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	<title>Arquivos 39º Festival Internacional de Guadalajara - Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Arquivos 39º Festival Internacional de Guadalajara - Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>39º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara: Arillo de Hombre Muerto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jul 2024 02:58:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>É quase impossível que uma produção audiovisual consiga criar suspensão ou conexão com o público, se não há uma elaboração de contexto relacional entre protagonista e plateia. Ainda que o papel principal seja permeado de incertezas, impurezas, desvios comportamentais, este diálogo com quem assiste precisa ser esabelecido. Esta é uma aposta certeira do roteiro e da direção de Alejandro Gerber Bicecci (Vaho), desde o início da projeção de Arillo de Hombre Muerto. Dalia (Adriana Paz) é uma mulher palpável, de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>É quase impossível que uma produção audiovisual consiga criar suspensão ou conexão com o público, se não há uma elaboração de contexto relacional entre protagonista e plateia. Ainda que o papel principal seja permeado de incertezas, impurezas, desvios comportamentais, este diálogo com quem assiste precisa ser esabelecido. Esta é uma aposta certeira do roteiro e da direção de Alejandro Gerber Bicecci (Vaho), desde o início da projeção de <strong><em>Arillo de Hombre Muerto</em></strong>. Dalia (Adriana Paz) é uma mulher palpável, de carne e osso, mãe e esposa, tem um amante e trabalha no metrô.</p>
<p>Uma pessoa comum, a Dalia, porém que demonstra um olhar generoso e cuidadoso com quem está ao seu redor. É assim que o longa-metragem <strong><em>Arillo de Hombre Muerto</em></strong> se inicia, revelando toda esta humanidade de Dalia para o espectador. Com marcas visuais e discursivas pontuais &#8211; como vestimentas, os objetos de cena escolhidos para serem os da decoração da casa dela, o penteado que usa ou no trabalho que realiza -, é sabido também com muito pouco qual a classe econômica e social dela.</p>
<p>Há também no roteiro uma progressão na construção da reviravolta na vida de Dalia que, mesmo que seja repentina dentro da trama, é trabalhada com gradações dentro do enredo. Assim, o desaparecimento de seu marido é colocado em cena de maneira suave. Não há um tom de despero imediato, como poderia acontecer em um suspense hollywoodiano. Há uma observação atenta de Dalia que, ao mesmo tempo que procura ajuda de insituições oficiais, tenta investigar o caso sozinha.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18484" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-3-2.png" alt="Arillo de Hombre Muerto" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-3-2.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-3-2-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-3-2-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>A utilização de mais planos médiosem <strong><em>Arillo de Hombre Muerto</em></strong> joga com a dúvida sobre os reais sentimentos de Dalia, evocando uma complexidade para a sua personagem. Entre desespero, alívio e culpa, ela é jogada em um universo desconhecido de luta e exposição, que a colocam em um dado momento em uma tonalidade vocal e uma tensão corporal mais intensa e elevada, chegando a inserir pinceladas de melodrama na história. É a partir deste crescente que o público pode até mesmo se valer de pistas do gênero para ler o longa com mais habilidade.</p>
<p>Os traços melodramáticos estão ali: traições, complôs, o preto e branco da imagem (no caso do cinema), o sumiço do esposo traído &#8211; que pode ou não ter sofrido algo grave ou simplesmente ter fugido. Ainda assim, Bicecci põe elementos de filmes criminais e tem, até mesmo, algumas referências de cinema noir, imageticamente falando. Sombras, foque/desfoque e dubiedades das falas dentro dos diálogos. Não há como saber quem fala ou não a verdade para Dalia.</p>
<p>Nestes sentidos, <strong><em>Arillo de Hombre Muerto</em></strong> é consciente sobre o que deseja contar e como. De certo, a utilização da nitidez e tempo de tela do rosto de Dalia poderiam ser repensados para que este relacionamento da audiência com ela se ampliasse e fosse possível compreender mais profundamente quem é esta mulher, central para a narrativa. De todo modo, essa lacuna de quadros com investigações maiores em relação à Dalia não compromete a qualidade geral de Arillo. Esta é uma sessão que envolve e gera uma curiosidade em acompanhar o seu desenvolvimento e desfecho.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Alejandro Gerber Bicecci</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Adriana Paz, Noé Hernández, Gina Morett</p>
