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	<title>Leticia Moreira, Autor em Coisa de Cinéfilo</title>
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	<title>Leticia Moreira, Autor em Coisa de Cinéfilo</title>
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		<title>Elas na Tela: As mulheres de Estrelas Além do Tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Jan 2017 23:41:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Especiais]]></category>
		<category><![CDATA[Estrelas Além do Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Janelle Monáe]]></category>
		<category><![CDATA[Kevin Costner]]></category>
		<category><![CDATA[Kirsten Dunst]]></category>
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		<category><![CDATA[Taraji P. Henson]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A história, como conhecemos, é repleta de fatos camuflados e verdadeiros heróis escondidos. Construir um filme que se predispõe a rasgar cortinas é carregar uma responsabilidade séria. 1961. Imagine que, no cenário hostil da Guerra Fria, um time de três mulheres geniais, trabalhando no departamento de matemática da NASA, se tornou peça chave no sucesso estadunidense rumo ao espaço. Surpreendente? Pois bem, agora imagine que além de cientistas e geniais, essas mulheres fossem negras? Pareceria mais uma história para dar conta [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A história, como conhecemos, é repleta de fatos camuflados e verdadeiros heróis escondidos. Construir um filme que se predispõe a rasgar cortinas é carregar uma responsabilidade séria.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">1961. Imagine que, no cenário hostil da Guerra Fria, um time de três mulheres geniais, trabalhando no departamento de matemática da NASA, se tornou peça chave no sucesso estadunidense rumo ao espaço. Surpreendente? Pois bem, agora imagine que além de cientistas e geniais, essas mulheres fossem negras? </span><span style="font-weight: 400;">Pareceria mais uma história para dar conta desse burburinho todo dos “politicamente corretos” que exigem representatividade de gênero e de cor, verdade? Rá, não!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é a história real de Katherine Johnson</span><span style="font-weight: 400;">, Dorothy Vaughn</span><span style="font-weight: 400;"> e Mary Jackson</span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i><span style="font-weight: 400;">que, sob a direção de Theodore Melfi (que assina o roteiro junto a Allison Schroeder), chega aos cinemas brasileiros em 02 de fevereiro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Estrelas Além do Tempo</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><span style="font-weight: 400;">Hidden Figures</span><span style="font-weight: 400;">), baseado no livro homônimo de Margot Lee Shetterly, é sem dúvida um filme necessário e important</span><span style="font-weight: 400;">e em tempos atuais.</span><span style="font-weight: 400;"> Somente por virar os holofotes para essas mulheres, cujos nomes nos foram ocultados por tanto tempo, esse drama-biográfico já merece reconhecimento &#8211; e o título original </span><i><span style="font-weight: 400;">“Figuras Escondidas”</span></i><span style="font-weight: 400;">, que perde força na tradução brasileira, já sugere isso. Pois é, mulheres colocaram os homens no espaço!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma menininha negra toma o centro da cena de abertura, em primeiro plano. Resolvendo um problema matemático, abisma colegas e  professor (negros) que ocupam o segundo plano. Na sequência seguinte, as três protagonistas aparecem em meio a uma estrada em um carro quebrado. Uma delas, deitada no chão com chave-de-fenda em mãos, conserta o problema mecânico. Pronto, é assim que a película se apresenta: uma história sobre mulheres que não são menos do que qualquer mulher pode ser.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A menininha é Katherine <i>(</i>Taraji P. Henson<i>)</i>, viúva e mãe de três filhas, que, dividindo-se entre as responsabilidades pessoais e profissionais, encontra uma grande oportunidade ao ser convocada para ser o computador da operação, presidida pelo cientista Al Harison </span><i><span style="font-weight: 400;">(</span></i><span style="font-weight: 400;">Kevin Costner</span><i><span style="font-weight: 400;">)</span></i><span style="font-weight: 400;">, que levaria o primeiro estadunidense ao espaço. Para se tornar a primeira engenheira da NASA, a determinada Mary Jackson <i>(</i>Janelle Monáe<i>) </i>equilibra trabalho, família e uma segunda graduação em uma escola exclusiva para brancos, cujo acesso conquistou por meio de um recurso jurídico. Dorothy Vaughn <i>(</i>Octavia Spencer, disputando o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante<i>)</i></span> <span style="font-weight: 400;">executa toda função e responsabilidade de coordenar a equipe de “computadores” da agência espacial, mas, por sua cor, o cargo oficialmente lhe é sempre negado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enfrentar todos os obstáculos de gênero e de cor é, ainda hoje, rotina árdua. Em tempos em que negros e brancos sequer compartilhavam espaços públicos, então, era quase sobre-humano. Mais do que protagonistas do filme, elas são protagonistas das próprias histórias, dos próprios destinos, da família, e ainda, do destino da nação em meio a uma luta além-terra. Merecem, portanto, uma obra à altura.