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	<title>Arquivos 52º Festival du nouveau cinéma de Montreal - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos 52º Festival du nouveau cinéma de Montreal - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 00:12:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Existe uma sensação de não pertencimento geral, que perpassa a vida de um indivíduo na adolescência (dentro da família, da escola, com o próprio corpo etc). É nesta lógica de emoção que se baseia a trama de Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário. Porque, por mais que o sentimento de ausência de encaixe possa habitar o corpo e a alma das pessoas em qualquer idade, existe uma exasperação e uma urgência por fugir das normas, específica deste período da vida. E [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Existe uma sensação de não pertencimento geral, que perpassa a vida de um indivíduo na adolescência (dentro da família, da escola, com o próprio corpo etc). É nesta lógica de emoção que se baseia a trama de <strong><em>Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário</em></strong>. Porque, por mais que o sentimento de ausência de encaixe possa habitar o corpo e a alma das pessoas em qualquer idade, existe uma exasperação e uma urgência por fugir das normas, específica deste período da vida.</p>
<p>E esta sofreguidão misturada com urgência é que baseia os anseios da protagonista Sasha (Sara Montpetit), uma vampira que não quer matar gente e, por isso, se sente melancólica, sozinha, excluída etc. Para reafirmar os sentimentos juvenis da personagem, existe seu visual.</p>
<p>Meio punk, meio emo, Sasha está sempre de preto e sem muitas expressões faciais. A palidez vem do fato dela ser uma vampira, mas o restante da sua família conta com gestos maiores em seus rostos e corpo. Esse distanciamento é paralelado com a conexão que Sasha tem com um humano, Paul (Félix-Antoine Bénard).</p>
<p>A relação é o maior acerto da produção. Visualmente semelhantes, em fisicalidades e falas, o público pode se encantar com o relacionamento dos dois e shippar o casal. Não existem grandes complexidades sendo exploradas por aqui, porém a estrutura do roteiro, na qual Sasha é colocada como excluída e Paul também proporciona esta empatia para com eles e fomenta a “shippagem”.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17442" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1698355504653ad9302b04d_1698355504_3x2_rt.jpg" alt="Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1698355504653ad9302b04d_1698355504_3x2_rt.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1698355504653ad9302b04d_1698355504_3x2_rt-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1698355504653ad9302b04d_1698355504_3x2_rt-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1698355504653ad9302b04d_1698355504_3x2_rt-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Todas estas estratégias de exclusão e ansiedade colocadas na tela funcionam. Há certo prazer em acompanhar a jornada de Sasha e Paul, mas falta uma força maior do roteiro e da direção para que a produção seja melhor. Colocando conflitos com soluções fáceis e repentinas, a intensidade da trama se esvai.</p>
<p>Além disso, o humor do canadense de Quebec não ajuda a refinar o longa, pelo contrário. As piadas das obras da região tendem a parecer aquelas do “tio do pavê”. A construção cômica é tão ingênua e previsível, que quase não há riso para o quem prefere uma comicidade mais elaborada.</p>
<p>O que é triste, porque Vampira procura soa como uma tentativa de trazer uma comédia sombria e contém um texto pueril, deixando-o infantil. Por fim, falta coragem para a realizadora e sua equipe de colocar as figuras dramáticas em posições mais fortes. Há medo e indecisão sobre o rumo de cada papel dentro da história.</p>
<p>Este receio não transforma a protagonista. Talvez, Paul e um pouco a sua família. Sasha permanece a mesma e até mesmo o título não se segura. O que fez <em><strong>Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário</strong></em> ser prazeroso é, principalmente, o talento do elenco. No entanto, o resultado geral entretem. Caso o espectador não espere encontrar algo especial, a sessão será bem sucedida!</p>
<p><strong>Direção:</strong> Ariane Louis-Seize</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Sara Montpetit, Félix-Antoine Bénard, Steve Laplante, Sophie Cadieux, Noémie O’Farrell, Marie Brassard</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/L3u2hBEPlHQ" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Mars Express</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Oct 2023 22:58:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>É curioso observar como Jérémie Périn, em sua primeira direção de longa-metragem, cria planos inteligentes ao ponto de enganchar o público velozmente.  Em um mundo distópico, no qual humanos, robôs e humanos-robôs coexistem,  o espectador consegue se sentir inserido no universo tão rico de informação presente nesta animação, porque, juntamente com a fotografia e a arte, existe na concepção técnica da direção de Mars Express um cuidado em compor quadros que revelam diversas informações sobre aquele universo. Isto porque não [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>É curioso observar como Jérémie Périn, em sua primeira direção de longa-metragem, cria planos inteligentes ao ponto de enganchar o público velozmente.  Em um mundo distópico, no qual humanos, robôs e humanos-robôs coexistem,  o espectador consegue se sentir inserido no universo tão rico de informação presente nesta animação, porque, juntamente com a fotografia e a arte, existe na concepção técnica da direção de <strong><em>Mars Express</em></strong> um cuidado em compor quadros que revelam diversas informações sobre aquele universo.</p>
<p>Isto porque não existe aqui uma necessidade de se valer de diálogos para explicar o que é existe dentro desta realidade ficcional e o que a compõe. Assim, é observável a existência de diversos tipos de máquinas e figuras robóticas, e que algumas parecem humanas, outras animalescas, outras são exatamente o que se conhece sobre robôs. Talvez, o mais interessante neste contexto seja que quando as pessoas morrem, elas podem continuar existindo, através de um corpo cyborg, com consciência humanística, uma espécie de duplicata.</p>
<p>Esta última parte é um tanto mais complicada, porém é gradativamente explicada dentro do enredo e este é um dos maiores ganhos do longa. Apesar de sua rede complexa de criações, com uma quantidade extensa de personagens, conflitos, subplots, sequências de ação e tensão, o roteiro se mantém coeso na maior parte da sessão, sem que a estrutura central se perca para dar explicações ou para dar conta do desenlace da trama e das subtramas.</p>