<p><strong>Assista ao trailer!</strong></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/XeGFduz_DDU?si=M1NzrEvACtbR38yU" width="750" height="500" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"><span data-mce-type="bookmark" style="display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;" class="mce_SELRES_start">﻿</span></iframe></p>
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		<title>39º Festival Internacional de Cinema Guadalajara: Concierto para Otras Manos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jul 2024 20:58:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Visual e discursivamente, o público vai se adentrando no enredo de Concierto para Otras Manos gradativamente. Contando a vida de David González, filho do célebre pianista mexicano, José Luís González, o documentário joga com o estado de crença do espectador, podendo criar sentidos múltiplos narrativos, a partir da concepção de mundo de cada pessoa da plateia. Assim, o que é escutado nos primeiros minutos de projeção é que David é um rapaz jovem, que gosta de comer besteiras e é [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Visual e discursivamente, o público vai se adentrando no enredo de <em><strong>Concierto para Otras Manos</strong></em> gradativamente. Contando a vida de David González, filho do célebre pianista mexicano, José Luís González, o documentário joga com o estado de crença do espectador, podendo criar sentidos múltiplos narrativos, a partir da concepção de mundo de cada pessoa da plateia.</p>
<p>Assim, o que é escutado nos primeiros minutos de projeção é que David é um rapaz jovem, que gosta de comer besteiras e é um tanto nerd para a cultura pop. Imageticamente, é possível ver que ele também é uma pessoa com deficiência.</p>
<p>Isto porque a câmera acompanha o seu corpo, com planos que vão do detalhe ao geral, como se o diretor quisesse mostrar David em sua totalidade física. Estratégia entrega a interpretação para que assiste, deixando a construção de imaginário sobre a deficiência de David para a visão de mundo do público. Pelo menos, inicialmente.</p>
<p>Progressivamente, é revelado que os sonhos de David não foram impedidos por sua condição física. Ele seguiu a profissão que desejava. Ainda assim, não há uma romantização sobre a jornada de uma PCD. Pelo contrário, primeiramente, é salientado que a sua família duvidou, diversas vezes, que o menino iria ter uma vida leve e prazerosa.</p>
<p>Os seus parentes não tinham certeza nem ao menos que ele sobreviveria. Todavia, eles fugiram do padrão e arriscaram inserir David no mundo da música, procurando encontrar a forma dele tocar, a maneira dele e não a normativa. Por fim, o discurso de <em><strong>Concierto para Otras Manos</strong></em> não foge da responsabilidade de apontar privilégios.</p>
<p>O pai do protagonista é famoso no mundo musical, muitos dos parentes dele trabalham na área e ele possui recursos financeiros para tratamentos, viagens e recursos que lhe entregam todos os suportes possíveis para que ele se integre ao mundo — sem negar quem é ou criar uma ideia errônea do que é “normal”.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18473" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-2.png" alt="" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-2.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-2-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/07/image-1-2-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>Com esta lógica de imersão, a trama avança e passa a analisar também a relação de David, José e o piano. Então, os enquadramentos são mais abertos, a diegese ganha cada vez mais sonoridades melódicas tocadas por eles (juntos ou separados) e as reflexões sobre a dinâmica da dupla é colocada em foco.</p>
<p>Contudo, essa mudança de rumo ocorre sem esquecer na decupagem e na luz a proposta inicial: David é o centro de tudo. David e de as suas mãos. Mãos “mágicas”, que encontraram uma maneira distinta de tocar o instrumento tão amado por ele.</p>
<p>Assim, tanto de observação individual de David, do relacionamento dele com o pai, com a família e com a música, quanto nas seleções de quadros e iluminação, <em><strong>Concierto para Otras Manos</strong></em> é bem sucedido. Um exemplo de luz é usar mais sombras nos instantes de intimidade e vice-versa.</p>
<p>Essas escolhas são bem sutis, o que deixa a impressão de que a equipe queria mesmo era dar destaque as suas personagens, porém com consciência. Afinal, a produção é um produto audiovisual. Neste sentido, as sequências finais da orquestra são cansativas e reduzem um tanto a qualidade geral da obra.</p>
