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	<title>Arquivos Matheus Nachtergaele - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Matheus Nachtergaele - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: O Auto da Compadecida 2</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jan 2025 19:41:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O Auto da Compadecida de Guel Arraes é um dos filmes nacionais mais queridos pelos brasileiros. Não demorando muito para a tendência de sequências &#8220;tardias&#8221; cimentadas pelo desejo de consumo da nostalgia chegar ao nosso cinema, O Auto da Compadecida 2 estreia nas salas de todo o país no Natal de 2024. O longa de Guel Arraes e Flávia Lacerda até tem os seus momentos, mas fica evidente para o espectador que a falta de um material base de Ariano Suassuna prejudica consideravelmente [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Auto da Compadecida</em> de Guel Arraes é um dos filmes nacionais mais queridos pelos brasileiros. Não demorando muito para a tendência de sequências &#8220;tardias&#8221; cimentadas pelo desejo de consumo da nostalgia chegar ao nosso cinema, <em><strong>O Auto da Compadecida 2</strong></em> estreia nas salas de todo o país no Natal de 2024. O longa de Guel Arraes e Flávia Lacerda até tem os seus momentos, mas fica evidente para o espectador que a falta de um material base de Ariano Suassuna prejudica consideravelmente um roteiro que acaba cedendo à tentação de replicar a história original, sobretudo no seu terceiro ato quando, mais uma vez, João Grilo tem suas ações julgadas por Jesus Cristo e pelo Diabo, sendo defendido novamente por Maria. .</p>
<p><em><strong>O Auto da Compadecida 2</strong></em> é ambientado anos depois dos eventos do primeiro filme. João Grilo não está mais em Taperoá e Chicó se vira sozinho na mesma cidadezinha como um contador de histórias, sobretudo dos feitos do seu amigo. Quando a dupla se reencontra em meio a uma corrida eleitoral entre um coronel e um empresário do ramo da comunicação, algumas situações testam novamente a ética de João Grilo e o colocam de novo sob julgamento quando, mais uma vez, sua vida fica por um triz.</p>
<p>A continuação do trabalho de <em>O Auto da Compadecida</em> tem um ótimo começo. Selton Mello e Matheus Nachtergaele demonstram não perder o espírito dos personagens que criaram há mais de vinte anos atrás, rendendo ótimos momentos juntos ou separados, sejam eles cômicos ou dramáticos, lidando muito bem com o ritmo acelerado que é tão peculiar à dramaturgia de Guel Arraes. Há algumas adições ao elenco que parecem interessantes, como o carioca trambiqueiro interpretado por Luís Miranda ou o radialista e empresário vivido por Eduardo Sterblitch. Virginia Cavendish está de volta como uma Rosinha amadurecida, dando vazão a uma mocinha contemporânea que já fazia muito bem lá na produção de 2000. O longa também ganha bastante com algumas decisões artísticas, como o cenário construído em estúdio que traz para a arquitetura e a geografia de Taperoá um estilo bem peculiar beirando os traços de uma literatura de cordel.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-19085" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-2-1.png" alt="O Auto da Compadecida 2" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-2-1.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-2-1-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-2-1-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>O grande problema da sequência de <em>O Auto da Compadecida</em> é apresentar uma série de caminhos possíveis e originais para sua trama, mas acabar recorrendo à repetição de eventos que tornaram icônico o longa original. É incompreensível esse cacoete da maioria das sequências &#8220;tardias&#8221; de grandes sucessos do cinema. Parte delas acha que basta replicar uma série de eventos do roteiro do original para conceber uma sequência que se justifique. <em><strong>O Auto da Compadecida 2</strong></em> cai na mesma armadilha e prejudica o trabalho competente do seu ótimo elenco. No lugar de olhar para o futuro, para seus novos personagens e potenciais possibilidades da sua história em 2024, <em><strong>O Auto da Compadecida 2</strong></em> opta pela zona de conforto do passado e leva seu roteiro a uma linha decrescente de qualidade.</p>