<p>Esta é uma característica relevante de ser ressaltada porque, muitas vezes, quando uma produção é tão ambiciosa, ela tende a se perder em si mesma. Aqui não existem lacunas para o que é importante para a narrativa. Existe uma abertura de espaço, porém, para rumos interpretativos múltiplos em sua plateia.</p>
<p>Neste sentido, Périn, que escreve ao lado de Laurent Sarfati, entrega um bom resultado geral. De todo modo, é preciso apontar que a riqueza presente em <strong><em>Mars Express</em></strong> faz com que um lamento possa surgir depois de assisti-lo. Com tantas personagens fortes e um ambiente criativo criado, a obra merecia uma duração maior, sendo que seu formato funcionaria mais apropriadamente caso a mesma fosse uma série.</p>
<p>É bem comum que, atualmente, exista a todo momento uma ausência de compreensão de qual é o melhor formato para cada história (longas que poderiam ser curtas, seriados que poderiam ser curtas, longas que deveriam ser minisseries etc). Este fator não compromete o resultado final, porém há aqui uma sensação de desperdício.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17438" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/mars_express_c_everybody_on_deck_2_cut_web.jpg" alt="Mars Express" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/mars_express_c_everybody_on_deck_2_cut_web.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/mars_express_c_everybody_on_deck_2_cut_web-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/mars_express_c_everybody_on_deck_2_cut_web-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/mars_express_c_everybody_on_deck_2_cut_web-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>A trajetória de Carlos Rivera (Daniel Njo Lobé), por exemplo, renderia um outro filme &#8211; suas camadas deveriam, inclusive, ter sido mais exploradas. A parceria dele com a protagonista Aline Ruby (Léa Drucker) geraria bons casos serializados, com investigações de &#8220;Monster of the week&#8221;.</p>
<p>A dinâmica entre os dois é rica, por contar com subtextos, que imprimem marcas do passado de ambos, como o alcoolismo de Aline ou a agressividade de Carlos. O tom dado ao texto por Léa e Daniel fomentam esta ligação entre estes colegas de trabalho, que deixam a impressão de que já resolveram muitos crimes juntos, de forma não tão convencional e que não são fãs de regras.</p>
<p>Neste sentido, há o ponto mais relevante para a execução da animação ser quase completamente satisfatória. Há muita coragem por aqui! Apesar de toda a riqueza da construção de atmosfera e de trazer personagens carismáticos, com profundidade, esta ficção científica não tem medo de se desfazer de tudo que ela mesma fez com que seu público se apagasse.</p>
<p>Não há, como em tantas produção, receio em dispensar personagens, espaços, instituições, certezas. Ninguém está seguro e, além da dosagem de velocidade inteligente, que confere um ritmo equilibrado para o longa, a suspensão mora na dúvida da sobrevivência do status colocado no início da projeção e de todos que fazem parte dele.</p>
<p>Se não fosse a queda qualitativa, no início do terceiro ato, quando algumas situações se tornam repetitivas, postergando desnecessariamente o final do filme, que há pouco tempo para convocar o seu desfecho e que toda uma riqueza de trabalho para criar aquele universo é deixado de lado pelas próprias limitações de um longa-metragem, <em><strong>Mars Express</strong></em> seria perfeito.</p>
<p>Seja por seu trabalho de iluminação, que aumenta o sentido das ações e eleva o que se sabe sobre as personagens, pela mise-en-scène, que prioriza ambientar o espectador e um roteiro que quase nunca deixa a tensão se esvair, este projeto revela um futuro promissor para Périn e sua equipe.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Jérémie Périn</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Léa Drucker, Daniel Njo Lobé, Marie Bouvet</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/LSzSyxHwFjQ" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Rapto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Oct 2023 18:35:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Existiriam várias maneiras de começar esta crítica. Talvez, esta que vos escreve &#8211; e acaba relatando tantas experiências pessoais não solicitadas por vós &#8211; pudesse iniciar a escrita contando como Marco Bellocchio dirigiu um dos filmes mais marcantes da sua adolescência cinéfila: Bom dia, Noite. Um outro sequestro era abordado, em uma outra época, mas Bellocchio é preciso (e até genial), ao criar imagens impactantes e que conseguem entregar uma visão profunda e completa de um enredo. Aqui não é [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<hr />
<p><span style="font-weight: 400;">Existiriam várias maneiras de começar esta crítica. Talvez, esta que vos escreve &#8211; e acaba relatando tantas experiências pessoais não solicitadas por vós &#8211; pudesse iniciar a escrita contando como Marco Bellocchio dirigiu um dos filmes mais marcantes da sua adolescência cinéfila: <em>Bom dia, Noite</em>. Um outro sequestro era abordado, em uma outra época, mas Bellocchio é preciso (e até genial), ao criar imagens impactantes e que conseguem entregar uma visão profunda e completa de um enredo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui não é diferente. Em <strong><em>Rapto</em></strong>, o ano é 1858 e a Igreja Católica domina o mundo, com seus dogmas, regras e impunidades. Neste período, o famoso Papa Pio IX roubava crianças de suas casas, para convertê-las ao cristianismo. O garotinho Edgardo Mortara (Enea Sala), de seis anos, é uma das vítimas do Papa. Judeu, ele é retirado de sua família e nunca mais retorna para morar com eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Baseado em um caso verídico, existem diversos pontos positivos, que tornam este longa-metragem uma obra prima. A começar pelo tom equilibrado. Ainda que existam extensas camadas de melodrama, o uso do gênero dramático se dá de maneira consciente e com a convocação de respiros, que deixam com que esta escolha narrativa eleve a potencialidade dos sentimentos expostos no ecrã. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As emoções afloradas, os gritos, as lágrimas são todas justificáveis dentro da dor de uma família estilhaçada pela vontade arbitrária e cruel do catolicismo ferrenho, do uso desmedido do poder do clero. Assim, o peso colocado em cena é proporcional ao conteúdo da trama. Além disso, a mise-en-scène traduz posições sociais, políticas e as próprias sensações das personagens em <em><strong>Rapto</strong></em>.