma couraça para si que faz com que ela reaja de maneira fria a determinadas violências da vida e dos seus agressores, como a morte da mãe, as constantes ameaças do universo eminentemente machista do seu ambiente de trabalho e até mesmo o seu próprio filho, que em dado momento do longa revela-se  um agressor em potencial a partir do instante em que Michèle confronta o seu &#8220;orgulho masculino&#8221;. Parece que o passado traumático de lhe confere uma maneira peculiar de peitar tudo aquilo.</p>
<p>A tudo Michèle responde com sangue frio, quem passa pelo que ela passou não se abala pelo &#8220;pouco&#8221; que para nós é muito. É claro que Verhoeven nos coloca diante de um quadro patológico. Michèle surge como uma personalidade tão peculiar em seus desejos quanto o seu agressor na primeira cena do filme. A protagonista parece não se conformar com qualquer tipo de sujeição, ou seja, com qualquer tipo de cenário que ate o domínio que tem sobre as suas vontades. Com toda essa construção, Verhoeven não quer justificar, fetichizar ou atenuar as consequências psicológicas da violência sofrida por ela, o realizador não desenha um cenário generalista, ou seja, um discurso sobre o feminino ou sobre o estupro com sua personagem, mas expõe uma reação peculiar de uma personalidade específica. Em <i>Elle </i>nos deparamos com um complexo estudo de personagem, tanto que no filme aqueles que lhe são periféricos revelam-se propositadamente rasos. Ações e pessoas na órbita de Michèle são peças manipuladas pela obra e por ela para que possamos entender uma personalidade que, inegavelmente, é dominante e não se deixa colocar em situação oposta sob hipótese alguma.</p>
</div>
<div data-blogger-escaped-style="text-align: justify;">
<p>As cenas de sexo em <i>Elle</i>, fonte da maior polêmica em torno da recepção do filme (o longa fetichiza ou não a violência sexual?), são incômodas pela agressividade, passando longe do erotismo. Não se detecta ali o prazer do diretor por aquela situação, ainda que seus personagens sintam ele de alguma  maneira, mas conflito, desorientação, agressão, choque. Nessa zona de polêmicas, o longa deixa determinadas pontas soltas e sua discussão não se encerra no acender das luzes da sala de cinema. A escolha de Verhoeven para a construção da sua protagonista através de seus fetiches em dado momento pode soar como uma necessidade gratuita de estremecer as convicções da plateia, o &#8220;choque pelo choque&#8221;. Contudo, é pela perversão que o realizador particulariza a reação da sua personagem e nos faz mergulhar no universo de uma personalidade que instiga o espectador a investigar suas motivações, ainda que boa parte delas sigam como grandes interrogações, como acertadamente deve ser.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-6984" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2016/11/Elle-Isabelle-Huppert-.jpg" alt="elle-isabelle-huppert" width="610" height="348" /></p>
<p>Na sua oferta incessante de &#8220;escândalos&#8221;, Verhoeven evita o clichê, opta por caminhos que o espectador jamais consegue especular, mas também por extremos. Parece que o intuito do realizador é mexer com toda e qualquer segurança do espectador a respeito dos seus temas e das suas personagens e faz isso num misto inquietante e perturbador de sadismo e ironia. As bases que o filme utiliza para costurar a personalidade de Michèle não é a da empatia, mas a do olhar de descrença com a sua psicologia e, consequentemente, curiosidade pelo universo peculiar daquela mulher, algo tão singular que custamos acreditar que é real.</p>
<p><i>Elle </i>choca para nos provocar. Ao apresentar um mundo de perversões onde tudo parece gratuito, absurdo e irresponsável (inclusive da parte de Verhoeven e do seu roteirista David Birke), entramos em contato com a intimidade de uma mulher que é capaz de sentir prazer com algo condenável socialmente, mas que, ao mesmo tempo, repreende o romance da sua mãe com um gigolô e a relação de submissão do filho com sua nora. É como se ao expor o seu universo de escândalos sobrepostos, o realizador estivesse nos provocando, assim como provoca Michèle em suas contradições: &#8220;Quem é você para condenar os outros? Já parou para pensar que pode estar fazendo pior?&#8221;. E esse pior, na ficção de <i>Elle </i>vem na forma dos extremos da personagem de Isabelle Huppert (<i>Mais Forte que Bombas</i>). Trata-se de uma provocação direcionada em caráter de urgência para a nossa esfera pessoal. O filme opta por extremos pois só assim somos tirados da zona de conforto e sacudidos internamente.</p>
</div>
<div data-blogger-escaped-style="text-align: justify;">
<p>É possível que ao final da sessão de <i>Elle </i>o espectador saia &#8220;sem chão&#8221;, incerto a respeito do seu próprio juízo sobre a obra e não há a menor necessidade que essa avaliação seja cerrada. O intuito de Verhoeven é claramente pôr o filme no &#8220;olho do furacão&#8221; e ele consegue. O longa e sua personagem, defendida com primor em suas complicadas nuances por Isabelle Huppert, tem esse poder de retirar as nossas bases, mexendo com nosso regime de crenças e expectativas a respeito das funções e reações dos sujeitos que protagonizam o seu drama.</p>
<p>De certezas, a única que o espectador tem  de fato é que levará para casa um universo amplo de discussões e um filme que o acompanhará por um bom tempo, algo cada vez mais em falta no circuito. Verhoeven traz para o cinema a urgência da provocação e da inquietação, confirmando que, independente do &#8220;diagnóstico&#8221; daquele que o assiste, sua perturbadora obra possui o caráter peculiar de um cinema com &#8220;C&#8221; maiúsculo: tirar o espectador da sua zona de conforto, levá-lo ao confronto das suas ideias e da sua leitura de signos, que não precisa estar enclausurada em discursos autoritários. Independente das suas impressões sobre o filme, <i>Elle</i> é cinema em alta voltagem, isso não dá para negar.</p>
</div>
<p><strong>Assista ao trailer do filme: </strong></p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/LiIexR_lL4k" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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