Parece que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas teve que se render aos encantos e talentos mexicanos. Nos últimos 5 anos, o México levou 4 vezes a estatueta de “Melhor Diretor” para casa. Alfonso Cuarón, Alejandro Iñárritu e Guillermo del Toro foram os vencedores latinos que conquistaram o coração do público e o gosto temperamental da Academia. A incerteza sempre paira sobre qualquer decisão vinda do Oscar, afinal a sua imprevisibilidade já foi mostrada inúmeras vezes. A vitória de Cuarón, contudo, parece ser certa. O diretor mexicano foi indicado e vitorioso nas principais cerimônias do cinema, o que aumenta as suas chances de manter o Academy Awards na mesma linha.

2018 foi um ano rico em produções diversificadas. Os destaques que levaram os diretores indicados a esses prêmios oscilam entre uma biografia política, uma operação policial, um romance em meio ao caos da guerra, o jogo de poder na realeza e o cotidiano de uma empregada doméstica. Cada uma dessas narrativas foi perfeitamente coordenada por seus diretores. O resultado foi uma orquestra harmônica cheia de nuances sociais e ecos de personalidade. Mesmo com a força de Cuarón, é impossível ignorar o brilhante trabalho de Yorgos Lanthimos – o qual é, talvez, o concorrente mais forte do diretor mexicano – com a sua comédia dramática histórica. Além deles dois, a categoria ainda conta com mais um concorrente estrangeiro, o diretor polonês Pawel Pawlikowski que criou uma obra extremamente forte sobre um romance tempestuoso durante a Guerra Fria. Os outros competidores são conhecidos da cerimônia, Spike Lee e Adam McKay, onde, mais uma vez, ambos trouxeram às telonas a sua expressão cinematográfica como diretor. Na verdade, todos os 5 diretores mostraram em seus longas a sua personalidade como realizadores.

vice

5 – Vice
Adam McKay consolidou a sua carreira com comédias extremamente singulares. Após ganhar notoriedade e prestigio, o seu caminho pelas cinebiografias não se distanciou da sua essência única de realizar uma produção. McKay incorpora a comédia como forma de apaziguar o bombardeio de informações ou a solidez do assunto discutido. Assim foi A Grande Aposta (2015) e, nessa mesma linha, se estrutura o seu último trabalho, Vice. Assistir um projeto de McKay pela primeira vez pode causar estranheza – e, em alguns casos, continuará a incomodar à sua maneira de dirigir o filme –, mas o jeito de fazer cinema de Adam é só dele. A inteligência em seus argumentos, escolhas de cenas e a maneira como elas são filmadas são bem diferentes e é isso que fez e faz dele um destaque no universo cinematográfico.

infiltrado na klan

4 – Infiltrado na Klan
A representatividade da cultura e vida negra dos Estados Unidos é marca registrada dos trabalhos de Spike Lee. O diretor, produtor, roteirista e ator tem uma história que define o seu olhar para o mundo, a arte e a sua função como cineasta. A expressão dessas vivências é a força de seus filmes. A discussão aberta de situações cotidianas, a crítica aos padrões sociais racistas e opressores e o seu humor ácido formam uma linha fílmica singular. Infiltrado na Klan é uma obra que representa o diretor. A narrativa contém todas as características do realizador e se mostra como um dos melhores trabalhos de sua carreira. A resposta imediata do público ao final de BlacKkKlansman (título original) é o choque com a triste verdade de milhões de pessoas ao redor do mundo. O longa é um soco de realidade que leva o espectador a nocaute. Infelizmente essa obra espetacular tem sido a injustiçada do ano. Infiltrado na Klan tem uma força inigualável e isso está completamente ligado ao desempenho de Lee como criador dessa história.

Guerra Fria

3 – Guerra Fria
Apesar de ter sido reconhecido por seu trabalho em Ida (2013), Pawel Pawlikowski impressionou público e crítica com a sua direção em Guerra Fria. Sua condução foi extremamente sensível e atenciosa aos detalhes. O intimismo sentido em cada uma das cenas do longa refletem numa aproximação imediata do público. É impossível assistir Cold War (título original) sem se sentir parte daquele momento, sem viver a cultura polonesa e o paradoxo da liberdade da música enquanto se vive refém da guerra. Pawlikowski traz o espectador para o seu universo e o transforma em uma personagem de sua encantadora história. A escolha da tela em 4:3, a estética da imagem em preto e branco, as sequências musicais e das paisagens são gloriosamente executadas pelo diretor polonês. O seu trabalho é merecedor de uma salva de palmas tão estrondosas quanto a força de sua narrativa. Pawel retratou as dores da guerra e dos relacionamentos numa coesa versão visual da arte de fazer cinema.

a favorita

2 – A Favorita
Yorgos Lanthimos brilhou como nunca ao executar o maravilhoso A Favorita. Suas obras costumam ser alvos de críticas diversas por seu caráter exagerado e diferente. Contudo, a realização de Yorgos é tão completa e fala tão bem com a atmosfera extraordinária de sua obra que não há espaço para esse tipo de crítica. Os deslumbres da realeza, o caos da guerra e os jogos de sedução e poder andam em consonância com cada detalhe da trama. Até mesmo as inesperadas filmagens estilo “fish eye” ou os ângulos não convencionais escolhidos pelo diretor conversam perfeitamente com seu filme. Lanthimos deu vida a uma das melhores obras cinematográficas de 2018 por sua excentricidade desmedida. Para quem atacava o diretor por suas “estranhezas”, The Favourite (título original) marca um momento de retratação com a visão particular e genial do cineasta.

roma

1 – Roma
O diretor mexicano Alfonso Cuarón se tornou o ápice das atenções de 2018. A realização de Roma representou uma infinidade de coisas para o universo da sétima arte. O sucesso do longa-metragem desconstrói preconceitos, padrões e métricas para o cinema e suas pomposas premiações. Um diretor latino – que, por mais espaço que tenha em Hollywood, nunca deixará de ser um imigrante mexicano aos olhos dos estadunidenses – conseguiu emplacar um filme nada comercial que não tem efeitos grandiosos, tem um ritmo lento, é todo preto e branco e ainda conta uma história muito particular sobre a vida e a dor de uma pessoa comum. Além disso, Cuarón ainda bate de frente com os padrões e faz a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas aceitar uma produção feita por um streaming – espaço detestado por ela. A apresentação dessa película ao público vai além da perfeição e simplicidade da narrativa, perpassa as belas imagens e sequências e mostra algo muito maior que o denominado “cinema cult”. Roma é um marco sobre vivência – dentro e fora das telonas.

Cada plano, cada sequência e cada jogo de câmera foram elaborados com uma sutileza notória. As paisagens se tornam personagens da trama por conta da direção de Cuarón. Ele soube aproveitar os múltiplos cenários para criar representações da vida como ela é: com toda a sua simplicidade e o caos cotidiano. Roma encanta os olhos e acaricia a alma. A transformação das memórias do cineasta em sua mais poderosa arte criou a obra mais verdadeira e sensível da premiação. Apesar de seus concorrentes serem brilhantes, talvez o ponto de maior destaque de Alfonso seja a verdade expressa quadro a quadro. A dureza da realidade forjou uma das produções mais sinceras de 2018. E por toda a sua completude como realizador, Alfonso Cuarón se mostra o favorito para receber o Oscar de “Melhor Diretor” permitindo que ele e outros artistas possam continuar a desafiar os paradigmas da sociedade e criar oportunidades num meio ainda regido por padrões arbitrários e circunstanciais.

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