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17406" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931.jpg" alt="Rapto" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1140931-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As movimentações estão mais presentes nos corpos do elenco do que na própria câmera. Em planos mais estáticos, Bellocchio insere as figuras do clero, por exemplo, centralizadas, com gestuais ligeiros, porém um tanto reduzidos, revelando toda a frieza, cálculo das ações e manipulações de uma casta da sociedade. Já a família de Edgardo, está em desespero e sofreguidão. Assim, eles se deslocam recorrentemente, mas com pesar e gestuais grandes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os seus rostos entram mais em close-up, dando oportunidade do público de investigar e observar lentamente os seus semblantes. Já na direção de arte e fotografia, tem-se um jogo curioso de temperaturas em <em><strong>Rapto</strong></em>. O ciano vem dos Mortara, que vão da serenidade do início da projeção, para a melancolia e o medo. O vermelho, laranja e amarelo estão com os católicos, pois estão encharcados de poder e considerados aqueles que são abençoados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É uma dicotomia bem relevante, pois revela a hipocrisia da aparência e do discurso cristão, que vem há séculos destruindo a mente e a vida das pessoas (na contemporaneidade, os crentes cumprem esse papel, por exemplo). Assim, as sombras se alastram nos quadros dos Mortara, ao passo que, enquanto Pio IX está vivo, a luz irradia sobre a tela, confirmando esta sensação de que nem sempre o que está no lado claro é o melhor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta informação também imprime na história o grau do poder do Papa e do clero, que podem fazer o que bem entendem, à luz do dia, ainda que parte do povo se revolte. Estas tensões vão se elevando durante a exibição, na qual a obviedade da impunidade da igreja, juntamente com a ausência de poder da população criam uma atmosfera angustiante e sufocante.</span></p>
<p>Porque ainda existe o fato de que os Mortara tinham alguma condição de brigar, por isso o caso ficou conhecido e disseminado. E a produção deixa isso nítido em seu discurso, contando como Edgardo não foi o único e como diversas crianças foram arrancadas de seus lares.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17408" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937.jpg" alt="Rapto" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5036937-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, vale destacar a unicidade do elenco do filme, principalmente no trio central: Edgardo, Marianna (a mãe, interpretada por Barbara Ronchi) e Salomone Mortara (o pai, interpretado por Fausto Russo Alesi). Os três possuem carisma, troca de olhares e intenções de texto, que criam uma empatia maior com as personagens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através da construção de papel destes atores, é visível que eles possuem sensibilidade e compreensão do que aconteceu com os Mortara. As pausas, as respirações, os momentos de lágrimas são orgânicos, porque a contracena tem um jogo cênico, que carrega cumplicidade. Eles se olham, se tocam e se aproximam um dos outros com precisão e tônus corporal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desta maneira, <strong><em>Rapto</em> </strong>é conciso em seu roteiro, no que diz respeito à elencar cada fato importante para o conteúdo geral, porém é permeado de impressões sensoriais, que grudam o espectador na sua cadeira. A torcida pelo menino e seus familiares vai até o desfecho da obra, mostrando a força do novo trabalho de Bellocchio e sua equipe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong><em>Rapto</em> </strong>é brilhante, porém deixa um gosto amargo de saber que nada aconteceu com Pio IX, que além de tantas coisas positivas que ele recebeu em vida, este senhor ainda carrega consigo nome de bolo, de estação de metrô em Montreal, é o segundo pontificado mais longo da história depois de São Pedro e foi beatificado em 2000. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Marco Bellocchio</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Enea Sala, Barbara Ronchi, Paolo Pierobon</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/oQAK0yBHQZ8" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Seagrass</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Oct 2023 18:14:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Meredith Hama-Brown (Cosmic) quase chega lá com seu primeiro longa-metragem, Seagrass. Em um drama familiar, centrado em uma família canadense, com raízes japonesas do lado materno, aqui o início é brilhante e deixa uma sensação de que a sessão será promissora. Câmera na mão, exploração de profundidade de campo e trocas de foco, Brown traduz as emoções de suas personagens e aproxima o espectador delas, através de sua direção. É rápida a conexão do público com Judith (Ally Maki), Steve [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Meredith Hama-Brown (<em>Cosmic</em>) quase chega lá com seu primeiro longa-metragem, <strong><em>Seagrass</em></strong>. Em um drama familiar, centrado em uma família canadense, com raízes japonesas do lado materno, aqui o início é brilhante e deixa uma sensação de que a sessão será promissora. Câmera na mão, exploração de profundidade de campo e trocas de foco, Brown traduz as emoções de suas personagens e aproxima o espectador delas, através de sua direção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É rápida a conexão do público com Judith (Ally Maki), Steve (Luke Roberts), Stephanie (Nyha Huang Breitkreuz) e, sobretudo, com a caçula Emmy (Remy Marthaller). Há neles características que nos aproxima deles. O desgaste da vida familiar, a tentativa de pertencimento, o cansaço do cotidiano, as escolhas aleatória dos pais em dissonância, cada um traz consigo detalhes que podem gerar identificações. Além disso, os conflitos do quarteto vão sendo revelados progressivamente.<br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até a metade do segundo ato, é possível observar uma construção inteligente, na qual os olhares e o silêncio dizem mais do que os diálogos e até mesmo criam ambiguidades para as falas, o que complexifica mais as personagens. </span>O ciúme de Stephanie da sua irmã ou os conflitos sobre etnia entre Judith e Steve amarram a trama e criam uma possibilidade de criar uma atmosfera de tensão e até mesmo de uma ambientação de filme de terror.</p>