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Narrativamente, o ritmo do filme flui bem &#8211; começando com a apresentação da rotina de cada uma das personagens, seguindo com seu desenvolvimento nas áreas específicas, nos desafios assumidos e consequentes vitórias. Porém, no desenrolar da história, a ênfase na dedicação e no patriotismo da NASA acaba disputando o foco central que deveria ser, propriamente, nas tais figuras escondidas (já que o patriotismo dos EUA sempre esteve bastante visível!). E é aqui o primeiro ponto em que o diretor pesa a mão e deslisa na proposta que vinha apresentando, gerando uma pulguinha atrás da orelha: este seria, no fim das contas, mais um daqueles filmes imperialistas? Outras questões, tratadas a seguir, podem compensar esse ponto, ainda que não o enterrem. </span></p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-7302" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2017/01/hf-gallery-04-gallery-image.jpg" alt="" width="610" height="348" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Existe uma preocupação estética e narrativa no filme em dar conta de mostrar as mínimas e mais latentes opressões sofridas pela população negra, em especial as mulheres, e aqui a direção acerta em muitas escolhas. É angustiante, e até desesperador, acompanhar a saga diária de Katherine na ida ao banheiro, já que no prédio onde passa a trabalhar só havia espaços para brancos. A cena se repete no longa mais de uma vez, sem poupar esforços de reforçar a ação, gerando a ansiedade de quem passaria aquilo. E é necessário que se desperte essa sensação.  </span></p>
<p>Os enquadramentos sempre contemplam a segregação nos ambientes de trabalho, reforçando os olhares tortos, a presença estranha de uma negra em meio a um mar de homens brancos. O mesmo para os espaços dos negros, em que compartilham medos e alegrias. A determinação e coragem das personagens, que no geral tomam as rédias para se impor em muitas situações, são explícitas na obra. Estas e outras escolhas, como a construção dos aspectos históricos nos diálogos e na narrativa, fazem com este seja, a seu modo, um filme muito sensitivo e envolvente &#8211; principalmente se você for mulher e sentir na pele a desigualdade.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Falar sobre mulheres protagonizando filmes de alto orçamento não deixa de suscitar indagações e pontos de atenção importantes, principalmente quando elas ocupam alguma posição de relevância. As mulheres negras têm sido há longo tempo, nas artes no geral, hiperssexualizadas e objetificadas. É um perigo iminente para qualquer filme reproduzir isso, mas aqui nota-se um cuidado em não seguir nesse caminho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por muito tempo, a sociedade patriarcal tenta impor a rivalidade entre as mulheres como algo culturalmente natural. O filme, sagazmente, se esquiva dessa armadilha e, ao contrário, evidencia a união e suporte mútuo entre as personagens. Mesmo na hostilidade das mulheres brancas em relação às negras, a rivalidade parece não ultrapassar as questões racistas &#8211; não que isso fosse bom, mas demonstra uma atenção em não entrar no jogo do patriarcado. E talvez estes pontos sejam reflexo de um roteiro assinado por uma mulher.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante, justamente, como o filme retrata a relação entre as mulheres brancas e as negras, esses dois grupos historicamente oprimidos, mas que, apesar de pertencerem ao mesmo gênero, a condição da cor sempre as têm colocado em patamares desiguais de opressão, até os dias atuais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vívian (Kirsten Dunst) é o desenho real dessa hierarquia enraizada no imaginário das mulheres brancas, que se creem superior às negras. Ela, apesar de sentir na pele a diminuição e discriminação no trabalho, por ser mulher, não deixa de operar no mesmo caminho com Dorothy. E essa questão é tão forte que, ao comentar com Dorothy que não teria nada contra ela, esta responde &#8220;Eu sei que você provavelmente acredita nisso&#8221;. O racismo, na nossa cultura, é tão complexo que muitos de nós, de fato, acreditamos nisso.</span></p>
<p>A segunda pulguinha atrás da orelha começa a saltitar quando alguns elementos do roteiro parecem exagerar o heroísmo dos brancos, e é aqui o incômodo principal. É um tanto claro que, para que as protagonistas alcançassem o êxito, mesmo com todo empenho, foi necessário que os brancos fizessem certas concessões (sem querer, com esse afirmação, negar a autonomia da luta do povo negro). Nesta história em particular, o cientista Al Harrison defendeu os direitos de Katherine e, de certo modo, deu o devido reconhecimento a seu trabalho. Porém, o filme abusa da escolha de reiterar os olhares de surpresa dos cientistas brancos, acompanhados de musiquinhas instrumentais ao fundo, formato que acaba se tornando maçante.</p>
