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	<title>Arquivos Carlos Francisco - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos Carlos Francisco - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Crítica O Agente Secreto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Felipe Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Nov 2025 03:57:51 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de todo o fervor vivido pelo cinema brasileiro no último ano com o sucesso estrondoso, dentro e fora do país, com <a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-ainda-estou-aqui"><em>Ainda Estou Aqui (2024)</em></a>, a estreia do filme do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho eleva essa sensação à máxima potência. O novo longa-metragem do diretor substitui o filme de Walter Salles como a produção nacional mais comentada do momento. O clima de copa do mundo já está criado e a estreia de <strong><em>O Agente Secreto</em></strong> nos cinemas, que acontece nesta quinta-feira (6), reacende a chama popular da torcida pelo Brasil em uma nova corrida nos maiores prêmios do mundo cinematográfico.</p>
<p>Saído do Festival de Cannes como o filme mais premiado do ano, <strong><em>O Agente Secreto</em></strong> é essencialmente brasileiro até seu último milésimo de segundo e isso é hipnotizante. O ritmo frenético estabelecido por Kleber em seu roteiro e direção empolgam, conduzem e surpreendem o espectador a cada virada de chave em sua narrativa. Como de costume, o cineasta constrói um pastiche de histórias que se cruzam em suas dores, desejos e missões, desenhando a história do Brasil de um determinado período.</p>
<p>Os filmes de Kleber funcionam como uma colcha de retalhos de histórias que se entrelaçam e são costuradas a partir de uma sucessão de fatos inesperados, dolorosamente reais e essencialmente brasileiros  &#8211; e isso não é diferente em <strong><em>O Agente Secreto</em></strong>. No longa, acompanhamos a vida de Marcelo (interpretado por Wagner Moura), que, durante o auge da ditadura militar e seus desmandos no Brasil de 1977, se muda para Recife. Ele vai até a capital pernambucana tentando se esconder de um passado violento, na esperança de encontrar um novo futuro. O que ele encontra lá são, no entanto,  as sombras de seu passado, à espreita, esperando uma oportunidade para dar cabo de sua vida.</p>
<p>Em seu novo <em>thriller</em> político, Kleber remonta a dor e a nostalgia da vida no Brasil da década de 1970. Na mesma medida que <strong><em>O Agente Secreto</em></strong> é capaz de nos arrepiar com os horrores e absurdos da ditadura, o filme nos relembra, em seguida, pelo que tantas pessoas lutaram. O projeto bate bem nessa tecla: que mesmo em tempos de desesperança há sempre com quem contar. E isso vem por meio dos afetos (d)escritos por Kleber em seu roteiro. Talvez esse seja o maior mérito da filmografia do diretor, o equilíbrio entre a sutileza, a paixão e a dor do existir.</p>
<p>Os contextos das perseguições à oposição da ditadura, o cercear a liberdade e o medo do inimigo que literalmente mora ao lado são os grandes fantasmas que acompanham o público durante a sessão. Seja através da ludicidade ou das ironias tão conhecidas nos trabalhos do diretor, <strong><em>O Agente Secreto </em></strong>empolga a cada instante por não sabermos o que pode acontecer. O roteiro de Kleber não é previsível porque ele preza pelo tensionamento dos sentidos. O inesperado é a chave mestra da genialidade de seu roteiro. Ou seja, de tédio não morreremos.</p>
<figure id="attachment_20046" aria-describedby="caption-attachment-20046" style="width: 750px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-20046" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-750x500.jpg" alt="O Agente Secreto (2025)" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-750x500.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-1536x1024.jpg 1536w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-720x480.jpg 720w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-770x513.jpg 770w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3-1400x933.jpg 1400w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2025/11/O-Agente-Secreto-3.jpg 1715w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /><figcaption id="caption-attachment-20046" class="wp-caption-text">Wagner Moura em cena de &#8216;O Agente Secreto (2025)&#8217;</figcaption></figure>
