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	<title>Arquivos Montreal - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Montreal - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Rapto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Oct 2023 18:35:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Existiriam várias maneiras de começar esta crítica. Talvez, esta que vos escreve &#8211; e acaba relatando tantas experiências pessoais não solicitadas por vós &#8211; pudesse iniciar a escrita contando como Marco Bellocchio dirigiu um dos filmes mais marcantes da sua adolescência cinéfila: Bom dia, Noite. Um outro sequestro era abordado, em uma outra época, mas Bellocchio é preciso (e até genial), ao criar imagens impactantes e que conseguem entregar uma visão profunda e completa de um enredo. Aqui não é [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<hr />
<p><span style="font-weight: 400;">Existiriam várias maneiras de começar esta crítica. Talvez, esta que vos escreve &#8211; e acaba relatando tantas experiências pessoais não solicitadas por vós &#8211; pudesse iniciar a escrita contando como Marco Bellocchio dirigiu um dos filmes mais marcantes da sua adolescência cinéfila: <em>Bom dia, Noite</em>. Um outro sequestro era abordado, em uma outra época, mas Bellocchio é preciso (e até genial), ao criar imagens impactantes e que conseguem entregar uma visão profunda e completa de um enredo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui não é diferente. Em <strong><em>Rapto</em></strong>, o ano é 1858 e a Igreja Católica domina o mundo, com seus dogmas, regras e impunidades. Neste período, o famoso Papa Pio IX roubava crianças de suas casas, para convertê-las ao cristianismo. O garotinho Edgardo Mortara (Enea Sala), de seis anos, é uma das vítimas do Papa. Judeu, ele é retirado de sua família e nunca mais retorna para morar com eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Baseado em um caso verídico, existem diversos pontos positivos, que tornam este longa-metragem uma obra prima. A começar pelo tom equilibrado. Ainda que existam extensas camadas de melodrama, o uso do gênero dramático se dá de maneira consciente e com a convocação de respiros, que deixam com que esta escolha narrativa eleve a potencialidade dos sentimentos expostos no ecrã. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As emoções afloradas, os gritos, as lágrimas são todas justificáveis dentro da dor de uma família estilhaçada pela vontade arbitrária e cruel do catolicismo ferrenho, do uso desmedido do poder do clero. Assim, o peso colocado em cena é proporcional ao conteúdo da trama. Além disso, a mise-en-scène traduz posições sociais, políticas e as próprias sensações das personagens em <em><strong>Rapto</strong></em>.</span></p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17406" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931.jpg" alt="Rapto" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As movimentações estão mais presentes nos corpos do elenco do que na própria câmera. Em planos mais estáticos, Bellocchio insere as figuras do clero, por exemplo, centralizadas, com gestuais ligeiros, porém um tanto reduzidos, revelando toda a frieza, cálculo das ações e manipulações de uma casta da sociedade. Já a família de Edgardo, está em desespero e sofreguidão. Assim, eles se deslocam recorrentemente, mas com pesar e gestuais grandes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os seus rostos entram mais em close-up, dando oportunidade do público de investigar e observar lentamente os seus semblantes. Já na direção de arte e fotografia, tem-se um jogo curioso de temperaturas em <em><strong>Rapto</strong></em>. O ciano vem dos Mortara, que vão da serenidade do início da projeção, para a melancolia e o medo. O vermelho, laranja e amarelo estão com os católicos, pois estão encharcados de poder e considerados aqueles que são abençoados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É uma dicotomia bem relevante, pois revela a hipocrisia da aparência e do discurso cristão, que vem há séculos destruindo a mente e a vida das pessoas (na contemporaneidade, os crentes cumprem esse papel, por exemplo). Assim, as sombras se alastram nos quadros dos Mortara, ao passo que, enquanto Pio IX está vivo, a luz irradia sobre a tela, confirmando esta sensação de que nem sempre o que está no lado claro é o melhor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta informação também imprime na história o grau do poder do Papa e do clero, que podem fazer o que bem entendem, à luz do dia, ainda que parte do povo se revolte. Estas tensões vão se elevando durante a exibição, na qual a obviedade da impunidade da igreja, juntamente com a ausência de poder da população criam uma atmosfera angustiante e sufocante.</span></p>