<p>Os quatro estão em uma ilha, com seus egoísmos e falhas, há um diálogo com o gênero, seja pela personalidade dos papéis principais ou pela própria técnica (decupagem e desenho de som), que criam certa expectativa em quem assiste de algo ruim acontecerá. <span style="font-weight: 400;">Todavia, <strong><em>Seagrass</em> </strong>é um drama familiar do início ao fim e perde por não explorar a estética de suspense/terror, que foi introduzida ali em termos imagéticos e sonoros, porém somente como uma pincelada.<br />
</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17402" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280.jpg" alt="Seagrass" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image-w1280-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, este não é o cerne da questão. O que faz o filme ter sua qualidade reduzida em sua metade é a queda da qualidade do roteiro. Com a inserção de diálogos expositivos, de clichês e saídas fáceis e óbvias, falta coragem a Brown, para seguir com o tom que ela mesma instaurou no princípio da projeção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O conflito principal, e suas ramificações, perde a força. Um exemplo é toda a energia interna de Judith, que parecia estar prestes a explodir, mas ela implode. Os seus medos, necessidades e desejos não são amarrados dentro do enredo, fazendo com que, assim como a maioria das personagens, Judith não passe a transformação que figuras dramáticas costumam vivenciar. Ela sai de um estado e permanece ali.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apenas Stephanie demonstra ter um arco completo. </span>Uma obra não precisa seguir, necessariamente, uma linha aristotélica. Contudo, Brown começa este caminho, colocando na produção as bases de uma história tradicional. Assim, <strong><em>Seagrass</em> </strong>é uma linha crescente, que despenca quando chega em seu topo. A construção do elenco daquela família que se ama, mas sofre problemas diários é enxuta, com momentos bem orgânicos, como na sequência do “showzinho” das irmãs.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os intérpretes imprimem o naturalismo preciso neste contexto e ainda contam com bastante carisma, mesmo que passem a revelar dificuldade para não caírem na artificialidade, depois do segundo ato. As nuances textuais, de decupagem e de atuação estão no longa, porém não se sustentam. É um bom primeiro longa, mas poderia ser muito mais interessante, potente e arriscado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Meredith Hama-Brown</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Ally Maki, Luke Roberts, Nyha Huang Breitkreuz</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/24tk9d8BH9s" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Los Colonos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Oct 2023 13:36:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Europeus, certo? Assassinos, estupradores, sequestradores, ladrões, destruidores do mundo e genocidas que, ainda por cima, pensam deter alguma superioridade, dentro de todos os seus delitos e perversidades. Existem, ainda, os dominados por essa lógica tola de uma inteligência e uma sagacidade europeia que, na verdade, são modelos de intelectualidade deles e enfiados na goela dos colonizados.  Por fim, para resumir o que é a presença do ser europeu no mundo, para que a gente fale de cinema, aqui neste humilde [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Europeus, certo? Assassinos, estupradores, sequestradores, ladrões, destruidores do mundo e genocidas que, ainda por cima, pensam deter alguma superioridade, dentro de todos os seus delitos e perversidades. Existem, ainda, os dominados por essa lógica tola de uma inteligência e uma sagacidade europeia que, na verdade, são modelos de intelectualidade deles e enfiados na goela dos colonizados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, para resumir o que é a presença do ser europeu no mundo, para que a gente fale de cinema, aqui neste humilde texto, há o que veio depois e persiste na Terra de negativo, que vem também deste povo vil do norte global. Racismo, homofobia, transfobia, aquecimento global, capitalismo, patriarcado, catolicismo, crentes, estadunidenses etc etc etc, pense um problema da humanidade e muitas vezes a resposta será “é da Europa”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ufa! Com este desabafo retirado do peito, podemos retornar para a crítica cinematográfica e lembrar porque estamos aqui, certo? <em><strong>Los Colonos</strong></em>, primeiro longa-metragem do chileno Felipe Gálvez Haberle</span> <span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Rapaz</span></i><span style="font-weight: 400;">) traz uma história intensa, banhada de sangue, tristeza e um passado sombrio das colônias da América do Sul, exploradas e destruídas por brancos. A destruição em massa dos indígenas é o foco central aqui.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para realizar o intento de convocar uma trama tão difícil e pesada, na qual existem vilões nítidos, mas sem planificar o seu enredo, Felipe, ao lado de Antonia Girardi (<em>Rapaz</em>) e Mariano Llinás (</span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i><span style="font-weight: 400;">) constroem uma narrativa que complexifica as personagens e suas vivências. Todavia, a maior sacada deste roteiro é que não há uma tentativa de retirar a verdadeira culpa dos homens brancos europeus de caráter duvidoso. Pelo contrário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, a maneira encontrada para desfazer os nós do maniqueísmo em <em><strong>Los Colonos</strong> </em>foi colocar a figura de Segundo (Camilo Arancibia), um homem filho de indígenas com branco e que é chamado de mestiço durante toda a projeção. Ele precisa sobreviver e deseja tentar tomar as rédeas de sua vida. Por isso, o jovem acaba tomando atitudes complicadas durante o caminho, porém é marcante o fato de que o jovem não tem tantas outras opções, não se ele se quisesse ficar vivo.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17367" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5665849.jpg" alt="Los Colonos" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5665849.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5665849-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5665849-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5665849-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentro deste contexto colonial, existe uma criação de atmosfera imprescindível para a imersão na trama. Com musicalidades que mesclam a batida de tambor repentinas, com ruídos diegéticos, o clima de tensão é mantido no longa inteiro. Mesmo que existam respiros, que geram o equilíbrio do filme, a tensão é palpável, principalmente por conta do desenho, edição e mixagem de som. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a precisão dos enquadramentos, que ganham pouquíssimos movimentos de câmera, e colocam as personagens centralizadas ou não a depender de suas hierarquias e locais de poder são fundamentais para o fomento da criação de sentido aqui. Juntamente com isso, chega o granulado, com o uso das temperaturas mais frias. A melancolia, a nostalgia e a perda são tão grandes que ocupam mais tempo no ecrã do que o próprio sangue que escorre da mão dos brancos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O elenco contribui para esta técnica afiada e afinada, com composições corajosas e movimentações corporais que mesmo que sejam estereótipos de personas, são essenciais para a elaboração deste universo, preenchido de ganância, masculinidade tóxica e sede por matança. A ideia de superioridade jamais abandona o enredo e essa composição está nos corpos dos intérpretes calcasianos, que caminham eretos, possuem mais diálogos e ações velozes, frutos de suas trapaças.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desta maneira, <strong><em>Los Colonos</em></strong> é uma obra que trabalha nas singularidades para compor o todo. Cada batida de percussão é única, cada texto sobre a colonização é único, cada palavra preconceituosa sobre os indígenas também, como no discurso da branca filha do maior dizimador de indígenas, que se tornou muito rico por isso. Ela diz, orgulhosa, como salva o “povo selvagem” com recursos que eles mesmos roubaram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A hipocrisia e a crueldade são colocadas explicitamente nas falas das personagens, mas, ao mesmo tempo, com todas essas voltas e enganos que fazem parte do discurso do opressor até os dias de hoje. É no macro e no micro que Felipe constrói sentido e entrega uma obra prima, quase sem defeito algum. Talvez, a escolha de avançar no tempo sete anos faça com que a qualidade geral da produção caia. A premissa inicial se perde um tanto e a sua força também. Ainda assim, este é um filme histórico, em todos os sentidos que esta palavra pode ter.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Felipe Gálvez Haberle</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Camilo Arancibia, Mark Stanley, Sam Spruell</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assista ao trailer!</span></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/BHWqUnp1XYw" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montreal: Omar La Fraise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Oct 2023 20:05:06 +0000</pubDate>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em <strong><em>Omar La Fraise, </em></strong>seu primeiro longa-metragem, Elias Belkeddar (<em>Un jour de mariage</em>) entrega uma dramédia, que capta o espectador pelo carisma das personagens centrais. Ainda que existam tropeços que comprometem demasiadamente o resultado final da obra, aqui é possível mergulhar no universo dos bandidos Omar (Reda Kateb) e Roger (Benoît Magimel) de tal maneira, que o espectador pode sair da sessão satisfeito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Passando-se na Argélia, a primeira coisa que se nota dentro da narrativa é como, infelizmente, brasileiros podem encontrar identificações com os algerianos. Há algo de “rir da própria desgraça” que perpassa a história, que mostra não apenas a inevitabilidade da vida do crime para uma parcela da sociedade, que se vê abandonada pelo descaso do governo, na miséria e na luta pela sobrevivência, mas também na busca constante por encontrar a felicidade dentro do caos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além deste cenário semelhante da vivencia do Brasil, existe a universalidade de um enredo que também trata sobre o amor, seja ele o fraterno ou o romântico. A amizade entre Roger e Omar é o ponto alto do filme, que consegue emocionar e cativar o público através da parceria genuína entre a dupla. O grande mérito disso está na elaboração dos diálogos, mas, principalmente, no trabalho de ator de Kateb e Magimel. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os intérpretes construíram seus papéis com semelhanças e distinções entre os dois bem intensas, o que fomenta a lógica desta conexão entre Roger e Omar, algo que vem da juventude e que é sentido durante toda projeção.  </span><span style="font-weight: 400;">Já no quesito romance, a dinâmica de Samia (Meriem Amiar) e Omar também elevam a potencialidade do longa. Inclusive, é a partir do momento da entrada de Amiar em cena que a trama finalmente deslancha.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17358" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1761997.jpg" alt="Omar La Fraise" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1761997.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1761997-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1761997-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1761997-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando os três estão contracenando, como na sequência da corrida de dromedários, é quando a sessão se torna mais prazerosa. Todavia, é necessário pontuar como <strong><em>Omar La Fraise</em></strong> demora de engatar. Com repetições das interações entre Omar e Roger no mundo do crime, o foco demora de apresentar sua nitidez, prolongando momentos semelhantes e fazendo com que os instantes importantes da vivência das personagens precisem ser convocados rapidamente, porque tempo demais foi gasto anteriormente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Falando em foco, falta ao diretor e ao fotógrafo um pouco mais de noção de geografia da cena. É complicado acompanhar as cenas de ação aqui. Esse é um dos motivos da demora da imersão com o que está sendo colocado na tela também.  Quadros desfocados, enquadrados sem revelar as emoções das personagens, lutas com movimentos de câmera que impedem a compreensão de noção espacial interferem negativamente na ambientação de quem assiste.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Quem socou quem? Qual é a expressão desta garota naquele momento de tensão? Quem é o agente dominante da ação dramática agora? </span><span style="font-weight: 400;">Este tipo de pergunta é constante durante toda a exibição e causam distração constante. Ainda assim, Belkeddar entrega uma direção que carrega algum potencial. <strong><em>Omar La Fraise</em></strong> é tudo menos um produto sem personalidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com um equilíbrio entre crítica social, emoção, comicidade e estabelecimento de empatia pelos sentimentos humanos mais crus (paixão, raiva, medo, instinto de sobrevivência etc), a empatia se estabelece rapidamente entre emissor e receptor, apaziguando os distanciamentos provocados pela tecnicidade ainda imatura.