<p>Para além dos louros de Kleber, tanto no roteiro quanto em sua direção, a fotografia, a arte e a montagem do filme pulsam junto com sua narrativa. A direção de arte, comandada por Thales Junqueira (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-baby"><em>Baby</em></a>, de 2024), consegue desenhar as texturas, vibrações e os perigos do Brasil na ditadura. Em complemento, a fotografia de Evgenia Alexandrova (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-sem-coracao"><em>Sem Coração</em></a>, de 2023) captura essas imagens e faz com que elas pulsem de forma hipnótica, tornando essa dobradinha de visualidade um primor do filme. Para fechar o resultado visual de <strong><em>O Agente Secreto</em></strong>, a montagem de Eduardo Serrano e Matheus Farias (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-bacurau"><em>Bacurau</em></a>, de 2019) tensiona e eleva cada um desses elementos, dando vida à obra de Kleber da melhor forma que o público poderia pedir.</p>
<p>O elenco, como de costume, é um show à parte. Já que o cinema de Kleber é tão fortemente composto por um pastiche de histórias e vidas, seu elenco costuma ser robusto em quantidade e avassalador em potência. Contudo, <strong><em>O Agente Secreto </em></strong>talvez tenha alcançado um novo patamar de <em>casting</em> nas produções do cineasta pernambucano. Parece que cada pessoa foi escolhida a dedo. E cada uma delas tem seu momento de brilhar.</p>
<p>Carlos Francisco, Robério Diógenes, Roney Villela, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Isabél Zuaa, Igor de Araújo, Ítalo Martins, Luciano Chirolli e Udo Kier são alguns dos artistas que vibram em cena e fazem a história ser viva e pulsante. Dois nomes, no entanto, precisam ser comentados à parte. Mesmo com a potência dos nomes anteriores, nada se compara com o magnetismo de dona Tânia Maria e de Wagner Moura (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-guerra-civil"><em>Guerra Civil</em></a>, de 2024) em cena. Não existiria <strong><em>O Agente Secreto </em></strong>sem a força gravitacional que os dois atores geram no espectador.</p>
<p>Dona Tânia tem uma pureza magnética do realismo de sua interpretação que rouba a cena incessantemente. Basta ter segundos de tela que os olhares do público imediatamente recaem sobre sua naturalidade quase infantil. Há uma pureza de liberdade em sua interpretação que faz dela um dos pontos mais altos durante <strong><em>O Agente Secreto</em></strong>. Realmente acredito que a escolha de escalar dona Tânia Maria para o papel de Dona Sebastiana foi tão acertado quanto a escalação de Wagner.</p>
<p>O ator baiano é outra força em cena. Sua interpretação prende o espectador por trazer outra chave, igualmente magnética: a do medo. Wagner carrega em seu olhar um peso, uma dor e um desespero que são palpáveis. Ele entretém o espectador em uma construção de personagem que grita uma profundidade, ainda que ele só demonstre a superfície. E os olhos, como é dito em <em>Scarface (1983)</em>, eles nunca mentem. E Moura, mais uma vez, escancara a suas habilidades interpretativas por demonstrar um turbilhão a partir da sutileza de um olhar.</p>
<p>Com o longa, portanto, o diretor consegue entregar uma narrativa absurdamente coesa, ritmada e surpreendente que passa voando durante seus quase 160 minutos. O filme pode ser o ápice do cinema de Kleber por beber de todos os temas e nuances tão caros à ele ao longo de sua carreira. E isso é feito a partir de uma condução primorosa que merece um pergaminho de elogios e saudações por sua excelência. Não há melhor forma de ver <strong><em>O Agente Secreto </em></strong>a não ser como a epítome do cinema de Kleber Mendonça Filho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Direção:</strong> Kleber Mendonça Filho</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Wagner Moura, Carlos Francisco, Tânia Maria, Robério Diógenes, Roney Villela, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Isabél Zuaa, Thomás Aquino, Laura Lufési, Igor de Araújo, Ítalo Martins, Luciano Chirolli, João Vitor Silva, Licínio Januário e Udo Kier</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/AOBPXs_euPA?si=AUyJM-jQ_dl9TBq7" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>Crítica Suçuarana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Sep 2025 18:29:42 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Dora (Sinara Teles) é uma andarilha e <em>Suçuarana</em> insere o espectador na caminhada de sua protagonista. Através de uma direção que foca em planos mais longos e abertos, o longa-metragem dá a oportunidade do espectador investigar a jornada da personagem central, compreendendo, aos poucos, suas motivações e emoções. Essa entrega progressiva