<p>Faltou amarrar a jornada de David. Ainda que seja emocionante ver ele tocando ao lado de José, a sequência se prolonga demais e quem assiste não tem retorno sobre as últimas afirmações das personagens.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Ernesto González Díaz</p>
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		<title>39º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara: Tratado de Invisibilidad</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Jun 2024 22:54:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Existem muitas camadas inseridas em Tratado de Invisibilidad, documentário de Luciana Kaplan. Neste longa-metragem é possível encontrar algo raro no cinema, que é o equilíbrio perfeito entre qualidade discursiva e técnica. É comum que documentaristas foquem demasiadamente em seus temas e se valham, unicamente, de boas personagens e histórias. Todavia, a criatividade e as ferramentas cinematográficas são deixadas de lado. Algumas vezes, cineastas se inspiram e convocam recursos plurais do audiovisual, mas não elaboram a investigação de uma trama e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Existem muitas camadas inseridas em </span><i><span style="font-weight: 400;"><strong>Tratado de Invisibilidad</strong>,</span></i><span style="font-weight: 400;"> documentário de Luciana Kaplan. Neste longa-metragem é possível encontrar algo raro no cinema, que é o equilíbrio perfeito entre qualidade discursiva e técnica. É comum que documentaristas foquem demasiadamente em seus temas e se valham, unicamente, de boas personagens e histórias. Todavia, a criatividade e as ferramentas cinematográficas são deixadas de lado. Algumas vezes, cineastas se inspiram e convocam recursos plurais do audiovisual, mas não elaboram a investigação de uma trama e do que está sendo contado em sua obra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, Kaplan revela a força de seu trabalho, emprestando um olhar poético para uma realidade dura das profissionais de limpeza no México. A humanidade é posta em cena e o público se depara com a possibilidade de proporcionar uma escuta atenta para aquelas que são constantemente invisibilizadas. Visualmente, há a criação de um paralelo imagético, que põe estas mulheres centralizadas, em planos mais fechados, nos momentos de entrevistas. Já quando o espectador acompanha as suas rotinas de labor, elas são vistas no canto da tela, em quadros mais abertos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo, o desenho e a mixagem de som – feitas por Lena Esquenazi e Antonio Porem Pires, respectivamente – fomentam a instalação da atmosfera do filme, através de um jogo sonoro diegético e extradiegético. Os ruídos da cidade, do serviço de limpeza, da ventania que carrega o lixo, junta-se à música original de Alejandro Castaños e às sonoridades suaves, que combinam com esta argumentação do doc de que, de um lado, há a sociedade, que exclui estas profissionais, negando-lhes direitos básicos de trabalho, que não as olha no olho, não as agradecem, sequer lhes cumprimentam, por algo tão necessário, árduo e fundamental para todos, que é a limpeza – dos metrôs, aeroportos, cinemas, da rua, de todo e qualquer lugar público.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É assim que a equipe do longa imprime esse cuidado com suas personagens, progressivamente. Quanto mais a trama avança, mais estas mulheres são protegidas pelo discurso da obra. Discurso esse que deflagra o descaso do governo do México para com estas funcionárias e de todo um sistema corrupto, pérfido e irresponsável de empresas terceirizadas. É neste local de poder que reside a verdadeira sujeira do país. Quanto mais o público as acompanha limpando, mais pensamentos como esse são formados. As mulheres limpam e organizam sem parar, enquanto aqueles que as ferem e agem de forma dolosa, sujam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E é na junção de elementos visuais com sonoros, que as reflexões e impactos são trazidos em <strong><em>Tratado de Invisibilidad</em></strong>. Contudo, sempre nesta dinâmica de busca por um equilíbrio entre os dois, mesmo que haja força em ambos. Os relatos mais intensos são misturados com instantes de observação destas mulheres e musicalmente são postas melodias lentas, suaves e melancólicas. Um exemplo significativo é quando a plateia escuta a trajetória de Aurora. A senhora conta sobre agressões verbais, enquanto realiza a limpeza da cidade. Paralelo a isso, é possível ver como as pessoas ao seu redor ignoram a sua presença e ela precisa gritar “licença”, para que abram espaço, enquanto Aurora carrega uma sacola de lixo pesada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para ampliar a sensação de dor e desespero da situação, a produção investe em utilizar fotografias, com uma granulação alta e alguns borrões. Esta estratégia pode ser traduzida na ideia de uma distorção do real que, muitas vezes, é mais absurda do que a fantasia. Diversas pessoas cercam Aurora, porém ela parece sozinha, desprotegida e desrespeitada, como se fosse intocável, por conta de sua profissão. Estas imagens e as seleções estéticas mostram uma profundidade da compreensão de Kaplan e sua equipe no que estão contando, de fato.