<p>Porque ainda existe o fato de que os Mortara tinham alguma condição de brigar, por isso o caso ficou conhecido e disseminado. E a produção deixa isso nítido em seu discurso, contando como Edgardo não foi o único e como diversas crianças foram arrancadas de seus lares.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17408" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937.jpg" alt="Rapto" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, vale destacar a unicidade do elenco do filme, principalmente no trio central: Edgardo, Marianna (a mãe, interpretada por Barbara Ronchi) e Salomone Mortara (o pai, interpretado por Fausto Russo Alesi). Os três possuem carisma, troca de olhares e intenções de texto, que criam uma empatia maior com as personagens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através da construção de papel destes atores, é visível que eles possuem sensibilidade e compreensão do que aconteceu com os Mortara. As pausas, as respirações, os momentos de lágrimas são orgânicos, porque a contracena tem um jogo cênico, que carrega cumplicidade. Eles se olham, se tocam e se aproximam um dos outros com precisão e tônus corporal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desta maneira, <strong><em>Rapto</em> </strong>é conciso em seu roteiro, no que diz respeito à elencar cada fato importante para o conteúdo geral, porém é permeado de impressões sensoriais, que grudam o espectador na sua cadeira. A torcida pelo menino e seus familiares vai até o desfecho da obra, mostrando a força do novo trabalho de Bellocchio e sua equipe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong><em>Rapto</em> </strong>é brilhante, porém deixa um gosto amargo de saber que nada aconteceu com Pio IX, que além de tantas coisas positivas que ele recebeu em vida, este senhor ainda carrega consigo nome de bolo, de estação de metrô em Montreal, é o segundo pontificado mais longo da história depois de São Pedro e foi beatificado em 2000. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Marco Bellocchio</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Enea Sala, Barbara Ronchi, Paolo Pierobon</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/oQAK0yBHQZ8" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Seagrass</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Oct 2023 18:14:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Meredith Hama-Brown (Cosmic) quase chega lá com seu primeiro longa-metragem, Seagrass. Em um drama familiar, centrado em uma família canadense, com raízes japonesas do lado materno, aqui o início é brilhante e deixa uma sensação de que a sessão será promissora. Câmera na mão, exploração de profundidade de campo e trocas de foco, Brown traduz as emoções de suas personagens e aproxima o espectador delas, através de sua direção. É rápida a conexão do público com Judith (Ally Maki), Steve [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Meredith Hama-Brown (<em>Cosmic</em>) quase chega lá com seu primeiro longa-metragem, <strong><em>Seagrass</em></strong>. Em um drama familiar, centrado em uma família canadense, com raízes japonesas do lado materno, aqui o início é brilhante e deixa uma sensação de que a sessão será promissora. Câmera na mão, exploração de profundidade de campo e trocas de foco, Brown traduz as emoções de suas personagens e aproxima o espectador delas, através de sua direção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É rápida a conexão do público com Judith (Ally Maki), Steve (Luke Roberts), Stephanie (Nyha Huang Breitkreuz) e, sobretudo, com a caçula Emmy (Remy Marthaller). Há neles características que nos aproxima deles. O desgaste da vida familiar, a tentativa de pertencimento, o cansaço do cotidiano, as escolhas aleatória dos pais em dissonância, cada um traz consigo detalhes que podem gerar identificações. Além disso, os conflitos do quarteto vão sendo revelados progressivamente.<br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até a metade do segundo ato, é possível observar uma construção inteligente, na qual os olhares e o silêncio dizem mais do que os diálogos e até mesmo criam ambiguidades para as falas, o que complexifica mais as personagens. </span>O ciúme de Stephanie da sua irmã ou os conflitos sobre etnia entre Judith e Steve amarram a trama e criam uma possibilidade de criar uma atmosfera de tensão e até mesmo de uma ambientação de filme de terror.</p>
<p>Os quatro estão em uma ilha, com seus egoísmos e falhas, há um diálogo com o gênero, seja pela personalidade dos papéis principais ou pela própria técnica (decupagem e desenho de som), que criam certa expectativa em quem assiste de algo ruim acontecerá. <span style="font-weight: 400;">Todavia, <strong><em>Seagrass</em> </strong>é um drama familiar do início ao fim e perde por não explorar a estética de suspense/terror, que foi introduzida ali em termos imagéticos e sonoros, porém somente como uma pincelada.<br />