<p>Em certo momento, Harrison passa o bastão (um piloto de lousa, especificamente) para Katherine. Nada demais, exceto por essa passagem acontecer em um <em>close</em> (com musiquinha, claro!). Poucos minutos depois, em outro <em>close</em>, Vivian entrega a Dorothy a pasta em que recebe o título de coordenadora. Essas &#8220;passagens de bastões&#8221; (dos brancos aos negros) em primeiros planos são, sem dúvidas, desnecessárias.</p>
<p>A história ocultou suas identidades e nos privou do direito de conhecê-las, do direito de saber que (nós, mulheres) não cabemos em nenhum limite, em nenhum padrão ou em nenhum tipo de prisão que o patriarcado nos impõe e nos impôs sempre. Nós (as mulheres) levamos os homens para o espaço!</p>
<p>Assim, não dá pra negar que <em>Estrelas Além do Tempo</em> tem o mérito de uma obra de urgência, necessária, que traz à tona a voz, o pioneirismo e a importância dessas heroínas.  É muito forte vibrar a cada vitória delas. O filme retrata, ainda, muito bem a realidade hostil de poucas décadas atrás. Ainda que, no fundo, muitos aspectos do filme acabam se encaixando na máxima <em>&#8220;filme para branco ver</em>&#8220;, não chega ao ponto de ser um <em>Histórias Cruzadas</em>  no Espaço (como brincou a atriz Leslie Jones). Ele cumpre bem essa responsabilidade e não perde, de todo, a mão na representatividade e no cuidado com as personagens. Merece (e precisa) ser visto.</p>
<p><strong>Assista ao trailer do filme:</strong></p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/wx3PVtrU-Os" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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		<title>Elas na Tela: Divinas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leticia Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Jan 2017 23:54:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Especiais]]></category>
		<category><![CDATA[Divinas]]></category>
		<category><![CDATA[Divines]]></category>
		<category><![CDATA[Houda Benyamina]]></category>
		<category><![CDATA[Netflix]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma Paris sem o glamour e o cheiro de um café à beira do Sena, a realidade dos imigrantes no subúrbio segue apartada do sonho da bonne vie europeia. E é na cidade marginal que as melhores amigas Dounia e Maimouna sonham com uma vida de luxo e dinheiro. “Money, Money, Money!”, brinca a protagonista Dounia, resume as aspirações de uma juventude esquecida, em um pátria que não lhes acolhe, mas que anseia existir e quer fazê-lo como o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em uma Paris sem o glamour e o cheiro de um café à beira do Sena, a realidade dos imigrantes no subúrbio segue apartada do sonho da </span><i><span style="font-weight: 400;">bonne vie</span></i><span style="font-weight: 400;"> europeia. E é na cidade marginal que as melhores amigas Dounia e Maimouna sonham com uma vida de luxo e dinheiro. “Money, Money, Money!”, brinca a protagonista Dounia, resume as aspirações de uma juventude esquecida, em um pátria que não lhes acolhe, mas que anseia existir e quer fazê-lo como o próprio sistema ensina. </span><i><span style="font-weight: 400;">Divinas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um desses filmes que fazem bonito na representatividade, sabendo dosar bem realidade com poesia e sensibilidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O drama francês (franco-qatariano), vencedor do Câmera de Ouro no Festival de Cannes em 2016, é dirigido por Houda Benyamina e distribuído mundo afora pela Netflix. As duas jovens, sem muita perspectiva ou esperanças de alcançar o sonho no fluxo do sistema, tomam a contramão e partem em busca do dinheiro fácil, envolvendo-se com uma traficante local. Senhoras de si e decididas em buscar seu lugar no mundo, parecem não dimensionar o perigo de suas ações, mas o fazem com segurança, conduzindo assim uma história que cresce com êxito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Dounia (</span><i><span style="font-weight: 400;">Oulaya Amamra</span></i><span style="font-weight: 400;">) é uma jovem sem referência familiar minimamente sã, que vive com a mãe cheia de vícios e a quem ela cuida como filha, Maimouna (</span><i><span style="font-weight: 400;">Déborah Lukumuena</span></i><span style="font-weight: 400;">), no seio de uma família muçulmana, religiosa e protetora, acredita que Deus está olhando todos os seus pecados. São incompreendidas pelas instituições e parece que nenhum lugar lhes cabe: a escola as conduz aos bancos de empregados (com o curso para ser recepcionista), a igreja e a política lhes são hostis, não se identificam com a família e até o tráfico as menospreza. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Incompreendidas, mas não inocentes! O filme não tem espaço para maniqueísmos. Nem “boas”, nem “más” (ou “nem princesas, nem bruxinhas”), as meninas são o que o são: jovens que guardam a alegria e a euforia da adolescência, tentando equilibrar-se entre sonhos ingênuos e a dura realidade a se enfrentar, escolhem o crime porque é o mais fácil e têm ciência disso. Maimouna, por exemplo, conta que sonha com Deus castigando-a, o que não a impede de seguir no crime.