é um dos pontos qualitativos mais altos da obra, porque camadas sobre a realidade de Dora são reveladas e a imersão com a história se estabelece cada vez mais, à medida que a trama avança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, primeiro, há um mergulho no olhar de Dora em relação ao mundo. A jovem é construída com pausas extensas, nas quais ela observa o seu entorno, como se desconfiasse de tudo. Essa característica já pontua o tom da projeção, ela é arisca, sagaz e atenta, mas também solitária e desconfiada. A partir desta lógica, há aqui um acompanhamento dos deslocamentos das personagens em cena, enquanto a câmera fica estática, o que eleva essa potencialidade de contemplação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A plateia recebe quadros longos, nos quais as emoções de Dora podem ser investigadas, por exemplo, tanto na cena quanto na contracena.  Juntamente a isso os tons creme que a cercam, revelam um ambiente seco e inóspito, que parece habitar tanto seu exterior quanto interior. Ao mesmo tempo, o calor e a aparição do cachorrinho Encrenca anunciam a ampliação da complexidade narrativa. Dentro desta busca de Dora por um local que ela não sabe onde é, afetos são encontrados e vão se estabelecendo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pari passu, a frieza e o distanciamento com o outro também são inseridos na trama, com figuras que se mantém isentas de contribuir com a trajetória de Dora. É assim que Clarissa Campolina (<em>Girimunho</em>) e Rodrigo Sorogoyen (<em>As Bestas</em>) vão construindo este <em>road movie</em>. Diversos elementos do subgênero estão ali: a carona que salva, o pet que apazigua o coração, o encontro com pessoas que trazem a vontade de cessar a caminhada e cessar. Não há surpresas quanto ao que vai aparecer na tela em termos de história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, essa previsibilidade não é incômoda no contexto de <em>Suçuarana</em> porque o desejo da produção parece ser o de investigação de personagem e universo ficcional. Mais do que saber se Dora seguirá na estrada ou se ficará com Encrenca, é mais relevante analisar suas respirações e olhares, que lembram como a vida é inconstante e uma sucessão de escolhas. </span><span style="font-weight: 400;">Dora está ali, no meio do nada, sempre andando. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas vezes, não tem onde dormir e o que comer. Ainda assim, ela é posta no filme sempre como agente de suas ações e como um indivíduo crítico. É por esta razão que o longa se destaca por conseguir evidenciar tensionamentos sociais e políticos, mas sendo justo na maneira de representar esta mulher que está à margem, que procura resposta para as suas angústias e não precisa da condescendência do público. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com toda esta dinâmica, entre convocar a sensorialidade com o visual e discutir a solitude e as possibilidades da jornada de uma mulher, <em>Suçuarana</em> é introspectivo e conciso. O seu discurso consegue colocar a realidade do povo brasileiro, com sutileza e completude. Talvez, o longa pudesse arriscar mais na construção dos relacionamentos de Dora com as outras personagens, porque eles parecem um tanto artificiais em algumas sequências.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, essa característica não compromete o todo e esta é uma produção que vale a pena ser consumida, seja pelos quesitos estéticos quanto por sua própria história. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção</strong>: Clarissa Campolina, Rodrigo Sorogoyen</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco</strong>: Sinara Teles, Carlos Francisco, Karina Silvério Augusto</span></p>
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		<title>Crítica: Estranho Caminho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Aug 2024 22:53:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A relação entre os homens e seus filhos tem uma tradição complexa na sociedade. Entre práticas pautadas na masculinidade tóxica, abandono parental e tantas outras estruturas advindas do patriarcado &#8211; como aquela do pai que foi comprar o cigarro e nunca mais voltou -, Estranho Caminho convida o espectador para olhar o que pode mais lhe doer. Talvez exista uma camada do longa-metragem que apenas aquelas pessoas que possuem conflitos com a figura paterna, tenha passado pela perda de um [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A relação entre os homens e seus filhos tem uma tradição complexa na sociedade. Entre práticas pautadas na masculinidade tóxica, abandono parental e tantas outras estruturas advindas do patriarcado &#8211; como aquela do pai que foi comprar o cigarro e nunca mais voltou -, <strong><em>Estranho Caminho</em></strong> convida o espectador para olhar o que pode mais lhe doer. Talvez exista uma camada do longa-metragem que apenas aquelas pessoas que possuem conflitos com a figura paterna, tenha passado pela perda de um pai ou ambos, vão alcançar. Ainda assim, a produção é feliz, acima de tudo, na investigação das relações, de tudo aquilo que não é dito.</p>
