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	<title>Arquivos Jammeh Diangana - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica: Street Flow</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Michel Gutwilen]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Oct 2019 13:10:08 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Banlieusards</em>. O título original de <em><strong>Street Flow</strong></em>, em francês, é mais adequado para resumir sua ideia central. Pessoa do subúrbio, em sentido pejorativo. Pela mesma razão, esse é o nome da nova tour de Kery James que, além de ser protagonista, roteirista e codiretor do filme com Leyla Sy, é um influente <em>rapper</em>. Com uma lírica marcada por suas raízes africanas, juntamente com fortes denúncias ao racismo estrutural, a truculência policial e a violência urbana, não há como esperar que sua estreia atrás da câmera não seja transbordada por esses temas. Neste sentido, o longa dialoga fortemente com <em>Os Donos da Rua</em> (<em>Boyz n the Hood</em>), que culminou na primeira indicação de um diretor afro-americano ao <em>Oscar</em>.</p>
<p>Assim como a obra de 1991, <em><strong>Street Flow</strong></em> aborda as influências do <em>glamour gangster</em> na vida de um jovem negro suburbano. Uma das grandes diferenças entre as duas produções é que a da <em>Netflix</em> não foca em um grupo de amigos, mas em três irmãos. Noumouké (Bakary Diombera) é o mais novo que, sempre metido em confusões, se espelha no mais velho, Demba (o próprio Kery James), ex-presidiário e traficante de drogas.</p>
<p>Entre os dois, Soulaymaan (Jammeh Diangana) é o irmão do meio, estudante de Direito que possui um forte compasso moral. Como denominador comum do trio, Khadijah (Kani Diarra) é a mãe idosa, marcada pela decepção com o primogênito fora de lei. Por isso, ela que tenta fazer de tudo para que o caçula não seja igual a ele. Sem uma figura paterna, tanto Soulaymaan quanto Demba assumem tal função para Noumouké, colocando o menino em um cabo de guerra de influências opostas.</p>
<p>Contrariamente a <em>Os Donos da Rua</em>, <em><strong>Street Flow</strong></em> possui um espaço temporal bem definido. Sua narrativa se passa durante quinze dias, tempo dado à Soulaymaan para se apresentar em um juri simulado. Nele, o jovem deverá defender, contra Lisa (Chloé Jouannet, <em>Lucky Luke</em>), a tese de que o Estado não é responsável pela atual situação dos subúrbios. O roteiro de Kery James acerta ao colocar o jovem negro para defender tudo no qual ele não acredita, enquanto sua opositora — a típica loira de olhos azuis da burguesia francesa — deve defender o assistencialismo estatal, gerando um forte e irônico contraste.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-11565" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/10/StreetFlow3-750x500.jpeg" alt="Street Flow" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/10/StreetFlow3.jpeg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/10/StreetFlow3-610x407.jpeg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2019/10/StreetFlow3-360x240.jpeg 360w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Ainda sobre o tribunal, James também ousa ao colocar a argumentação de Soulaymaan em forma de rima. Não só uma escolha metalinguística — uma vez que o personagem replica a letra de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=gp3XZDK7Lw4"><em>Lettre à la République</em></a>, canção mais famosa de Kery James — como, dentro da vivência do personagem, faz muito sentido que ele se expresse através do linguajar da rua, rejeitando um formalismo pomposo. Inclusive, tal liberdade poética faz referência a um outro excelente filme sobre racismo, <em>Blindspotting </em>(2018), cujo ápice também se dá por rimas.</p>
<p>Certamente, o clímax da trama reside nessa sequência e se conecta muito bem com seus acontecimentos precedentes. Quando o protagonista defende na corte que um rapaz da periferia se atrasou para o trem por fumar maconha, imediatamente essa frase ganha força pelo contraste com uma cena anterior na qual ele mesmo perde o transporte porque a polícia lhe parou para uma revista na rua. Tudo que fala é uma grande mentira.</p>
<p>Se o diretor não trabalha com muitos planos elaborados ao longo de <em><strong>Street Flow</strong></em>, James dedica todos seus esforços à construção daquele universo periférico. De tal forma, o pequeno cuidado de colocar um casal com um bebê entrando em seu prédio enquanto, ao lado, acontece uma briga entre traficantes, dá toda credibilidade a essa atmosfera. Similarmente, na já mencionada abordagem policial, pessoas passam filmando a cena sem interferirem, além um próprio oficial negro presente que diz ser diferente de Soulaymaan. Infelizmente, tudo isso é bem comum no mundo real.</p>
<p>Embora os três protagonistas pareçam, inicialmente, figuras unidimensionais, o roteiro desenvolve suas personalidades de maneira complexa. Assim, os irmãos mais velhos estão longe de apenas representarem o &#8220;bem&#8221; e &#8220;mal&#8221;, nos quais Noumouké deve optar por qual seguir. Demba, apesar do envolvimento com a ilicitude, possui seu código de ética, não despejando famílias com crianças e relutando em matar alguém. Soulaymaan, ainda que boa parte do tempo seja um &#8220;bom samaritano&#8221;, possui dificuldades para deixar alguém entrar em sua vida. Já o ator mirim Bakary Diombera, com seu olhar melancólico, traz uma comoção ao caçula que, mesmo tomando atitudes erradas, é genuinamente inocente e perdido na vida.</p>
<p><b><i>Street Flow</i></b> é uma história que, mesmo com uma certa obviedade em sua mensagem moralista (assim como <i>Os Donos da Rua</i>), compensa justamente pela catarse na forma como a exterioriza. No fundo, todo o desenrolar de seus acontecimentos é uma construção lenta e gradual que aumenta o impacto desta expiação na cena do tribunal. Aliás, não há apenas um apontar de dedos contra o caminho da ilicitude. É mais do que isso, com uma profunda denúncia a toda estrutura social e racista que culmina na entrada os jovens negros periféricos nesse mundo. Como diz o diretor Kery James em sua canção <i>Lettre À La République</i>: &#8220;Toda chegada tem seu ponto de partida&#8221;.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Kery James, Leila Sy<br />
<strong>Elenco:</strong> Kery James, Bakary Diombera, Jammeh, Diangana, Chloé Jouannet, Kani Diarra</p>
<p><strong>Assista ao <a href="https://coisadecinefilo.com.br/category/trailers/">trailer</a>!</strong></p>
<p>[youtube https://www.youtube.com/watch?v=KfMZKVfODP8&amp;w=750&amp;h=500]</p>
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