</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17402" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280.jpg" alt="Seagrass" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, este não é o cerne da questão. O que faz o filme ter sua qualidade reduzida em sua metade é a queda da qualidade do roteiro. Com a inserção de diálogos expositivos, de clichês e saídas fáceis e óbvias, falta coragem a Brown, para seguir com o tom que ela mesma instaurou no princípio da projeção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O conflito principal, e suas ramificações, perde a força. Um exemplo é toda a energia interna de Judith, que parecia estar prestes a explodir, mas ela implode. Os seus medos, necessidades e desejos não são amarrados dentro do enredo, fazendo com que, assim como a maioria das personagens, Judith não passe a transformação que figuras dramáticas costumam vivenciar. Ela sai de um estado e permanece ali.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apenas Stephanie demonstra ter um arco completo. </span>Uma obra não precisa seguir, necessariamente, uma linha aristotélica. Contudo, Brown começa este caminho, colocando na produção as bases de uma história tradicional. Assim, <strong><em>Seagrass</em> </strong>é uma linha crescente, que despenca quando chega em seu topo. A construção do elenco daquela família que se ama, mas sofre problemas diários é enxuta, com momentos bem orgânicos, como na sequência do “showzinho” das irmãs.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os intérpretes imprimem o naturalismo preciso neste contexto e ainda contam com bastante carisma, mesmo que passem a revelar dificuldade para não caírem na artificialidade, depois do segundo ato. As nuances textuais, de decupagem e de atuação estão no longa, porém não se sustentam. É um bom primeiro longa, mas poderia ser muito mais interessante, potente e arriscado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Meredith Hama-Brown</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Ally Maki, Luke Roberts, Nyha Huang Breitkreuz</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/24tk9d8BH9s" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Dias Perfeitos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Oct 2023 18:47:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Muitas reflexões, sensações e emoções são despertadas em Dias Perfeitos, novo longa-metragem de Wim Wenders (O Sal da Terra). Entre uma construção imagética, que permite uma imersão profunda do espectador, e um roteiro meticuloso – escrito por Wenders, ao lado de Takuma Takasaki (Honokaa bôi) – pensamentos profundos sobre o planeta que habitamos ocupam a mente durante a projeção. A começar por uma pergunta central, que parece ressoar ainda depois do final da sessão. Sendo ela: o que nos torna [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Muitas reflexões, sensações e emoções são despertadas em <em><strong>Dias Perfeitos</strong></em>, novo longa-metragem de Wim Wenders (<em>O Sal da Terra</em>). Entre uma construção imagética, que permite uma imersão profunda do espectador, e um roteiro meticuloso – escrito por Wenders, ao lado de Takuma Takasaki (<em>Honokaa bôi</em>) – pensamentos profundos sobre o planeta que habitamos ocupam a mente durante a projeção. A começar por uma pergunta central, que parece ressoar ainda depois do final da sessão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo ela: o que nos torna visíveis ou invisíveis nesse mundo onde vivemos? Um carro, um emprego, um prêmio, um salário…? As distinções e marcas sociais estão estampadas em nossa sociedade, para todo mundo ver. As castas do capitalismo dividem a população, colocando algumas à margem. Certamente, funcionários que trabalham com serviços de limpeza são constantemente invisibilizados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É como se as pessoas quisessem esquecer que elas produzem sujeira, excrementos, bagunça e fluidos. E quem toma conta desse caos humano produzido há tanto tempo em nosso planeta parece ganhar uma carga de rejeição, que beira a rejeição moral, na qual existem aqueles que desejam retirar o título de humano destes profissionais que, na verdade, cumprem um papel salutar e indispensável para a continuidade dos cotidianos alheios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, somos muito mais do que nossas tarefas remuneradas. Somos embebidos de singularidades, com desejos, sonhos, sentimentos e gostos, que nos transformam todos os dias e nos movem. E é isso que Takasaki e Wenders conseguem passar de forma tão delineada em <strong><em>Dias Perfeitos</em></strong>. Hirayama (Kōji Yakusho) é um homem sagaz, sensível, bondoso, dedicado, organizado, um intelectual, de perspicácia profunda e completa, com um olhar digno para o outro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhar a rotina de Hirayama e como esse seu dia a dia quadrado vai se transformando, a partir dos estímulos que a vida lhe entrega inesperadamente, é intenso e faz os olhos se encherem de lágrimas durante todo o filme. Sim, Hirayama é responsável pela limpeza dos banheiros públicos do Tokyo, gerenciado pela empresa The Tokyo Toilet project. A tensão da sua personalidade versus o cargo que ele ocupa é posto em cena a todo momento.