<p>São nos olhares trocados pelo protagonista, David (Lucas Limeira), com seu pai, Geraldo (Carlos Francisco), que a construção ampla de sentido é estabelecida. Há muito subtexto elaborado pelo não verbbal e completado com algumas frases sutis, que ambientam o público sobre o passado e o presente daquelas personagens. O fato da trama se passar no período do início da pandemia da Covid-19, convoca este entre encontro entre David e Geraldo e também amplia a clausura e as chances de embate.</p>
<p>O roteiro de Guto Parente (<em>Inferninho</em>) &#8211; que também é diretor do longa &#8211; não tem pressa em explorar cada peripécia vivida por David, revelando as camadas do que está, de fato, ocorrendo na trama com paciência. Este é um filme que olha, sobretudo, para os relacionamentos, em tudo que eles podem trazer de perdas, ganhos, distâncias e aproximações e a calma para explorar mais este fator do que qualquer outro aumenta a intensidade da verdade que está por trás do aparente plot principal.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18529" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-6.png" alt="Estranho Caminho" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-6.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-6-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-6-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Um outro elemento que chama a atenção em <strong><em>Estranho Caminho</em></strong> é  iminência da morte, que ronda toda a história, imprime um tom suave de suspense. Além disso, esta característica põe as personagens acuadas, fazendo com que elas precisem encarar a realidade, principalmente David. A potência do que é construído se fortalece no trabalho da arte, principalmente ao que referem aos objetos de cena e à cenografia no geral. Os lugares são apertados e cheios de elementos espalhados pelos espaços. O mesmo pode ser dito da direção, que tenta convocar quadros mais fechados, criando a impressão de sufocamento até mesmo em locais abertos.</p>
<p>A dinâmica da contracena entre Lucas e Carlos completam este cenário. Ainda que o primeiro seja mais verde que o segundo e peque em algumas intenções, o jogo cênico da dupla é essencial para a história. Os atores criam as conexões e os constragimentos entre os dois, através das respirações e pausas. Estes são diálogos do silêncio, que impactam quem assiste mais ainda à medida em que a projeção vai se aproximando do seu desfecho. Por este motivo, de uma maneira geral, Estranho Caminho possui um bom resultado. Ainda assim, a fotografia e a direlçao poderiam ter realizado uma concepção mais coesa.</p>
<p>Algumas sequências são mal iluminadas e decupadas em <strong><em>Estranho Caminho</em></strong>, fazendo com que a plateia perca as emoções das personagens. Apesar disso, por contar com um roteiro inteligente, que flerta com o absurdo e convoca o realismo fantástico, pelo talento e carisma do elenco e por inserir pautas sociais atravé de discussões sentimentais, o longa de Guto Parente é bem sucedido!</p>
<p><strong>Direção:</strong> Guto Parente</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Lucas Limeira, Carlos Francisco, Rita Cabaço</p>
<p>Assista ao trailer!</p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/GgHTQ4vJqbs?si=j3i02JdcB5N2tuIS" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>Crítica: Marte Um</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Wanderley Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Aug 2022 23:25:46 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>Marte Um</strong></em> tem início na noite da vitória de Jair Bolsonaro nas urnas em 2018. A explosão de fogos e os gritos de comemoração daquela noite irrompem na tela ao mesmo tempo em que vemos o garoto Deivinho olhar para o céu e enxergar nele algo além das manifestações efusivas das pessoas, o menino nutre o sonho de participar do projeto <em>Marte Um</em> cujo objetivo é instalar uma colônia humana no planeta em 2030. O projeto aspirado por Deivinho também dá nome ao filme de Gabriel Martins, trata-se de uma história sobre a importância de se nutrir sonhos, dar possibilidade para as pessoas realizá-los e, consequentemente, se afirmarem enquanto cidadãos.</p>