<p><strong>Atenção! A partir daqui, spoilers!</strong> <em><strong>O Auto da Compadecida 2</strong></em> repete toda a sequência de morte de João Grilo e do seu julgamento por Jesus, o Diabo e Nossa Senhora só que de forma piorada. No original, isso era muito bem construído e atrelado ao propósito da trama de Suassuna. O autor queria falar sobre a realidade brasileira, sobre a corrupção humana e o juízo que podemos fazer dela em diversas circunstâncias a partir do julgamento de diversos personagens, com backgrounds muito diversos. Aqui, somente João Grilo está no banco dos réus e tudo parece redundante se comparado ao primeiro filme. Parece que o julgamento de Grilo existe na sequência para satisfazer a nostalgia do público com o roteiro da primeira história e não porque a trama dessa sequência, que vinha em um desenvolvimento próprio com diversas possibilidades de histórias (como o triângulo amoroso de Chicó, a corrida política), estava requerendo esse momento em seu terceiro ato.</p>
<p>Definitivamente, ir ao cinema e assistir Selton Mello e Matheus Nachtergaele como Chicó e João Grilo em <em><strong>O Auto da Compadecida 2</strong></em> segue um programa melhor do que a maioria dos filmes em cartaz nos cinemas ou das sequências caça-níqueis que chegam a rodo nas salas a cada mês. No entanto, não deixa de ser frustrante constatar que um longa como este, com um elenco com o timing cômico que tem, vê seu potencial desperdiçado por decisões que o enfraquecem narrativamente e só demonstram a insegurança do seu roteiro em alçar voos mais ambiciosos.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Guel Arraes, Flavia Lacerda</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Luis Miranda, Taís Araújo</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/ke4x5ywVhiw?si=MtKiY3jN8gZiKzYI" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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		<title>Crítica: Mais Pesado é o Céu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Aug 2024 20:40:15 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Ana Luiza Rios]]></category>
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		<category><![CDATA[Matheus Nachtergaele]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mais Pesado é o Céu é um cinema singular que provoca aquilo que, particularmente, os filmes deveriam proporcionar com mais frequência nas plateias. É o tipo de narrativa que extrapola a tela e que apresenta lacunas interpretativas que somente o público pode preencher após a sensação, provoca conversas. E isso não é simplesmente retórica para convencer o público dos méritos do mais recente trabalho do cearense Petrus Cariry. Mais Pesado é o Céu não é aquele tipo de projeto que esconde um discurso [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>Mais Pesado é o Céu</strong></em> é um cinema singular que provoca aquilo que, particularmente, os filmes deveriam proporcionar com mais frequência nas plateias. É o tipo de narrativa que extrapola a tela e que apresenta lacunas interpretativas que somente o público pode preencher após a sensação, provoca conversas. E isso não é simplesmente retórica para convencer o público dos méritos do mais recente trabalho do cearense Petrus Cariry. <em>Mais Pesado é o Céu</em> não é aquele tipo de projeto que esconde um discurso vazio através de um aproach hermético de &#8220;cinema de arte&#8221;, seja lá o que isso venha significar. O mais recente longa de Cariry é pura linguagem, que provoca o espectador a pensar a respeito do significado de tudo aquilo que assistiu ao longo das suas quase duas horas de duração.</p>
<p>Na história, acompanhamos a trajetória de dois personagens que se encontram no interior do Ceará. Antonio (Matheus Nachtergaele) assume qualquer tipo de serviço desde que chegou do sudeste do país. Os planos do personagem agora é trabalhar como catador de caranguejo em um mangue depois de ouvir de alguns conhecidos que esse tipo de atividade tem sido bem promissora. Já Teresa (Ana Luiza Rios) está sem eira nem beira depois que sua cidade foi invadida por um açude. Os personagens encontram um bebê abandonado e decidem se responsabilizar pela criança.</p>