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Elias Belkeddar</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Reda Kateb, Benoît Magimel, Meriem Amiar</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/rZk2VQiFOQI" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal: Dias Perfeitos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Oct 2023 18:47:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Muitas reflexões, sensações e emoções são despertadas em Dias Perfeitos, novo longa-metragem de Wim Wenders (O Sal da Terra). Entre uma construção imagética, que permite uma imersão profunda do espectador, e um roteiro meticuloso – escrito por Wenders, ao lado de Takuma Takasaki (Honokaa bôi) – pensamentos profundos sobre o planeta que habitamos ocupam a mente durante a projeção. A começar por uma pergunta central, que parece ressoar ainda depois do final da sessão. Sendo ela: o que nos torna [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Muitas reflexões, sensações e emoções são despertadas em <em><strong>Dias Perfeitos</strong></em>, novo longa-metragem de Wim Wenders (<em>O Sal da Terra</em>). Entre uma construção imagética, que permite uma imersão profunda do espectador, e um roteiro meticuloso – escrito por Wenders, ao lado de Takuma Takasaki (<em>Honokaa bôi</em>) – pensamentos profundos sobre o planeta que habitamos ocupam a mente durante a projeção. A começar por uma pergunta central, que parece ressoar ainda depois do final da sessão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo ela: o que nos torna visíveis ou invisíveis nesse mundo onde vivemos? Um carro, um emprego, um prêmio, um salário…? As distinções e marcas sociais estão estampadas em nossa sociedade, para todo mundo ver. As castas do capitalismo dividem a população, colocando algumas à margem. Certamente, funcionários que trabalham com serviços de limpeza são constantemente invisibilizados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É como se as pessoas quisessem esquecer que elas produzem sujeira, excrementos, bagunça e fluidos. E quem toma conta desse caos humano produzido há tanto tempo em nosso planeta parece ganhar uma carga de rejeição, que beira a rejeição moral, na qual existem aqueles que desejam retirar o título de humano destes profissionais que, na verdade, cumprem um papel salutar e indispensável para a continuidade dos cotidianos alheios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, somos muito mais do que nossas tarefas remuneradas. Somos embebidos de singularidades, com desejos, sonhos, sentimentos e gostos, que nos transformam todos os dias e nos movem. E é isso que Takasaki e Wenders conseguem passar de forma tão delineada em <strong><em>Dias Perfeitos</em></strong>. Hirayama (Kōji Yakusho) é um homem sagaz, sensível, bondoso, dedicado, organizado, um intelectual, de perspicácia profunda e completa, com um olhar digno para o outro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhar a rotina de Hirayama e como esse seu dia a dia quadrado vai se transformando, a partir dos estímulos que a vida lhe entrega inesperadamente, é intenso e faz os olhos se encherem de lágrimas durante todo o filme. Sim, Hirayama é responsável pela limpeza dos banheiros públicos do Tokyo, gerenciado pela empresa The Tokyo Toilet project. A tensão da sua personalidade versus o cargo que ele ocupa é posto em cena a todo momento.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-17351" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-750x554.png" alt="Dias Perfeitos" width="750" height="554" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-750x554.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-610x450.png 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-770x568.png 770w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256-1400x1033.png 1400w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4472256.png 1463w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A frieza e o desprezo de quem não enxerga aquele senhor como um indivíduo é o mais forte aqui em <em><strong>Dias Perfeitos</strong></em>. A construção de papel de Kōji é essencial aqui para a composição deste cenário repleto de camadas. </span><span style="font-weight: 400;">Os gestos precisos do intérprete, combinados com a decupagm de Wenders, direcionam o público para o que importa na narrativa. Só existem closes ou movimentos de câmara, bem como ações com gestuais mais amplos, em momentos específicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As velocidades mais aceleradas estão nos coadjuvantes, por exemplo. Esta estratégia eleva a força do discurso da obra, que convoca a plateia a fazer uma análise político-social do mundo, mas também uma autoanálise. </span><span style="font-weight: 400;">E é nesse contraste do universo de  Hirayama com os outros ao seu redor, que compreendemos que o protagonista é, em toda sua totalidade. Todavia, quem foi ele no passado é turvo e esta também é uma decisão acertada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A razão para que um homem que parece ter tido uma educação formal de qualidade e com uma família aparentemente estável financeiramente não importa. Quem Hirayama  é no presente, isso que é relevante e que dialoga com a premissa central da produção. </span><span style="font-weight: 400;">Há também muita melancolia dentro da trama. O ciano se espalha na tela e é possível sentir esta pulsação interna da personagem, de forma quase sensorial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele é bondoso, cuidadoso e gentil, mas também triste e solitário. É nesta chave que resta alcançar o que <em><strong>Dias Perfeitos</strong></em> quer imprimir em sua história: quem é esse outro que é posto em uma caixa determinada por classes, por um serviço diário, que pode não definir absolutamente nada da personalidade de alguém. </span><span style="font-weight: 400;">Com todo este contexto, é notável que o longa toca no mais profundo da alma de quem assiste. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele é simples, em uma primeira olhada, porém repleto de níveis de complexidades, o que torna a sua fruição ainda mais prazerosa. É um enredo que fica na memória, que conta com algo que fica ali, preso na mente, dias após  a sua exibição. Ele pode não ter nada de tão novo em termos técnicos ou discursivos, mas é um trabalho rico, precioso, que conecta o espectador com o que há de real a ser vivido, pois os laços que estabelecemos na vida é o que importa no final das contas, não é mesmo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Wim Wenders</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Kōji Yakusho, Tokio Emoto, Sayuri Ishikawa</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/HTgWYojq-z8" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montreal: Levante </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2023 22:08:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Grace Passô]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entre repetições discursivas, narrativas e imagéticas, a diretora Lillah Halla parece tentar imprimir sua marca autoral e fazer certos debates políticos avançarem. Há em seu intento sucessos e falhas. De um lado, o público se depara com uma história já muito conhecida em outros títulos voltados para jovens: a gravidez na adolescência. Este é um grande medo das mulheres (com toda razão) e que aparece aqui como em diversas outras obras.  Para tratar do tema, o espectador também se depara [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Entre repetições discursivas, narrativas e imagéticas, a diretora Lillah Halla parece tentar imprimir sua marca autoral e fazer certos debates políticos avançarem. Há em seu intento sucessos e falhas. De um lado, o público se depara com uma história já muito conhecida em outros títulos voltados para jovens: a gravidez na adolescência. Este é um grande medo das mulheres (com toda razão) e que aparece aqui como em diversas outras obras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para tratar do tema, o espectador também se depara com uma estratégia também já tão conhecida e repetida que é a de criar uma torcida para os “underdogs”. É como se <em>Barrados no Baile</em> (1990) encontrasse <em>Nós Somos os Campeões</em> (1992) e fosse adicionada a esta mistura uma pitada de 2023, com grupos minoritários em pauta e o voilá: <strong><em>Levante</em></strong>. Todavia, estes detalhes não são algo negativo, que vão exatamente comprometer o resultado total do longa a ponto de torná-lo ruim.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de possuir uma trama óbvia, na qual sequência após sequência é fácil saber o que irá acontecer em seguida, existem elementos que tornam a sessão prazerosa. A questão da representação e da representatividade é feita de uma forma poderosa, cuidadosa e respeitosa. A noção de mulheridade plural está viva e transborda na tela. Um dos pontos altos desta lógica é a relação das integrantes do time de vôlei, do qual a protagonista Sofia (Ayomi Domenica Dias) faz parte, com a treinadora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiramente, a <em>coach</em> Sol é ninguém mais ninguém menos que Grace Passô (</span><i><span style="font-weight: 400;">República</span></i><span style="font-weight: 400;">), considerada uma grande artista brasileira. A dinâmica criada pela intérprete com as outras atrizes faz com que esta lógica de <em>underdogs</em> se eleve e fique até esquecido o quão isto é clichê. A vontade de que o time vença vai crescendo durante a projeção e, juntamente com as injustiças que Sofia sofre, a sensação de empatia para com ela vai se elevando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através da aproximação com a personagem central, com seu sofrimento e sua história, é possível estabelecer uma conexão com a trama. São as fragilidades de Sofia e os absurdos que ela tem que viver, em tão pouca idade, que criam um nó na garganta, que podem grudar a plateia na cadeira. É revoltante demais pensar que a sociedade é, majoritariamente, conservadora, heterornornativa, de pensamento colonial branco, hipócrita, servo de um patriarcado cruel e despudorado.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17310" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913.jpg" alt="Levante" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2838913-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, a farsa de manutenção da vida extrapola os limites do real e em <strong><em>Levante</em> </strong>isto não é diferente. </span><span style="font-weight: 400;">O que importa para essa gente, dita protetora da vida, é regular e se apoderar dos destinos das mulheres, sobretudo quando se tratam de mulheres com menos dinheiro, mulheres pretas, mulheres que usualmente são desrespeitadas e vilipendiadas no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este desespero sufocante de querer escapar desta condenação a uma maternidade indesejada é o foco central do filme e ele é feliz ao conseguir passar todo o debate que deseja, de forma enxuta e direta. </span><span style="font-weight: 400;">O que incomoda na produção, na verdade, é um desajuste técnico, que poderia ser resolvido com algumas afinações. A retirada de algumas obviedades do roteiro, como nas questões do campeonato de vôlei (expulsão de Sofia do time e seu retorno para as quadras) ou na própria maneira de lidar com a imagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da diretora de fotografia, Wilssa Esser (<em>Temporada</em>), ser brilhante, aqui, ela comete uns deslizes que comprometem qualidade de seu trabalho. </span><span style="font-weight: 400;">Wilssa e Lillah poderiam ter pensado melhor na composição decupagem x luz. Em momentos chaves do filme não é possível enxergar as emoções das personagens, seja por questões de enquadramentos ou de iluminação. É incômodo de acompanhar a estrutura do trabalho da dupla, porque é como se fosse quase negado acompanhar o aprofundamento dos sentimentos das figuras dramáticas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As sombras não compõem, muito menos os escuros intensos. Apesar de tudo isso</span><span style="font-weight: 400;">, <strong><em>Levante</em> </strong>tem carisma e potencial. Ao abordar temas delicados, como gravidez na adolescência e aborto, há uma leveza ao retratar uma juventude liberta e consciente. No entanto, ao mesmo tempo, falta para a equipe uma maturidade maior para que a entrega geral fosse menos previsível e cansativa. Com atores esforçado, por exemplo, existe uma fé cênica que amacia o estado verde da parte jovem do elenco.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, este é um filme que vale a pena acompanhar, mesmo com seus tropeços. Poderia existir aqui um trato melhor do enredo, da imagem, das composições individuais sendo pensadas no contexto amplo da história. Mas, no final do dia, <strong><em>Levante</em> </strong>está correndo pelos festivais, ganhou o prêmio Fipresci em Cannes (Parallel Sections) e tudo isso é porque ele carrega consigo uma energia vibrante, um recado de resistência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Lillah Halla</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Ayomi Domenica, Loro Bardot, Grace Passô</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/Rsr8pvv4E-w" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>52º Festival du Nouveau Cinéma de Montreal: La Passion de Dodin Bouffant</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Oct 2023 19:31:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Festivais]]></category>