<p>O longa de Gabriel Martins (o mesmo responsável por No Coração do Mundo e O Nó do Diabo) tem como protagonista a família do garoto Deivinho. A mãe trabalha como diarista e o pai como zelador de um condomínio de classe média. A irmã mais velha do menino cursa Direito na universidade pública e é a primeira geração da sua família a vislumbrar perspectivas diferentes de vida. A eleição do atual governo representa uma verdadeira ameaça sobretudo para a geração de Deivinho e, não por acaso, o garoto assimila o tempo todo os movimentos sutis de transformação do seu contexto.</p>
<p><em><strong>Marte Um</strong></em> é mais um projeto exitoso da produtora mineira Filmes de Plástico. Reflexo do seu tempo e do desejo de muitos artistas expressarem suas angústias e ideias sobre o cenário político deflagrado pela ascensão de uma extrema direita no país, o longa entretanto opta por uma chave diferente de comunicação. A realidade atual está ali, mas Martins prefere deixar que a dinâmica familiar e algumas mudanças sensíveis que irrompem no âmbito privado deem o recado.</p>
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<p>O núcleo familiar é destaque na história. Martins dirige atores maravilhosos, que parecem já chegar prontos no set, naturais, espontâneos, eles são os personagens, não exibem nenhum vestígio de artificialidade na composição daquelas figuras extremamente humanas. O elenco confere aos protagonistas da história uma humanidade que permite que tenhamos empatia por todos. Rejane Faria e Carlos Francisco fazem o casal Tércia e Wellington com tanta naturalidade e dignidade, manifestando um amor pelos filhos tão grande que é capaz de superar atritos geracionais e transformar suas perspectivas de mundo a partir da experiência dos mais novos. Ao mesmo tempo, Camilla Damião conduz muito bem o ponto de mudança representado por Eunice, filha mais velha do casal, e Cícero Lucas é uma revelação como o garoto Deivinho. Como Deivinho, Lucas compõe um menino intuitivo, sincero, prestativo, amoroso, companheiro e ingênuo, enfim, a síntese da afabilidade de <strong><em>Marte Um</em></strong> com o público.</p>
<p>Por meio do trabalho do elenco e da direção de Martins, vemos na tela pessoas boas que se amam, mas têm falhas, se arrependem e estão dispostos a aprender &#8211; os pais com os filhos e os filhos com os pais &#8211; e são companheiros uns dos outros, funcionam bem como grupo de afeto e suporte, mas também vivem suas jornadas individuais (Deivinho e seu sonho de viver em Marte, Eunice e a vivência da sua sexualidade, Wellington e o alcoolismo, Tércia e suas intuições). E é nessa dinâmica de observação do cotidiano daquelas personagens que Gabriel Martins conduz um filme no qual a ternura parece ser a resposta para enfrentar um momento tão difícil no país como o que temos passado nos últimos anos, onde uma geração viu seus planos de futuro desmoronarem pelo desmantelamento das instituições e das condições básicas de vida. No final das contas, aquilo que Wellington responde ao filho diante da incerteza do garoto de realizar o sonho de ser astronauta, &#8220;a gente dá um jeito&#8221; sempre foi o &#8220;manual de sobrevivência&#8221; do brasileiro diante de uma história cíclica de crises morais.</p>
<p>É comum que o cinema, como qualquer produto cultural, contemple no seu espectro discursivo traços da realidade do seu tempo. Assim, não é difícil compreender porque nossa cinematografia nos últimos anos tem sido marcada por tantas obras com tom de denúncia, muitas vezes dominadas pelo pessimismo, o tom mais grave de tragédia instaurada &#8211; só em 2022, tivemos o lançamento de dois longas explosivos nesse sentido, Carro Rei e A Casa de Antiguidades. No entanto, olhando para a mesma conjuntura social, <em><strong>Marte Um</strong></em> opta por oferecer algum tipo de alento ao espectador diante da falta de esperança que nos assombra. Precisamos da crítica enérgica, mas o momento também pede que a gente se abrace, se dê conforto e traga de volta nossa força e a legitimidade de sonhar. <em>Marte Um</em> é o filme que faz isso por nós.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Gabriel Martins</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Cícero Lucas, Carlos Francisco, Camilla Damião</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
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