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-17351" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-750x554.png" alt="Dias Perfeitos" width="750" height="554" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-750x554.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-610x450.png 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-770x568.png 770w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-1400x1033.png 1400w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256.png 1463w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A frieza e o desprezo de quem não enxerga aquele senhor como um indivíduo é o mais forte aqui em <em><strong>Dias Perfeitos</strong></em>. A construção de papel de Kōji é essencial aqui para a composição deste cenário repleto de camadas. </span><span style="font-weight: 400;">Os gestos precisos do intérprete, combinados com a decupagm de Wenders, direcionam o público para o que importa na narrativa. Só existem closes ou movimentos de câmara, bem como ações com gestuais mais amplos, em momentos específicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As velocidades mais aceleradas estão nos coadjuvantes, por exemplo. Esta estratégia eleva a força do discurso da obra, que convoca a plateia a fazer uma análise político-social do mundo, mas também uma autoanálise. </span><span style="font-weight: 400;">E é nesse contraste do universo de  Hirayama com os outros ao seu redor, que compreendemos que o protagonista é, em toda sua totalidade. Todavia, quem foi ele no passado é turvo e esta também é uma decisão acertada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A razão para que um homem que parece ter tido uma educação formal de qualidade e com uma família aparentemente estável financeiramente não importa. Quem Hirayama  é no presente, isso que é relevante e que dialoga com a premissa central da produção. </span><span style="font-weight: 400;">Há também muita melancolia dentro da trama. O ciano se espalha na tela e é possível sentir esta pulsação interna da personagem, de forma quase sensorial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele é bondoso, cuidadoso e gentil, mas também triste e solitário. É nesta chave que resta alcançar o que <em><strong>Dias Perfeitos</strong></em> quer imprimir em sua história: quem é esse outro que é posto em uma caixa determinada por classes, por um serviço diário, que pode não definir absolutamente nada da personalidade de alguém. </span><span style="font-weight: 400;">Com todo este contexto, é notável que o longa toca no mais profundo da alma de quem assiste. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele é simples, em uma primeira olhada, porém repleto de níveis de complexidades, o que torna a sua fruição ainda mais prazerosa. É um enredo que fica na memória, que conta com algo que fica ali, preso na mente, dias após  a sua exibição. Ele pode não ter nada de tão novo em termos técnicos ou discursivos, mas é um trabalho rico, precioso, que conecta o espectador com o que há de real a ser vivido, pois os laços que estabelecemos na vida é o que importa no final das contas, não é mesmo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Wim Wenders</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Kōji Yakusho, Tokio Emoto, Sayuri Ishikawa</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/HTgWYojq-z8" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montreal: Levante </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2023 22:08:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Entre repetições discursivas, narrativas e imagéticas, a diretora Lillah Halla parece tentar imprimir sua marca autoral e fazer certos debates políticos avançarem. Há em seu intento sucessos e falhas. De um lado, o público se depara com uma história já muito conhecida em outros títulos voltados para jovens: a gravidez na adolescência. Este é um grande medo das mulheres (com toda razão) e que aparece aqui como em diversas outras obras.  Para tratar do tema, o espectador também se depara [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Entre repetições discursivas, narrativas e imagéticas, a diretora Lillah Halla parece tentar imprimir sua marca autoral e fazer certos debates políticos avançarem. Há em seu intento sucessos e falhas. De um lado, o público se depara com uma história já muito conhecida em outros títulos voltados para jovens: a gravidez na adolescência. Este é um grande medo das mulheres (com toda razão) e que aparece aqui como em diversas outras obras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para tratar do tema, o espectador também se depara com uma estratégia também já tão conhecida e repetida que é a de criar uma torcida para os “underdogs”. É como se <em>Barrados no Baile</em> (1990) encontrasse <em>Nós Somos os Campeões</em> (1992) e fosse adicionada a esta mistura uma pitada de 2023, com grupos minoritários em pauta e o voilá: <strong><em>Levante</em></strong>. Todavia, estes detalhes não são algo negativo, que vão exatamente comprometer o resultado total do longa a ponto de torná-lo ruim.