<p>A partir da jornada de Antonio e Teresa, Petrus Cariry tem muito a dizer sobre as divergentes vivências de homens e mulheres na realidade mais dura do Brasil, mas também sobre as expectativas construídas pelo público para histórias como as que esses personagens ensaiam. De um lado, Cariry apresenta Antonio e sua esperança de formar com Teresa e o &#8220;menino&#8221; Miguel uma família, uma utopia romântica que faz com que o personagem esqueça até mesmo de suas metas mais pragmáticas de vida e revele uma inércia diante de situações nas quais poderia intervir de alguma forma. É como se aquela ideia de formação familiar tradicional inspirada pela convivência com Teresa e Miguel entorpecesse o personagem e o fizesse fugir de uma realidade.  Do outro lado, com o mesmo propósito de cuidar daquela criança que &#8220;cai de paraquedas&#8221; em sua vida, Teresa se vira como pode, sai de casa todo dia em busca de um emprego e se arrisca fazendo alguns programas para &#8220;colocar comida dentro de casa&#8221;.</p>
<p>A oposição entre os protagonistas é uma grande provocação de Cariry a preconceitos estruturais e eventuais julgamentos da plateia sobre as reações de um ou de outro, quais são os desejos femininos e masculinos contextualizados pela realidade mais escassa que nosso país pode oferecer? Como se manifestam os sonhos desses personagens e como cada um deles lida com um contexto que a cada segundo inviabiliza a concretização dos mesmos?</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18573" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-3.png" alt="Mais Pesado é o Céu" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-3.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-3-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-3-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="color: #ff0000;"><strong>A PARTIR DAQUI, SPOILERS.</strong></span></p>
<p><em><strong>Mais Pesado é o Céu</strong></em> também provoca seu espectador quando induz a plateia ao desejo de um &#8220;final feliz&#8221; na história de Antonio e Teresa. Assim como o personagem de Nachtergaele, o público pode eventualmente torcer para que em algum momento daquela história os protagonistas construam uma família e encontrem uma forma de criar o bebê Miguel juntos. No entanto, o que o filme oferece sobretudo no seu último ato é um rompimento brusco com esse desfecho clássico hollywoodiano e patriarcal. Olhando diretamente para a câmera, o personagem de Matheus Nachtergaele tem enfim uma reação, ela é a mais violenta que podemos imaginar e frisa como, para aquela realidade, um final mais esperançoso para Antonio e Teresa parece inviável &#8211; sendo algo, inclusive, evidente desde o princípio, apesar do filme recorrer a artifícios do melodrama que, de forma muito inteligente, despistam o público do óbvio.</p>
<p>O filme também conta com o benefício de ter duas fortes interpretações em grande destaque. Matheus Nachtergaele sabe conduzir de forma dúbia a docilidade de Antonio, revelando posteriormente que esta na verdade pode ser entendida como uma passividade ou alienação da realidade no seu entorno fruto do seu lugar na sociedade como um homem. Ana Luiza Rios também tem grandes momentos no longa como Teresa, construindo um arco dramático extremamente delicado e duro de ser atravessado por sua personagem e a atriz faz isso com muita sensibilidade. A oposição de experiências entre os personagens escancara como as vivências femininas são distintas das masculinas. A princípio, Antonio se coloca como o polo provedor, mais sábio e experiente da relação, para depois o público constatar que é Teresa quem tem as rédeas da realidade de fato, empreendendo uma trajetória dura e cruel de amadurecimento, independência e preparação para a vida.</p>
<p><em><strong>Mais Pesado é o Céu</strong></em> dá indícios de dialogar com um cinema brasileiro sobre o sertão do início dos anos 2000 que, através do melodrama, encontrava alguma beleza ou esperança na trajetória de personagens que viviam uma realidade extremamente sofrida e que fora até denominado de &#8220;cosmética da fome&#8221; naquele período por acadêmicos renomados. A captura das belezas naturais do Ceará pela direção de fotografia exuberante de Petrus Cariry e o registro de uma convivência domiciliar do casal de protagonistas mediada pelas preocupações com uma criança geram um contraste proposital com as intenções do cineasta de chacoalhar as expectativas do público com um registro mais solar daquela realidade.</p>
