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	<title>Arquivos O Homem Duplicado - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos O Homem Duplicado - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: O Homem Duplicado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Jun 2014 02:08:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Denis Villeneuve]]></category>
		<category><![CDATA[Jake Gyllenhaal]]></category>
		<category><![CDATA[O Homem Duplicado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Homem Duplicado se junta a Inside Llewyn Davis &#8211; Balada de um Homem Comum e Sob a Pele como uma das obras cinematográficas mais instigantes do ano. Com sua já atestada preferência por tramas que investigam um lado não tão agradável da natureza humana, o cineasta canadense Denis Villeneuve radicaliza  de vez em sua abordagem nesse suspense que flerta com o cinema onírico, introspectivo, lisérgico e sombrio de David Lynch (Cidade dos Sonhos), mas também com a maneira como [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Homem Duplicado </em>se junta a <em>Inside Llewyn Davis &#8211; Balada de um Homem Comum </em>e <em>Sob a Pele </em>como uma das obras cinematográficas mais instigantes do ano. Com sua já atestada preferência por tramas que investigam um lado não tão agradável da natureza humana, o cineasta canadense Denis Villeneuve radicaliza  de vez em sua abordagem nesse suspense que flerta com o cinema onírico, introspectivo, lisérgico e sombrio de David Lynch (<em>Cidade dos Sonhos</em>), mas também com a maneira como Darren Aronofsky (<em>Cisne Negro) </em>realiza a simbiose entre a psicologia do seu protagonista e a forma do seu filme. Baseado no romance de José Saramago, que inclusive já abordamos aqui no <a href="http://coisadecinefilo.com.br/dois/">texto de Teco Sodré</a>, <em>O Homem Duplicado </em>não só explora a profunda e conturbada psicologia do seu personagem central como a transforma em espaço e engrenagem da própria narrativa. Não seria o tipo de narrativa que recomendaríamos a todos porque é difícil mesmo para o público se acostumar e entender que abordagens radicalmente opostas aos padrões de narração cinematográfica e que exigem uma constante e elástica decodificação, já que tudo que está na tela não pode ser interpretado em seu sentido literal, são positivas e trazem um aperfeiçoamento da própria gramática cinematográfica. É um estranhamento comum do qual outras obras foram &#8220;vítimas&#8221;. Não à toa, lá fora, <em>O Homem Duplicado </em>teve uma recepção tão amarga.</p>
<p>O filme tem como ponto de partida a vida do professor universitário Adam Bell (os nomes foram adaptados para o filme e apesar da alcunha Tertuliano Máximo Afonso ser funcional no livro, aqui não faz tanta falta assim) que descobre em um filme um ator idêntico a ele. Bell, entediado com sua própria vida, começa a procurar esse homem para tentar saber a razão de tamanha semelhança. Logo, as vidas dos dois personagens passam a se entrelaçar e suas decisões começam a interferir nas suas rotinas e afetar os relacionamentos amorosos de ambos. No mais, desculpem amigos, mas fazer uma sinopse mais esmiuçada do que isso seria sacrificar a experiência de todos de desvendar o que existe por trás desses personagens pouco a pouco, tal qual deseja Denis Villeneuve.</p>
<figure id="attachment_1350" aria-describedby="caption-attachment-1350" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/enemy-movie-2014.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-1350 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/enemy-movie-2014-620x333.jpg" alt="enemy-movie-2014" width="620" height="333" /></a><figcaption id="caption-attachment-1350" class="wp-caption-text">A possibilidade da curva: Protagonista fantasia uma vida diferente da sua através do seu sósia, um sujeito completamente diferente dele em sua personalidade.</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já que tocamos no nome do diretor de <em>O Homem Duplicado </em>é preciso enaltecer a sua coragem e o seu esforço de apropriar-se sem violentar a ideia central da obra de José Saramago. Como poucos cineastas na sua mesma posição, Villeneuve não se intimidou com a carga  de cobrança externa e interna por estar adaptando o livro de um autor cultuado como Saramago e imprimiu vida própria ao seu filme, mantendo os propósitos da obra original, mas fazendo os cortes e as adaptações necessárias, claro que com a ajuda do roteirista Javier Gullón. <em>O Homem Duplicado </em>de Villeneuve tem muita personalidade enquanto obra audiovisual, tendo como ponto de sustentação recursos como a fotografia que abusa do tom sépia, os ambientes impessoais, uma montagem que obedece aos comandos do diretor e acompanha o desenvolvimento dos seus personagens, todos em perfeita comunhão para criar uma atmosfera que intriga o espectador do início ao fim. O elenco é outra peça fundamental na engrenagem da obra. E se alguém não tinha firmeza em Jake Gylenhaal como ator, é melhor rever os conceitos. Interpretando duas personalidades completamente opostas que  colidem no terceiro ato do filme, Gylenhaal dá conta do recado de maneira  muito eficiente. O ator também está cercado por ótimas companhias, já que Mélanie Laurent (a namorada de Adam) e, principalmente, Sarah Gadon (a esposa do ator) dão conta do recado e funcionam como peças fundamentais para o desfecho do mistério em torno dos sósias.</p>