</span></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18405" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-3-4.png" alt="Tratado de Invisibilidad" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-3-4.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-3-4-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-3-4-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse zelo também é colocado quando são escolhidas atrizes para falar o relato de Claudia, funcionária do metrô, que se encontra em estado completo de vulnerabilidade. Com uma rotina de assédios de todos os tipos e um trabalho insalubre, a mesma teme ser punida pela empresa terceirizada, contratada pelo governo para atuar no serviço de limpeza dos metrôs. Ainda que sejam intérpretes, as suas vozes permanecem no tom de todas as outras entrevistadas, bem como a decupagem é semelhante. Este também é um ponto alto dentro das escolhas do documentário, porque reafirma o estado de consciência do processo criativo da direção e do roteiro do filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse olhar apurado para o humano, para os contextos sociais e políticos do mundo e para o cinema é profundo em <strong><em>Tratado de Invisibilidad</em></strong> esta perspectiva complexa de estruturas – sejam elas da sociedade ou do audiovisual – também se apresentam na trama, que vai enredando em que assiste nas vidas destas mulheres e nos dramas que elas vivem diariamente. No início da projeção, por exemplo, observa-se uma sala de cinema sendo limpa. Há ali uma dose de ironia, porque, provavelmente, o espaço que está exibindo o doc passou por esse processo, antes da sessão começar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo, é como se aquela ação fosse ritualística, uma higienização material sendo posta em prática, para que o mental do público acompanhe aquele ato. A leveza ainda está presente nas primeiras sequências. No entanto, a cada conversa com uma entrevistada, e em seus retornos para o centro do enredo, o peso cresce e a argumentação central fica cada vez mais intensa. Há um clímax exposto, que é o momento no qual as manifestações contra a opressão e falta cumprimento das leis da empresa terceirizada de limpeza do metrô é vista. Em seguida, uma finalização da lógica discursiva inserida no filme conecta todas as histórias colocadas em cena. Assim, é perceptível a noção de roteiro de cinema que Luciana Kaplan possui. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é fácil encontrar documentários com esta compreensão de escrita cinematográfica documental, mas aqui, nesta produção, este é um dos pontos qualitativos mais altos. São por estes motivos que o longa-metragem é uma grande realização para o cinema mexicano – quiçá mundial. Além de toda a sua técnica apurada, o seu tema é urgente e necessário. Amarrando a lógica de que arte pode (e deve) denunciar, porém não esquecendo que é um produto artístico, Luciana Kaplan emociona, impacta e cria um importante documento para se contar a história contemporânea das trabalhadoras de limpeza de seu país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, Kaplan conta com um riquíssimo time de personagens em <strong><em>Tratado de Invisibilidad</em></strong>, que serão listadas aqui, para tentar, de alguma maneira, encerrar este texto inspirada nas ações do próprio filme analisado, e reduzir um pouco da invisibilidade delas (e dele):</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Teresa Salinas Ortega</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Elena Ordoñez Mendez</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Aurea Salgado</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Gregoria Martínez</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Laura Espinoza</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Rosalba Ramírez</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Martha Aurora Domínguez</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Juan Carlos Díaz Arias</span></li>
</ul>
<p><strong>Direção:</strong> Luciana Kaplan</p>
