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	<title>Arquivos Maria de Medeiros - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: Aos Nossos Filhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Aug 2022 21:50:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Em Aos Nossos Filhos, Maria de Medeiros retorna à direção de filmes através de uma história repleta de conflitos entre mãe e filha ambientada no Brasil, mas também cheia de nós sociais próprios do país. No longa, Marieta Severo vive a diretora de uma ONG que dá suporte a órfãos soropositivos. A personagem é surpreendida por um professor universitário interessado no seu passado como presa política da ditadura militar. Além disso, a protagonista vive em pé de guerra com a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Em <strong><em>Aos Nossos Filhos</em></strong>, Maria de Medeiros retorna à direção de filmes através de uma história repleta de conflitos entre mãe e filha ambientada no Brasil, mas também cheia de nós sociais próprios do país. No longa, Marieta Severo vive a diretora de uma ONG que dá suporte a órfãos soropositivos. A personagem é surpreendida por um professor universitário interessado no seu passado como presa política da ditadura militar. Além disso, a protagonista vive em pé de guerra com a filha, papel de Laura Castro (co-autora do roteiro), uma advogada que estuda para se tornar juíza e tem tentado sem sucesso com a esposa uma gravidez por inseminação artificial. Mãe e filha nunca se entendem, seus interesses sempre parecem opostos, e o propósito desse drama familiar de Medeiros é tentar aparar as arestas entre essas duas personagens.</p>
<p><strong><em>Aos Nossos Filhos</em></strong> é uma mistura difícil de entender. O longa insere sem sucesso suas personagens representantes de uma classe média em contextos que extrapolam as querelas privadas das duas gerações de mulheres vividas por Marieta Severo e Laura Castro. Toda sorte de problemas sociais do nosso país surge como panorama desconexo na história: homofobia, segurança pública, ditadura militar, racismo, orfandade, AIDS etc. O resultado não é dos melhores, sobretudo porque todas estas questões não conseguem dialogar minimamente com a vocação melodramática da história, ou seja, seus segredos e relações familiares mal resolvidas. Recentemente, com Mães Paralelas, Pedro Almodóvar mostrou como essa mistura improvável de inquietações sociais nas raízes da formação de um país e drama familiar podem se interseccionar formando uma obra primorosa, revisionista na própria filmografia do diretor. Aos nossos filhos soa propor algo parecido, mas a execução passa longe do êxito do mais recente trabalho de Almodóvar.</p>
<p>Temas como homofobia, ditadura militar e segurança pública são jogados de qualquer forma na história. Na maioria das vezes, não dá para entender a conexão que as realizadoras estão tentando estabelecer entre as causas sociais que levantam e a narrativa familiar que está sendo construída. Como resultado, há cenas que escancaram a mecanicidade de alguns esforços e o deslocamento de inúmeros eventos na história, como os constantes tiroteios na favela onde a personagem de Marieta Severo trabalha ou um beijo entre o casal formado por Laura Castro e Marta Nobrega em uma loja quando elas são questionadas se são irmãs por uma vendedora.</p>
<p>Em <strong><em>Aos Nossos Filhos</em></strong>, é velado o descompasso de uma burguesia cheia de bandeiras a defender, mas que anda sempre ensimesmada em questões pessoais: o filho perdido, a reprodução assistida que não dá certo, o divórcio iminente&#8230;O mergulho em tópicos amargos da sociedade brasileira parece uma forma de ingenuamente expurgar a culpa de fazer parte de um sistema opressor que os personagens tanto criticam e combatem. Acontece que o longa em momento algum demonstra consciência ou age de forma mais enérgica sobre o assunto. A discussão parece escapar da própria sensibilidade do longa, que sequer reflete conscientemente a respeito das suas contradições evidentes. Tal esforço parece exclusivo do espectador.</p>
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<p>Em alguns momentos, o filme estabelece pontos de reflexão originais que talvez devessem ser melhor explorados pela história. <strong><em>Aos Nossos Filhos</em></strong> desmistifica um pouco o imaginário de que o preconceito pertence apenas às bocas e mentes conservadoras, trazendo de um lado uma vítima da ditadura militar que tem um trabalho sério comprometido com soropositivos, mas é extremamente homofóbica e, do outro, a própria filha, uma jovem lésbica cheia de ideias equivocadas sobre portadores do HIV, por exemplo. Acontece que nada é muito desenvolvido nessa seara e a querela entre as personagens fica por isso mesmo.</p>
<p>Diante de todo o mosaico ofertado pelo drama, o público fica à deriva com uma série de questionamentos não respondidos pela experiência de assisti-lo: qual a leitura que esse filme faz das suas personagens e da situação em que elas estão inseridas? É uma crítica ao comportamento de uma classe social? Ele adere ao olhar das suas protagonistas para aquela realidade? É tudo incomodamente dúbio. Como protagonista do longa, Marieta Severo até consegue conferir alguma dignidade para a história até mesmo quando algumas cenas soam constrangedoras (o pesadelo do jacaré ou o temor da barata voadora dentro de casa, por exemplo), mas nenhuma atriz aplicada em cena consegue suprir tantas faltas nas bases dramáticas da narrativa.</p>
<p>Quando não se está preparado para mergulhar na complexa teia de problemas sociais que forma o Brasil (e tudo bem não estar, nosso país é mesmo algo difícil de se entender), o melhor a fazer é se dedicar àquilo que está ao nosso alcance. O que as realizadoras dão pistas de executar melhor nessa história são os conflitos familiares, os dramas privados entre mãe e filha, mas tudo fica ofuscado por causas e dívidas históricas que só inflam e dispersam a obra de um objetivo mais econômico e localizado que lhe conferiria um resultado melhor.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Maria de Medeiros</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Marieta Severo, José de Abreu, Laura Castro</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
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