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de possuir uma trama óbvia, na qual sequência após sequência é fácil saber o que irá acontecer em seguida, existem elementos que tornam a sessão prazerosa. A questão da representação e da representatividade é feita de uma forma poderosa, cuidadosa e respeitosa. A noção de mulheridade plural está viva e transborda na tela. Um dos pontos altos desta lógica é a relação das integrantes do time de vôlei, do qual a protagonista Sofia (Ayomi Domenica Dias) faz parte, com a treinadora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiramente, a <em>coach</em> Sol é ninguém mais ninguém menos que Grace Passô (</span><i><span style="font-weight: 400;">República</span></i><span style="font-weight: 400;">), considerada uma grande artista brasileira. A dinâmica criada pela intérprete com as outras atrizes faz com que esta lógica de <em>underdogs</em> se eleve e fique até esquecido o quão isto é clichê. A vontade de que o time vença vai crescendo durante a projeção e, juntamente com as injustiças que Sofia sofre, a sensação de empatia para com ela vai se elevando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através da aproximação com a personagem central, com seu sofrimento e sua história, é possível estabelecer uma conexão com a trama. São as fragilidades de Sofia e os absurdos que ela tem que viver, em tão pouca idade, que criam um nó na garganta, que podem grudar a plateia na cadeira. É revoltante demais pensar que a sociedade é, majoritariamente, conservadora, heterornornativa, de pensamento colonial branco, hipócrita, servo de um patriarcado cruel e despudorado.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17310" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913.jpg" alt="Levante" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, a farsa de manutenção da vida extrapola os limites do real e em <strong><em>Levante</em> </strong>isto não é diferente. </span><span style="font-weight: 400;">O que importa para essa gente, dita protetora da vida, é regular e se apoderar dos destinos das mulheres, sobretudo quando se tratam de mulheres com menos dinheiro, mulheres pretas, mulheres que usualmente são desrespeitadas e vilipendiadas no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este desespero sufocante de querer escapar desta condenação a uma maternidade indesejada é o foco central do filme e ele é feliz ao conseguir passar todo o debate que deseja, de forma enxuta e direta. </span><span style="font-weight: 400;">O que incomoda na produção, na verdade, é um desajuste técnico, que poderia ser resolvido com algumas afinações. A retirada de algumas obviedades do roteiro, como nas questões do campeonato de vôlei (expulsão de Sofia do time e seu retorno para as quadras) ou na própria maneira de lidar com a imagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da diretora de fotografia, Wilssa Esser (<em>Temporada</em>), ser brilhante, aqui, ela comete uns deslizes que comprometem qualidade de seu trabalho. </span><span style="font-weight: 400;">Wilssa e Lillah poderiam ter pensado melhor na composição decupagem x luz. Em momentos chaves do filme não é possível enxergar as emoções das personagens, seja por questões de enquadramentos ou de iluminação. É incômodo de acompanhar a estrutura do trabalho da dupla, porque é como se fosse quase negado acompanhar o aprofundamento dos sentimentos das figuras dramáticas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As sombras não compõem, muito menos os escuros intensos. Apesar de tudo isso</span><span style="font-weight: 400;">, <strong><em>Levante</em> </strong>tem carisma e potencial. Ao abordar temas delicados, como gravidez na adolescência e aborto, há uma leveza ao retratar uma juventude liberta e consciente. No entanto, ao mesmo tempo, falta para a equipe uma maturidade maior para que a entrega geral fosse menos previsível e cansativa. Com atores esforçado, por exemplo, existe uma fé cênica que amacia o estado verde da parte jovem do elenco.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, este é um filme que vale a pena acompanhar, mesmo com seus tropeços. Poderia existir aqui um trato melhor do enredo, da imagem, das composições individuais sendo pensadas no contexto amplo da história. Mas, no final do dia, <strong><em>Levante</em> </strong>está correndo pelos festivais, ganhou o prêmio Fipresci em Cannes (Parallel Sections) e tudo isso é porque ele carrega consigo uma energia vibrante, um recado de resistência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Lillah Halla</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Ayomi Domenica, Loro Bardot, Grace Passô</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/Rsr8pvv4E-w" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
<p>O post <a href="https://coisadecinefilo.com.br/52o-festival-du-nouveau-cinema-de-montreal-levante/">52º Festival du Nouveau Cinéma de Montreal: Levante </a> apareceu primeiro em <a href="https://coisadecinefilo.com.br">Coisa de Cinéfilo</a>.</p>
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