<p>Preferia não adentrar nas interpretações da obra pois, como já disse, estragaria a experiência do leitor/espectador. Como esse exercício de falar sobre um filme sem revelá-lo é extremamente complicado e posso acabar soltando algo, peço (e espero que seja ouvido) que <strong>pare de ler esse texto a partir de agora, caso não tenham visto o filme</strong>. O que pode ser dito é que Villeneuve esmiúça o elo entre Adam e seu sósia de maneira brilhante para chegarmos a uma conclusão satisfatória que nos obriga a fazer um retrospecto das pistas deixadas pelo filme desde o início. Com o claro intuito de falar sobre esse compreensível e arriscado desejo que temos de estar na pele de outra pessoa e de dar vazão a nossas mais recônditas fantasias abafadas por nossa vida corrente, o realizador traz um exercício de reflexão louvável se voltarmos e pararmos para pensar um pouco mais em toda a &#8220;engenharia&#8221; que ele construiu até chegar ao seu desfecho. Esse exercício de assimilar a obra com o devido tempo, sem a necessidade de conclusões imediatas que são tão correntes nesse consumo instantâneo que é feito com cada vez mais frequência no que concerne ao audiovisual, é  o que torna <em>O Homem Duplicado </em>uma preciosidade no meio de tantos trabalhos &#8220;mastigados&#8221; e com conclusões e interpretações prontas. Aqui, o público é parte da própria obra e isso é fascinante.</p>
<figure id="attachment_1351" aria-describedby="caption-attachment-1351" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-1351 size-full" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/enemy-jake-gyllenhaal1.jpg" alt="enemy-jake-gyllenhaal" width="620" height="335" /><figcaption id="caption-attachment-1351" class="wp-caption-text">Obsessão: A vida do sósia passa a ser cobiçada pelos dois personagens. Suas mulheres, vividas por Melanie Laurent e Sarah Gadon, sofrem as consequências de tamanho conflito.</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>O Homem Duplicado </em>é daqueles tipos de filme que chega a ser arriscado traçar um &#8220;diagnóstico&#8221; sobre ele no seu lançamento pois corre o risco de cometermos uma leviandade. É o tipo de obra que merece ser vista, revista, dissecada e estudada em suas camadas. Não querendo ser definitivo nessas últimas linhas sobre o filme, recomendo apenas que se deem a oportunidade de conferir esse filme desafiador e por vezes desconfortante em sua linguagem. É incomum &#8211; não digo original porque Denis Villeneuve tem suas fontes -, mas é com esse tipo de empreitada que o cinema avança e que a gente aprende a refinar e ser mais exigente como espectador, dialogar com a obra e não encerrar abruptamente nossa relação com ela com o subir dos créditos. Afinal, como sugere a própria epígrafe do longa, &#8220;Caos é a ordem ainda indecifrada&#8221;. Portanto, tentemos decifrar <em>O Homem Duplicado</em>. É recompensador.</p>
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		<title>Dois</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Teco Sodre]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2014 12:19:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Especiais]]></category>
		<category><![CDATA[Denis Villeneuve]]></category>
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		<category><![CDATA[O Homem Duplicado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esse é a minha primeira resenha para o Coisa de Cinéfilo e confesso que tive de me transformar em dois para concluí-la. São muitos os afazeres diários que nos impedem de fazer o que realmente amamos e eu realmente amo escrever sobre cinema ou literatura. Este convite foi muito importante para mim, pois reativou meu tesão para escrever resenhas sobre cinema, uma das minhas grandes paixões. Espero fazer jus ao convite e contribuir para um site tão cuidadosamente cultivado. Adaptar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/20061401.jpg"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-1228 aligncenter" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/20061401-620x295.jpg" alt="20061401" width="620" height="295" /></a></p>
<p>Esse é a minha primeira resenha para o <em>Coisa de Cinéfilo</em> e confesso que tive de me transformar em dois para concluí-la. São muitos os afazeres diários que nos impedem de fazer o que realmente amamos e eu realmente amo escrever sobre cinema ou literatura. Este convite foi muito importante para mim, pois reativou meu tesão para escrever resenhas sobre cinema, uma das minhas grandes paixões. Espero fazer jus ao convite e contribuir para um site tão cuidadosamente cultivado.</p>