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		<title>39º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara: Corina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Jun 2024 22:45:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Apostar em personagens tímidas, com experiências e estilo de vida peculiares, de certo, tornou-se uma recorrência no cinema mundial. Corina, longa-metragem de Urzula Barba, segue esta lógica. Aqui, o público acompanha uma jovem sonhadora e sensível, que exala uma vibe Amélie Poulain mexicana. No entanto, apesar de apresentar uma dinâmica bastante conhecida por cinéfilos, há algo de encantador no filme. Primeiramente, Corina é uma personagem carismática, o que cria de pronto uma conexão da plateia com a protagonista. Um dos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Apostar em personagens tímidas, com experiências e estilo de vida peculiares, de certo, tornou-se uma recorrência no cinema mundial. <em><strong>Corina</strong></em>, longa-metragem de Urzula Barba, segue esta lógica. Aqui, o público acompanha uma jovem sonhadora e sensível, que exala uma vibe Amélie Poulain mexicana.</p>
<p>No entanto, apesar de apresentar uma dinâmica bastante conhecida por cinéfilos, há algo de encantador no filme. Primeiramente, Corina é uma personagem carismática, o que cria de pronto uma conexão da plateia com a protagonista. Um dos grandes méritos desta qualidade é o trabalho da atriz Naian González Norvind.</p>
<p>Através de micro movimentos, Naian cria a sua Corina tímida e retraída. Todavia, ao mesmo tempo, a intérprete imprime no olhar toda acidez, crítica e visão de mundo em seu papel. Esta se torna, assim, uma personagem complexa e cheia de camadas. Mas, esta característica também está presente no roteiro, também de Urzula.</p>
<p>As ações de Corina são contraditórias ao seu discurso e, por isso mesmo, a sua pluralidade é trabalhada. A jovem, ainda que cheia de traumas e resistente a sair da sua suposta paralisia, ganha vida e movimentação dramática (no sentido de dramaturgia), pois está em constante ação física.</p>
<p>Há, então, uma criação de universo dicotômico aqui. Timidez X coragem, gestos contidos X aceleração corporal, retração X observação atenta e ativa. São nestes paralelos que o mundo “corinesco” instiga e prende a atenção. Ainda assim, não há nada de muito novo aqui e a trama será óbvio.</p>
<p>O que a plateia precisa saber é que os acontecimentos do enredo serão previsíveis, desde os primeiros minutos de exibição. A grande questão do longa é acompanhar o “como”. Como <em><strong>Corina </strong></em>passa a estabelecer relações íntimas e pessoais, levando-a ter o reconhecimento que almeja.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18400" src="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-1-8.png" alt="Corina" width="750" height="500" srcset="https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-1-8.png 750w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-1-8-360x240.png 360w, https://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image-1-8-720x480.png 720w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>A forma como Corina é sonhadora e cuidadosa com o que a cerca, transforma quem a acompanha em sua trajetória. Essa lógica poética e charmosa de produções conectadas com figuras fofas e inspiradoras, é uma boa pedida para finais de semana, por exemplo.</p>
<p>Porque, mesmo que seja uma obra ingênua, o resultado geral é de certa qualidade. A direção é tradicional, mas consciente. Há muito de plano/contra-plano, closes para elevar o potencial de emocionar os espectadores e pouca movimentação de câmera. Contudo, a decupagem dialoga com a narrativa.</p>
<p>Os efeitos e movimentos de câmera aparecem para pontuar emoções específicas das personagens, como quando o pai de Corina morre; ou quando ela precisa sair para trabalhar, deixando o conforto e a segurança do seu lar; ou, ainda, quando ela descobre que seu roteiro foi parar na empresa que trabalha.</p>
<p>Desta maneira, <em><strong>Corina </strong></em>é um filme que não desagrada. Não é uma produção que vai gerar emoções fortes, como paixão ou ódio. O longa tem atores que criam de forma correta, há fé cênica e organicidade &#8211; com poucas afetações, em alguns momentos, de alguns coadjuvantes -, o roteiro é redondo e cumpre a jornada clássica do herói, a direção opera a favor da história, bem como a montagem e a música incidental também.</p>
<p>A direção de arte talvez seja o que mais se sobressai dentro de todo este contexto. Figurino, cenografia, maquiagem e os objetos de cena criam mais um caminho narrativo para Corina. Os tons pastéis ficam lentamente mais vivos. A fotografia contribui para essa sensação, deixando que as temperaturas mais quente ganhem espaço na tela.</p>