<p>Cariry desmonta as ilusões não só do seu protagonista masculino, Antonio, mas também do público: enquanto o país não se livrar de alguns problemas sociais bem sérios, qualquer &#8220;final feliz&#8221; é inviável naquele contexto.  <em><strong>Mais Pesado é o Céu</strong></em> quebra essa tradição de forma muito sofisticada, usando com muita inteligência uma abordagem que procura o tensionamento, a contradição, a quebra de expectativas. É um acerto e tanto.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Petrus Cariry</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Matheus Nachtergaele, Ana Luiza Rios, Silvia Buarque</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/FaD-aLKeG1M?si=4uNXEaQTL3cPmO_l" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>Crítica: Carro Rei</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jul 2022 17:07:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Destaque em festivais de cinema como Gramado, de onde saiu com quatro prêmios (filme, trilha sonora, direção de arte e som), além de um troféu especial do júri para a atuação de Matheus Nachtergaele, sem dúvida um dos grandes destaques da produção, Carro Rei é um daqueles filmes que promete cindir a opinião dos espectadores. Isso será resultado não só da óbvia alegoria que faz sobre a atual situação do Brasil, mas por toda a maneira como a cineasta Renata [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Destaque em festivais de cinema como Gramado, de onde saiu com quatro prêmios (filme, trilha sonora, direção de arte e som), além de um troféu especial do júri para a atuação de Matheus Nachtergaele, sem dúvida um dos grandes destaques da produção, <em><strong>Carro Rei</strong></em> é um daqueles filmes que promete cindir a opinião dos espectadores. Isso será resultado não só da óbvia alegoria que faz sobre a atual situação do Brasil, mas por toda a maneira como a cineasta Renata Pinheiro (conhecida por longas como Amor, Plástico e Barulho e Açúcar) articula e apresenta sua história e suas personagens, totalmente avessa a gramáticas estandardizadas na linguagem cinematográfica. <em><strong>Carro Rei</strong></em> é daquelas experiências extremas.</p>
<p>O longa narra a história de Ninho (Luciano Pedro Jr.), rapaz que também é chamado de Uno por ter nascido dentro de um carro. Ninho cresce em uma família cujo pai é dono de uma frota de taxi e a mãe herda com o tio um ferro velho. Por toda esta vinculação com automóveis, o rapaz desenvolve a habilidade de se comunicar com essas máquinas. É quando o seu tio Zé Macaco (Matheus Nachtergaele) restaura um carro velho que essa relação fica ainda mais intensa. Nesse momento, o rapaz tem que decidir de que lado estará em uma iminente revolução das máquinas liderada pelo veículo criado revivido por Zé Macaco.</p>
<p>Não faz muito tempo que vimos uma obra cinematográfica traçar comentários interessantes sobre a relação do homem com máquinas. Titane de Julia Ducornau, vencedor da edição de 2021 de Cannes recém-lançado no Mubi, apresenta um body horror curioso a partir da jornada de uma jovem que sofre um acidente de carro quando criança e se transforma em uma espécie de ciborgue após um procedimento cirúrgico. <em><strong>Carro Rei</strong></em> possui paralelos com este longa francês, apresentando até algumas cenas de sexo entre humanos e automóveis, mas fica evidente pelo seu contexto de realização e pelo local onde se passa sua história que a realizadora quer estabelecer uma crítica cirúrgica sobre os caminhos que a sociedade brasileira tem traçado nos últimos anos com o governo de Jair Bolsonaro.</p>
<p>Aquilo que inicialmente é chamado de resistência, logo ganha ares de culto liderado pelo <em><strong>Carro Rei</strong></em>, tendo o mecânico Zé Macaco como ponte para a execução de um plano de manipulação. Aqui, há evidentes paralelos com a relação estabelecida entre bolsonaristas e o atual presidente brasileiro, com direito até ao personagem de Matheus Nachtergaele bradando em dado momento do filme: &#8220;Caruaru acima de todos!