<p>Adaptar<em> O Homem Duplicado</em>, do saudoso escritor português José Saramago, também não deve ter sido uma tarefa muito fácil para Denis Villeneuve, o qual deve ter se desdobrado em muitos outros para conseguir o resultado visto em <em>Enemy</em> ( a produção Canadá/Espanha recebeu o mesmo título do livro no Brasil). Saramago foi um escritor ímpar, dono de uma narrativa inigualável e de uma imaginação tão criativa quanto provocativa. Seus livros compreendem um universo de possibilidades inimagináveis, cujas histórias transcendem o realismo fantástico ao tanger reflexões filosóficas sobre o ser humano e suas pré-concebidas relações.</p>
<p>Em <em>O Homem Duplicado</em>, o autor nos divide ao expor a história de Tertuliano Máximo Afonso, professor de história que descobre um sósia seu atuando em um filme de baixo orçamento que lhe fora indicado por um colega de profissão. A partir daí, a narrativa acompanha a busca do protagonista por respostas à sua própria duplicidade.</p>
<figure id="attachment_1231" aria-describedby="caption-attachment-1231" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/o-homem-duplicado.png"><img decoding="async" class="wp-image-1231 size-medium" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/o-homem-duplicado-620x348.png" alt="o-homem-duplicado" width="620" height="348" /></a><figcaption id="caption-attachment-1231" class="wp-caption-text">Diretor e ator nos sets: Villeneuve e Gyllenhaal já trabalharam juntos no suspense &#8220;Os Suspeitos&#8221; de 2013, com Hugh Jackman.</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>O filme de Villeneuve (também diretor do excelente <em>Incêndios</em>) é uma livre adaptação dessa brilhante história. O diretor e o roteirista Javier Gullón chegaram a preparar uma lista de questionamentos para o autor da obra na qual o filme é inspirado, porém Saramago faleceu antes que ambos tivessem a chance de dirimir suas dúvidas sobre as nuances da história. Entretanto, o trabalho de Villeneuve e Gullón consegue imprimir as sensações típicas de alguns trabalhos de Saramago, como angústia, vertigem e inquietação com os padrões sociais de rotinas e relacionamentos, todas bem presentes na obra em questão.</p>
<p>A princípio, é impossível não perceber que a atmosfera do filme muito se assemelha à da adaptação de outra obra de Saramago para as telonas, <em>Ensaio Sobre a Cegueira</em> (Brasil/Canadá/Japão, 2008), dirigida pelo brasileiro Fernando Meireles. É bem verdade que o clima narrativo de Saramago traz à imaginação de seu leitor um desenho climático próprio aos seus temas, o que ficou bem retratado em ambas as adaptações. Texturas cruas, cores apáticas e muita despretensão nos takes dão ao filme o movimento da narrativa: no início, a repetição cotidiana e o dissabor impregnam o protagonista; ao longo da película, a angústia e o medo do (des) conhecido convoca a tensão, o que, aos poucos, transforma-se em insanidade e/ou aceitação do improvável da vida.</p>
<figure id="attachment_1230" aria-describedby="caption-attachment-1230" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/enemy-jake-gyllenhaal.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-1230 size-full" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2014/06/enemy-jake-gyllenhaal.jpg" alt="enemy-jake-gyllenhaal" width="620" height="335" /></a><figcaption id="caption-attachment-1230" class="wp-caption-text">O obscuro, o erotismo e a sugestão: Filme explora apectos do litaratura de José Saramago tendo ciência de que é uma adaptação e não uma cópia do livro.</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>Jake Gyllenhaal nunca foi um ator mediano. Desde <em>Donnie Darko</em> (EUA, 2001) é possível perceber suas inclinações para papéis que flertam com o estranho/diferente e que provocam em si e nos espectadores identificação e repulsa, simultaneamente. Seus personagens em Enemy são tão convincentes em suas particularidades que o próprio movimento de atração/repulsão, que existe entre entre eles, torna-se um novo personagem na história. O vínculo entre ambos e suas respectivas cônjuges caracterizam o filme mais como um thriller erótico, cuja sensualidade não está lá apenas para excitar, mas para entrelaçar uma história que em sua ambiguidade, revela a o caráter dualístico ocidental do homem contemporâneo.</p>
<p>O livro não está presente, predominantemente, na obra fílmica, mas é possível perceber elementos da obra literária no trabalho de Villeneuve. A própria Pilar del Rio, viúva de Saramago, afirmou que certamente não encontraríamos o livro nas telas, mas que Saramago estaria dentro do filme e, de fato, não se pode negar sua presença nas simbologias, no clima incisivo e nas emoções duplamente latentes refletidas nos personagens representados por Gyllenhaal. Se o &#8220;eu é um outro&#8221;, como diria o célebre poeta francês Arthur Rimbaud, então é exatamente o reflexo de nós mesmos, no próprio espelho, o que nos motiva a assumir nossa(s) identidade(s) e nos estimula a ser quem (e quantos) somos nesta vida.</p>
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