</span></p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-7276" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2017/01/Divinas.jpg" alt="" width="610" height="348" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme foge dos estereótipos convencionais sem precisar operar na direção oposta, como quando se retira toda feminilidade das personagens para mostrar “mulheres fortes”, ou quando se recusa cuidado poético e estético com a obra para imprimir realismo. E esse é talvez um dos seus pontos mais fortes: inverter os clichês com muita maturidade e sensibilidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Comecemos, então, pela cereja do bolo: Esta é uma obra importante de representação e, à sua forma particular, de empoderamento feminino. Empoderamento justamente por sua dimensão representativa e pelas inversões de papéis, que, com muita sutileza, costuram o filme. Primeiro, as mulheres são centrais, não só pelo protagonismo, mas pela condução das ações e pela tomada de decisões, sempre tendo como guia os seus próprios interesses, suas próprias paixões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há um homem como motivo, como prêmio, como mestre. Nos diálogos e nas ações, os homens são secundários. Aliás, eles são secundários em toda narrativa. Há um olhar claramente preocupado com a representação feminina em todos os aspectos, desde a escolha de enquadramentos à caracterização física das personagens. A direção à cargo de Houda imprime sem dúvidas esse olhar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As mulheres são fortes porque são reais. Elas são líderes, comandam a casa, ou o tráfico, e são também vaidosas, sonhadoras, sensuais (e sexuais!). São fortes fisicamente, como quando Dounia parte para a briga com um traficante, de igual para igual. Rebecca (<em>Jisca Kalvanda</em>), a líder do tráfico e referência de sucesso no “submundo”, é talvez o melhor exemplo dessa inversão: durona, com cicatrizes no rosto, cabelo raspado, é heterossexual e com parceiros à disposição. Não seria um problema ela ser homossexual, mas é um problema estigmatizar as lésbicas como sempre masculinizadas, assim como é um problema que todas as “mulheres fortes” sejam lésbicas (já que as lésbicas são sempre masculinas, e aí vamos caminhando para o falocentrismo sem fim).</span></p>
<p>O sutil &#8220;Você tem clitóris!&#8221;, que Rebecca diz sobre a coragem de Dounia, vem para enterrar de vez o clássico &#8220;você tem bolas!&#8221;, levando junto o patriarcado.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O personagem do segurança, que busca na dança e na arte uma forma de libertar-se, é também um elemento interessante na narrativa. Ele é um homem representando a sensibilidade da arte, do corpo, é o seu corpo o que a câmera percorre e que a fotografia destaca. E é Dounia quem o observa.</span></p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-7277" src="http://coisadecinefilo.com.br/wp-content/uploads/2017/01/16251097_1299963633433810_1967313146_o.jpg" alt="" width="610" height="348" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As escolhas técnica são certeiras em construir as sutilezas das personagens. A cena em que as meninas imaginam estar andando em uma Ferrari é uma das mais belas: em um <em>travelling</em>, temos o contraste do ambiente com as expressões de alegria e inocência em primeiro plano, junto à narração excitada de Dounia. As câmeras subjetivas, como imagens de snapchats, tornam a obra ainda mais real e atual. A presença de atores estreantes, como a Déborah Lukumuena, mostra esse cuidado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com um roteiro forte, sólido e imponente, mas sem deixar de ser sutil e delicado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Divinas (Divine)</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um filme jovem e rebelde, que sabe muito bem onde está pisando. Mérito que sem dúvida é reflexo da direção de uma mulher jovem e franco-marroquina que conhece muito a realidade que insere na narrativa e, principalmente, respeita suas personagens. Houda Benyamina poderia ter caído fácil no terreno comum da temática suburbana e criminal, com homens dominando o tráfico e  mulheres vendendo o corpo (o que, para muitos diretores, parece ser a única possibilidade lógica), mas suas escolhas, junto ao olhar que emprega à construção da trama, fazem deste um filme precioso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">timing</span></i><span style="font-weight: 400;"> do filme é certo, pela a urgência de temas tão atuais, tão reais e tão próximo, mas que nos escapa tão fácil: tanto pelos milhares de imigrantes que aportam diariamente na Europa, quanto pela rotina de vermos mulheres sempre hiperssexualizadas e submissas, enfraquecidas. Ainda que o cinema seja arte e que nem sempre é possível cobrar demasiado a ação política na arte, algumas escolhas às vezes o exigem.</span></p>
<p><strong>Assista ao trailer do filme:</strong></p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/NaKpfEJ5NMc" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
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