&#8221;. Além disso, está presente no filme uma esquisita relação que se cria entre o homem e a tecnologia, oscilando entre a situação de humanos que são governados por essa macroestrutura predatória e imperialista da tecnologia e os momentos em que essas ferramentas são usadas para a manipulação das massas por meio de deturpações da realidade. Tudo isso não é muito diferente do uso que grupos políticos têm feito do Twitter e do Whatsapp para disseminar fake news, parte fundamental da estratégia de ascensão da extrema direito em muitos países, inclusive o Brasil, mas também da estranha relação que muitos deles possuem com essas empresas e os CEOs por trás de suas políticas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-15623" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6.jpg" alt="Carro Rei" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Kingcar_pressphoto6-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Todos esses paralelos entre ficção e realidade são construídos de forma instigante e envolvente por Renata Pinheiro na tela. A diretora imprime um visual interessante para a obra tornando <em><strong>Carro Rei</strong></em> uma espécie de representante de um sertão-futurismo, toda uma tecnologia possível à realidade de Caruaru. Automóveis retro-futuristas que circulam pelas vielas simples do interior de Pernambuco com seus seguidores humanos convertidos em primatas trajados por roupões azul e amarelo. Há escolhas estéticas fascinantes ao longo da narrativa.</p>
<p>Parte do bom resultado visto na tela em <em><strong>Carro Rei</strong></em> se dá também pela performance enérgica e comprometida (como de costume) de Matheus Nachtergaele. O ator transforma o seu Zé Macaco em um símio, empenhando-se em trazer para a expressão corporal do personagem o andar de um primata além de emitir, sempre que possível, sons que nos remetem ao animal. A atuação de Nachtergaele assume contornos ainda mais intensos quando seu personagem entra em uma espiral de megalomania, fazendo o ator exibir tudo isso não só com uma postura corporal que passa a ser ameaçadora, mas por um olhar que exprime puro fanatismo. Matheus faz o equivalente que Andy Serkis fez na trilogia Planeta dos Macacos, mas ainda melhor, sem CGI. Aliás, o próprio longa tem um paralelo inegável com os filmes da série e até com O Exterminador do Futuro no cunho filosófico e pessimista das suas reflexões sobre as relações do homem com o nosso planeta e para onde a humanidade está caminhando da forma como tem se comportado.</p>
<p><em><strong>Carro Rei</strong></em> é movido por esse comentário social apresentado com criatividade pela sua realizadora, que tem insights muito bons sobre nossa história atual. É verdade que o longa peca na sua execução com uma narrativa que por vezes emperra e não consegue acompanhar suas ideias e que, a exceção do Zé Macaco de Matheus Nachtergaele, é repleta de personagens que não mobilizam tanto o interesse do espectador, mas não há como negar que Renata Pinheiro realizou uma obra das mais importantes ao falar como poucas de maneira tão precisa e completa sobre nossa realidade.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Renata Pinheiro</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Matheus Nachtergaele, Okado do Canal, Jules Elting</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/NzkClzpqMuo" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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		<title>10º Olhar de Cinema: Carro Rei</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Oct 2021 20:23:13 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Renata Pinheiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entre crises familiares, financeiras e a exploração das relações humanas, Carro Rei se vale também de uma fantasia em seu plot para fomentar as discussões que deseja promover. Colocando o seu protagonista, Uno (Luciano Pedro Jr.), como alguém que consegue se comunicar com automóveis, a trama gira em torno de como a descoberta do poder de comunicação e interação com os carros pode afetar toda uma população. Contudo, mais do que isso, o filme parece desejar investigar as reações do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Entre crises familiares, financeiras e a exploração das relações humanas, <strong><em>Carro Rei</em></strong> se vale também de uma fantasia em seu plot para fomentar as discussões que deseja promover. Colocando o seu protagonista, Uno (Luciano Pedro Jr.), como alguém que consegue se comunicar com automóveis, a trama gira em torno de como a descoberta do poder de comunicação e interação com os carros pode afetar toda uma população.</p>