<p>Então, existem preciosidades nesta obra ok e ela ser apenas ok não faz mal algum. Pelo menos, a obra não parece pretensiosa em sua estética, apesar de tentar demais ser descolada e inventiva em termos de trama.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Urzula Barba</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Naian González Norvind, Cristo Fernández, Carolina Politi</p>
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		<title>39º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara: Después</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enoe Lopes Pontes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Jun 2024 20:36:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O luto não é uma experiência linear, tampouco algo que se supera. Neste sentido, a premissa estética e discursiva de Después faz sentido e é bem-vinda. Dirigido por Sofía Gómez-Córdova, o longa-metragem traz a relação de uma mãe, Carmem (Ludwika Paleta), com seu filho, Jorge (Nicolás Haza), e a sua perda com a morte prematura dele. A temporalidade para revelar o passado de Carmem, a relação que a mesma estabeleceu com o marido e seu amor pelo filho é de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O luto não é uma experiência linear, tampouco algo que se supera. Neste sentido, a premissa estética e discursiva de <strong><em>Después</em> </strong>faz sentido e é bem-vinda. Dirigido por Sofía Gómez-Córdova, o longa-metragem traz a relação de uma mãe, Carmem (Ludwika Paleta), com seu filho, Jorge (Nicolás Haza), e a sua perda com a morte prematura dele.</p>
<p>A temporalidade para revelar o passado de Carmem, a relação que a mesma estabeleceu com o marido e seu amor pelo filho é de idas e vindas. A ideia em si não é maléfica, porém a execução é dolorosa. Primeiramente, através da direção, fotografia e música incidental, o espectador já saberá, nos primeiros segundos da exibição, que Jorge não sobreviverá.</p>
<p>Caso a maneira como sua partida fosse feita, esse dado seria suavizado. No entanto, novamente, escolhas técnicas imprimem um desejo de surpresa pelo acontecimento. Mas, não há impacto, porque todos os signos do luto materno já estavam postos, tanto imageticamente quanto nos diálogos.</p>
<p>Jorge é posto como fofo e dedicado à mãe de forma demasiada. Nas recordações de sua infância, músicas melancólicas invadem o extra-diegético e a temperatura sépia clara fomenta ainda mais a construção da perda. Nesta lógica, ainda é possível notar a ausência de uma elaboração da própria trama.</p>
<p>As idas e vindas diluem qualquer espaço para progressão. Dificilmente, o público se apega as personagens, seus conflitos, ligações e emoções. Há uma tonalidade monocórdica vinda do sonoro e visual, que deixam com que a tristeza não invada o ecrã e seu enredo, tornando-se entediante.</p>
<p>O que a plateia recebe são clipes, com insertes e frases de efeito, que não alcançam o resultado esperado &#8211; como na sequência que Carmem descobre que Jorge se afogou e precisa dizer o policial informações crucias e dolorosas, como o ano que ele nasceu, mostrando que ele faleceu jovem.</p>
<p>Contudo, é necessário frisar o esforço profundo de Ludwika Paleta para criar um papel sólido e preenchido de camadas em <strong><em>Después</em></strong>. Sendo uma atriz que foca em nas nuances de gestos e expressões faciais &#8211; a intérprete veio da televisão e funciona nesta dinâmica de elaborar emoções através dos olhos e micro movimentos.</p>
<p>Sua Carmem tem na respiração e nas miradas de contracena um poder de co-criar com quem assiste uma história por cima da história original. Se o longa não sabe como dosar os elementos audiovisuais para emocionar, Paleta o sabe. Indo de encontro às seleções óbvias, ela coloca em cena um processo interno, que transborda, nas suas escolhas.</p>
<p>Paleta ainda empresta sua voz para Carmem, que é uma musicista, que desistiu da carreira para, justamente, poder prover com mais amplamente para seu filho. Mas, como se é sabido, o talento de uma atriz não pode salvar toda uma obra, mas pode fazer com que uma produção seja mais palatável.</p>
<p>É exatamente isso o que acontece em <strong><em>Después</em></strong>, um longa perdido, que serve como uma vitrine para se observar o talento de uma intérprete experiente, concisa e meticulosa. Para quem não se interessa por analisar e/ou acompanhar a jornada de atuação de uma artista, ver os primeiros 15/20 minutos do filme já é suficiente para compreendê-lo em sua totalidade.</p>
<p><strong>Direção:</strong> Sofía Córdova-Gómez</p>
<p><strong>Elenco:</strong> Ludwika Paleta, Nicolás Haza, Darío Rocas</p>
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