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	<title>Arquivos Okado do Canal - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: Carro Rei</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jul 2022 17:07:37 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Destaque em festivais de cinema como Gramado, de onde saiu com quatro prêmios (filme, trilha sonora, direção de arte e som), além de um troféu especial do júri para a atuação de Matheus Nachtergaele, sem dúvida um dos grandes destaques da produção, <em><strong>Carro Rei</strong></em> é um daqueles filmes que promete cindir a opinião dos espectadores. Isso será resultado não só da óbvia alegoria que faz sobre a atual situação do Brasil, mas por toda a maneira como a cineasta Renata Pinheiro (conhecida por longas como Amor, Plástico e Barulho e Açúcar) articula e apresenta sua história e suas personagens, totalmente avessa a gramáticas estandardizadas na linguagem cinematográfica. <em><strong>Carro Rei</strong></em> é daquelas experiências extremas.</p>
<p>O longa narra a história de Ninho (Luciano Pedro Jr.), rapaz que também é chamado de Uno por ter nascido dentro de um carro. Ninho cresce em uma família cujo pai é dono de uma frota de taxi e a mãe herda com o tio um ferro velho. Por toda esta vinculação com automóveis, o rapaz desenvolve a habilidade de se comunicar com essas máquinas. É quando o seu tio Zé Macaco (Matheus Nachtergaele) restaura um carro velho que essa relação fica ainda mais intensa. Nesse momento, o rapaz tem que decidir de que lado estará em uma iminente revolução das máquinas liderada pelo veículo criado revivido por Zé Macaco.</p>
<p>Não faz muito tempo que vimos uma obra cinematográfica traçar comentários interessantes sobre a relação do homem com máquinas. Titane de Julia Ducornau, vencedor da edição de 2021 de Cannes recém-lançado no Mubi, apresenta um body horror curioso a partir da jornada de uma jovem que sofre um acidente de carro quando criança e se transforma em uma espécie de ciborgue após um procedimento cirúrgico. <em><strong>Carro Rei</strong></em> possui paralelos com este longa francês, apresentando até algumas cenas de sexo entre humanos e automóveis, mas fica evidente pelo seu contexto de realização e pelo local onde se passa sua história que a realizadora quer estabelecer uma crítica cirúrgica sobre os caminhos que a sociedade brasileira tem traçado nos últimos anos com o governo de Jair Bolsonaro.</p>
<p>Aquilo que inicialmente é chamado de resistência, logo ganha ares de culto liderado pelo <em><strong>Carro Rei</strong></em>, tendo o mecânico Zé Macaco como ponte para a execução de um plano de manipulação. Aqui, há evidentes paralelos com a relação estabelecida entre bolsonaristas e o atual presidente brasileiro, com direito até ao personagem de Matheus Nachtergaele bradando em dado momento do filme: &#8220;Caruaru acima de todos!&#8221;. Além disso, está presente no filme uma esquisita relação que se cria entre o homem e a tecnologia, oscilando entre a situação de humanos que são governados por essa macroestrutura predatória e imperialista da tecnologia e os momentos em que essas ferramentas são usadas para a manipulação das massas por meio de deturpações da realidade. Tudo isso não é muito diferente do uso que grupos políticos têm feito do Twitter e do Whatsapp para disseminar fake news, parte fundamental da estratégia de ascensão da extrema direito em muitos países, inclusive o Brasil, mas também da estranha relação que muitos deles possuem com essas empresas e os CEOs por trás de suas políticas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-15623" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6.jpg" alt="Carro Rei" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Todos esses paralelos entre ficção e realidade são construídos de forma instigante e envolvente por Renata Pinheiro na tela. A diretora imprime um visual interessante para a obra tornando <em><strong>Carro Rei</strong></em> uma espécie de representante de um sertão-futurismo, toda uma tecnologia possível à realidade de Caruaru. Automóveis retro-futuristas que circulam pelas vielas simples do interior de Pernambuco com seus seguidores humanos convertidos em primatas trajados por roupões azul e amarelo. Há escolhas estéticas fascinantes ao longo da narrativa.</p>
<p>Parte do bom resultado visto na tela em <em><strong>Carro Rei</strong></em> se dá também pela performance enérgica e comprometida (como de costume) de Matheus Nachtergaele. O ator transforma o seu Zé Macaco em um símio, empenhando-se em trazer para a expressão corporal do personagem o andar de um primata além de emitir, sempre que possível, sons que nos remetem ao animal. A atuação de Nachtergaele assume contornos ainda mais intensos quando seu personagem entra em uma espiral de megalomania, fazendo o ator exibir tudo isso não só com uma postura corporal que passa a ser ameaçadora, mas por um olhar que exprime puro fanatismo. Matheus faz o equivalente que Andy Serkis fez na trilogia Planeta dos Macacos, mas ainda melhor, sem CGI. Aliás, o próprio longa tem um paralelo inegável com os filmes da série e até com O Exterminador do Futuro no cunho filosófico e pessimista das suas reflexões sobre as relações do homem com o nosso planeta e para onde a humanidade está caminhando da forma como tem se comportado.</p>
<p><em><strong>Carro Rei</strong></em> é movido por esse comentário social apresentado com criatividade pela sua realizadora, que tem insights muito bons sobre nossa história atual. É verdade que o longa peca na sua execução com uma narrativa que por vezes emperra e não consegue acompanhar suas ideias e que, a exceção do Zé Macaco de Matheus Nachtergaele, é repleta de personagens que não mobilizam tanto o interesse do espectador, mas não há como negar que Renata Pinheiro realizou uma obra das mais importantes ao falar como poucas de maneira tão precisa e completa sobre nossa realidade.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Renata Pinheiro</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Matheus Nachtergaele, Okado do Canal, Jules Elting</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/NzkClzpqMuo" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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