<p>Contudo, mais do que isso, o filme parece desejar investigar as reações do jovem Uno diante de todos os elementos que o circundam. Seja com seu pai marrento (Adélio Lima) ou Zé (Matheus Nachtergaele), seu peculiar tio, Uno se vê aflito entre as escolhas que gostaria de tomar, o futuro que já parece estar traçado para ele, bem como o fato de que ele conversa com veículos, desde a infância.</p>
<p>Neste jogo entre trabalhar as etapas de amadurecimento e relação de Ninho com o mundo e apresentar esta espécie de distopia tecnológica, na qual carros planejam dominar os humanos, o longa-metragem acaba por não conseguir equilibrar narrativamente tudo que ele convoca. Isto porque são postas diversas subtramas, junto com o desenvolvimento da premissa principal. Desta maneira, são muitos conflitos, enlaces e desenlaces para dar conta.</p>
<p>Com isso, a jornada de Uno é truncada e os coadjuvantes do longa ficam planificados. Suas questões e sentimentos soam rasos, pois não foram destrinchadas. Este fator compromete o caminhar da produção e, principalmente, o espaço de Uno, que fica refém da ação de todos que estão à sua volta. Passivo diante de tudo que ocorre e mudando de motivações a cada sequência, a sensação que o espectador pode ter é a de que a sessão vai se arrastando e dando voltas até chegar, finalmente, no seu ponto principal.</p>
<p>Apenas no terceiro ato, depois de terem sido expostos retalhos de acontecimentos, com um Uno perdido, a exibição parece se encontrar e se encaminhar para seu desfecho com uma coerência maior. Ainda assim, figuras como Zé – que conta com uma atuação afinada de Nachtergaele – ficam soltas, sem ganhar um sentido mais palpável para existirem na obra. Talvez, a maior impressão que fique sobre <strong><em>Carro Rei</em></strong> é uma vontade de imprimir imagens e textos <em>cool</em> apenas.</p>
<p>A direção de Renata Pinheiro (<em>Açúcar</em>) e a fotografia de Fernando Lockett (<em>Oscuro Animal</em>) são coesas e causam um efeito impactante em algumas cenas, como no momento em que todes são convocades para ir de encontro ao sistema político, que está proibindo a circulação de carros antigos. A escolha de temperaturas mais frias, na maior parte da projeção, em um longa com momentos de tanta passionalidade das personagens, por exemplo,  é uma estratégia que acrescenta a construção de atmosfera e fomenta traços de personalidades daqueles indivíduos presentes ali.</p>
<p>Esta é um tipo de pista que irá ser revelada posteriormente, algo que mostra para o público os traços maiores e menos de ganância dos indivíduos. Além disso, a ingenuidade e sensibilidade de Uno e seus colegas de faculdade são vistas não apenas nos diálogos, de forma passageira, mas nas cores mais quentes, que surgem na tela de quando em quando, e nas locações com a presença forte da natureza.</p>
<p>Entre árvores, plantas, flores e água que sai da mangueira, a juventude trazida no filme é como um respiro dentro daquele contexto de ambição incisiva. Assim, entre falhas e acertos, <strong><em>Carro Rei</em></strong> peca por não saber direcionar a boa história que possuía nas mãos. Apesar de conter aspectos visuais cativantes, ele não consegue se safar de ser uma experiência cansativa, perdida e morna.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Renata Pinheiro</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Luciano Pedro Jr.,  Matheus Nachtergaele, Adélio Lima</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/oWvdJ4HjUmY" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>Mostra de Cinema de Ouro Preto: Amarelo Manga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jun 2021 17:56:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Festivais]]></category>
		<category><![CDATA[16ª Cineop]]></category>
		<category><![CDATA[Amarelo Manga]]></category>
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		<category><![CDATA[Cláudio Assis]]></category>
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		<category><![CDATA[Leona Cavalli]]></category>
		<category><![CDATA[Matheus Nachtergaele]]></category>