		<category><![CDATA[52º Festival du nouveau cinéma de Montreal]]></category>
		<category><![CDATA[Anh Hung Tran]]></category>
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		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Festival du nouveau cinéma de Montreal]]></category>
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		<category><![CDATA[Jean-Marc Roulot]]></category>
		<category><![CDATA[Juliette Binoche]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em La Passion de Dodin Bouffant é possível ver todo o trabalho de um cineasta esforçado em trazer sua estilística para a narrativa, sendo explosivo ao criar imagens que buscam ser sutis, porém apaixonadas. Todavia, entre o seu roteiro e a sua direção, Anh Hung Tran (Amor Eterno) revela uma espécie de abismo, de complexidade contraditória. De um lado, uma dramaturgia rebuscada, progressiva, que imerge o seu espectador com cuidado, trazendo as informações e as conexões entre as personagem gradativamente. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em <strong><em>La Passion de Dodin Bouffant</em></strong> é possível ver todo o trabalho de um cineasta esforçado em trazer sua estilística para a narrativa, sendo explosivo ao criar imagens que buscam ser sutis, porém apaixonadas. Todavia, entre o seu roteiro e a sua direção, Anh Hung Tran (<em>Amor Eterno</em>) revela uma espécie de abismo, de complexidade contraditória. De um lado, uma dramaturgia rebuscada, progressiva, que imerge o seu espectador com cuidado, trazendo as informações e as conexões entre as personagem gradativamente. Do outro, uma decupagem quase desesperada e sufocante.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É difícil criticar negativamente esta obra de Tran, porque é notável a razão de suas escolhas para cada sequência do seu novo longa-metragem. No entanto, ainda que sejam ousadas e criativas as suas estratégias, elas tornam a sessão um tanto exaustiva. A vontade de revelar a movimentação de Dodin e Eugénie dentro da cozinha, por exemplo, poderia ser resolvida pela mise-en-scène. Todavia, Tran insiste em convocar diversas pans, múltiplos giros de câmera, que podem criar mais distanciamento das ações do que aproximação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É inegável que Tran é um artista que entende sobre a técnica cinematográfica. A grande questão aqui é a sua vontade de mostrar este fator, pois isso soa demasiadamente pretensioso e o afasta das suas próprias escolhas em relação ao enredo. É por isso que por mais que haja uma história de amor impactante e que Binoche (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-quem-voce-pensa-que-sou-festival-varilux-de-cinema-frances/"><em>Quem Você Pensa que Sou</em></a>) e Magimel (<a href="https://coisadecinefilo.com.br/critica-amantes/"><em>Amantes</em></a>) tenham um jogo de cena potente e intenso, no qual os intérpretes jogam com os silêncios e os olhares, tudo se perde na movimentação eufórica da câmera. Talvez, a palavra euforia seja o melhor termo para descrever o longa, tanto para o mal quanto para o bem. Porque é esta emoção transbordante que circunda a projeção inteira.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-17273" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/0178099.jpg" alt="La Passion de Dodin Bouffant" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/0178099.jpg 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/0178099-360x240.jpg 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/0178099-610x407.jpg 610w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2023/10/0178099-720x480.jpg 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em termos positivos, é observável a composição do desenho de som da produção. Todos os ruídos fomentam as sensações expostas na tela imageticamente. Há aqui um foco: a paixão pela gastronomia. Os sons criam esta energia de amor carnal, sexual (ou sensual), pelo ato de cozinhar e se alimentar, que elevam a compreensão deste sentimento vivido pelas personagens. C</span><span style="font-weight: 400;">ada “barulho” da diegese cria um significado maior e mais profundo desta dinâmica que está sendo mostrada. </span>Neste sentido, o trabalho da fotografia também é destacável em termos de iluminação. O uso da luz neste filme não pode ser descrita por nenhum outro adjetivo que não “impressionante”.</p>
<p>A forma como as tonalidades e luzes combinam com as temperaturas emocionais das personagens, do calor da cozinha e do afeto pela culinária torna um tanto mais prazerosa a fruição, suavizando, inclusive, o ímpeto de Tran em imprimir tanto deslocamento de câmera. Há ainda o fato de que esta tonalidade presente em quase toda a obra se esvai nos momentos de intimidade de Eugénie e Dodin, quando há um espalhamento de ciano pelo ecrã, algo quase melancólico e de despedida, que se firma e se concretiza em seu final.</p>
<p>É interessante, inclusive, notar o contraponto, tanto na luz quanto no som, nos momentos de tensão sexual direta, que possui silêncios longos, sombras, menor irradiação de luminosidade com aqueles criados pelos momentos de criação e degustação dos alimentos, que possuem a energia e a estética opostas. Desta maneira, <em><strong>La Passion de Dodin Bouffant</strong></em> é dual qualitativamente. Há uma elaboração técnica e um enamoramento transbordante – pela comida ou por Eugénie? Aí, fica para quem assiste refletir –, que encanta e cativa. Ao mesmo tempo, são tantos desejos visuais prontos para criar surpresa e deslumbramento no espectador, que 2h25 de duração ficam difíceis de aguentar. Para os mais tenazes, o ingresso vale pela experiência de acompanhar o trabalho de Binoche e Magimel e de analisar a técnica visceral (mesmo que exagerada) de Tran.</p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Direção:</strong> Anh Hung Tran</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Elenco:</strong> Benoît Magimel, Juliette Binoche, Jean-Marc Roulot</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="The Pot-au-Feu / La Passion de Dodin Bouffant (2023) - Trailer (English Subs)" width="1170" height="658" src="https://www.youtube.com/embed/MKRbTTtoLBU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p>O post <a href="https://coisadecinefilo.com.br/52o-festival-du-nouveau-cinema-de-montreal-la-passion-de-dodin-bouffant/">52º Festival du Nouveau Cinéma de Montreal: La Passion de Dodin Bouffant</a> apareceu primeiro em <a href="https://coisadecinefilo.com.br">Coisa de Cinéfilo</a>.</p>
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