		<category><![CDATA[Mostra de Cinema de Ouro Preto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Intenso. Esta seria a melhor palavra para descrever Amarelo Manga, filme de Cláudio Assis (Baixio das Bestas), de 2002. Em um tom que mescla violências verbais e físicas com sentimentos extremos, o espectador se depara com emoções humanas à flor da pele, no meio de cenários urbanos cotidianos. A partir das características impressas apresentadas na tela, existem acertos e incômodos durante a projeção. Com esta escolha de revelar situações fortes, em alguns momentos, o filme se perde e se encontra. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Intenso. Esta seria a melhor palavra para descrever <strong><em>Amarelo Manga</em></strong>, filme de Cláudio Assis (<em>Baixio das Bestas</em>), de 2002. Em um tom que mescla violências verbais e físicas com sentimentos extremos, o espectador se depara com emoções humanas à flor da pele, no meio de cenários urbanos cotidianos. A partir das características impressas apresentadas na tela, existem acertos e incômodos durante a projeção. Com esta escolha de revelar situações fortes, em alguns momentos, o filme se perde e se encontra.</p>
<p>Em sua direção, há bastante precisão e um descortinamento das personagens a partir dela. As movimentações de câmera contribuem para o aumento das potencialidades das emoções das figuras em cena, revelando as suas dúvidas, solidões, angústias, pensamentos e seus atos questionáveis. Um exemplo pode ser o monólogo de Dunga (Matheus Nachtergaele), que conversa sozinho, enquanto toca na carne e na faca deixadas por Wellinton (Chico Diaz), por quem nutre uma paixão.</p>
<p>Em poucos minutos, o público compreende as motivações e pensamentos de Dunga e a aproximação para com ele se dá gradativamente, a partir do quadro que reduz o distanciamento pouco a pouco. São nestes pontos que o longa-metragem acerta, porque consegue evocar a humanidade de suas personagens, colocando uma mistura de sordidez, de falha de caráter e sensibilidade sem julgar eles e a direção faz esta potência crescer.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-14233" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/06/amarelo_manga.jpg" alt="Amarelo Manga" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/06/amarelo_manga.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/06/amarelo_manga-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/06/amarelo_manga-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2021/06/amarelo_manga-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>As temáticas são pesadas e certas sequências podem deixar o público em dúvida da necessidade de tais ações, como quando Kika (Dira Paes) arranca um pedaço da orelha da amante do marido com o dente, mas outras são justificáveis a aumenta a complexidade da história. O que acontece aqui, talvez, é uma tentativa de esticar os limites dos conflitos, colocando as personagens para passarem de seus limites.</p>
<p>A tentativa parece ser a de expor becos sem saídas e pontos de virada com sofrimento ou embates profundos, testando as probabilidades de ações humanas quando há pouco ou nada a se perder. No entanto, apesar deste efeito ser alcançado, a medida das coisas é ultrapassada e a própria estilística e traços marcantes do enredo se desgastam e um exagero é alcançado. Além de planos que não contribuem para a trama no geral, que se esvaziam pelo desejo demasiado em trazer ferocidade para o ecrã, a busca por trazer uma carga dramática elevada acaba gerando uma artificialidade.</p>
<p>Seja nos textos, nas atuações ou no próprio tempo de alguns quadros, <strong><em>Amarelo Manga</em></strong> peca por querer reiterar as informações textual e imageticamente, enfraquecendo o resultado total, por deixar a obra cansativa e sem organicidade. Existem anúncios recorrentes que beiram a ingenuidade, como se fosse necessário manifestar o discurso em tudo. Desta forma, pode-se dizer que, no geral, há coerência e força nas imagens e no que está sendo dito. Apesar da mão pesar em certos quesitos, é uma sessão arrebatadora, que convoca um olhar atento para seus acontecimentos.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Cláudio Assis</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Chico Dias, Dira Paes, Matheus Nachtergaele, Leona Cavalli</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/T2rTAXWIpPY" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
<p><strong>Confira as nossas críticas de festivais <a href="https://coisadecinefilo.com.br/tag/festival/">clicando aqui</a>!</strong></p><p>O post <a href="https://coisadecinefilo.com.br/mostra-de-cinema-de-ouro-preto-amarelo-manga/">Mostra de Cinema de Ouro Preto: Amarelo Manga</a> apareceu primeiro em <a href="https://coisadecinefilo.com.br">Coisa de Cinéfilo</a>.</p>
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