O amor possível em Hoje eu quero voltar sozinho

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Mão suave: Filme nacional mostra a descoberta da homossexualidade de maneira delicada e pouco trágica.

 

Quando foi lançado em 2010, parte do fascínio gerado pelo curta Eu não quero voltar sozinho (clique aqui para assisti-lo), de Daniel Ribeiro, se deu pela maneira sutil e romântica com que o filme abordava o despertar da sexualidade na adolescência de um menino cego chamado Leonardo que se apaixona por um colega de classe, Gabriel. Basta ler os comentários sobre o vídeo disponibilizado no YouTube e a repercussão do filme na crítica para perceber o quanto as pessoas se encantaram com a, digamos, fofura da história. O curta virou o longa Hoje eu quero voltar sozinho, lançado em abril.

Em meio ao universo de filmes que se propõem retratar a realidade de pessoas LGBT, a maioria o faz focando nos aspectos mais dramáticos da vida dessas pessoas: a auto aceitação, a homofobia, a saída do armário, os problemas psicológicos e sociais advindos da discriminação, entre outros… Não há como negar que tais representações são, de fato, importantes, e que, sim, representam uma realidade vivenciada por boa parte das pessoas que fogem às ditas normas de sexualidade e gênero. Porém, até que ponto essa representação, que podemos considerar, de certo modo, negativa e infeliz, não afeta a percepção que os LGBT podem ter sobre si mesmos e suas possibilidades de vivências no futuro? Sabemos bem da importância que as narrativas têm em gerar simpatia e identificação com as histórias que nos contam, sejam por nos apresentar personagens que nos servem como exemplos, realidades, vivências (reais ou possíveis – mesmo que sejam apenas no mundo ficcional…).

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Leonardo e Gabriel: Baseado em curta de 2010, “Hoje eu quero voltar sozinho” mostra a paixão entre um adolescente cego e um colega de escola.

 

Não se trata aqui de realizar uma negação do lado mais duro da vida para se representar apenas o lado feliz (e de acordo com a opinião de muitos, fantasioso) – vide a maneira interessante como os próprios filmes da Disney, defensores, desde suas raízes, do amor puro, romantizado, heterossexista (e, por vezes, até machista), vêm quebrando esses paradigmas com personagens femininas fortes e com uma forma de amor mais universal (para citar exemplos, Valente, Frozen e Malévola).

A questão é que Hoje eu quero voltar sozinho se destaca  por representar, com qualidade, uma possibilidade do amor romântico (e feliz, destaca-se) entre pessoas do mesmo sexo – representação esta tão ausente em nossa cultura e que, defendendo ou odiando a ideia de amor romântico, não se pode negar a sua importância em meio a pluralidade de tipos de amores existentes, principalmente quando se leva em conta o tipo de valor simbólico que ele possui em nossa cultura.

Entendendo as diferenças

Leonardo, interpretado brilhantemente por Guilherme Lobo (sim, como todo mundo, eu também achava que ele era realmente cego, rs) é um adolescente comum de classe média que vive uma vida tranquila e compartilha suas dores e alegrias com a melhor amiga Giovana, vivida por Tess Amorim, sempre roubando a cena. No dia a dia, Leonardo supera as limitações advindas de sua cegueira congênita, o bullying dos colegas na escola e a superproteção dos pais. Leonardo então se apaixona pelo novo colega de classe, Gabriel, representado pelo jovem Fábio Audi de forma econômica e delicada.

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Confidente: Leonardo (Guilherme Lobo) tem em Giovana (Tess Amorim) sua mais fiel amiga no colégio.

 

O diretor Daniel Ribeiro realiza um filme surpreendente ao falar não só da descoberta da sexualidade, mas da nossa própria identidade e da maneira como ela se forma, uma questão complexa e delicada. Em um dos diálogos mais representativos do filme,  Giovana e Leonardo conversam no quarto dele sobre sua vontade realizar um intercâmbio e, ao ser perguntado pela amiga sobre o motivo de seu desejo, o protagonista revela sua vontade de ir a um lugar onde ninguém o conheça, ou seja, onde ninguém o possa definir de fora para dentro. Mal sabe o personagem que isso pode acontecer em qualquer lugar que esteja.

Esse diálogo nos aponta o cansaço de Leonardo diante da superproteção de seus pais em decorrência da cegueira congênita do filho.  Se chocam as identidades do adolescente – em busca de uma definição para si – e aquela do filho cego e dependente dos cuidados dos pais. Em outras cenas, Leonardo demonstra sinais de cansaço com a hiper-sensibilidade dos outros às suas limitações, como no momento em que leva uma bronca dos pais quando chega em casa à noite após voltar sozinho da casa da avó, ou quando, após sofrer bullying dos colegas, rejeita a ajuda de Giovana para abrir a porta de casa usando a chave como prova de que ele é capaz de fazer as coisas sozinho.

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Construção dos personagens: Longa cria uma dinâmica interessante e rica entre os seus protagonistas.

 

Tess Amorim dá um show à parte como Giovana. Muito expressiva, Amorim reage de maneira natural aos impulsos da personagem em seus diálogos com Leonardo, que geram boa parte do humor no filme. A personagem tem várias expectativas quebradas ao longo do longa em decorrência de seus confusos sentimentos tanto com relação a Leonardo, que ela acredita se afastar conforme desenvolve sua relação com Gabriel, como com o próprio Gabriel, que ela também deposita a esperança de um possível romance.
Ainda não acostumado com a condição do amigo, Gabriel protagoniza alguns diálogos interessantes de humor involuntário com Leonardo, como quando o pergunta se já  tinha visto um vídeo engraçado na internet, o chama para ir ao cinema ou ver um eclipse lunar de madrugada. De qualquer modo, são justamente nessas novas experiências com o novo amigo – antes “negadas” pelas pressuposições em torno da sua cegueira por aqueles no entorno do personagem – que Leonardo percebe esse novo amor nascer por Gabriel que, apesar de compreender as limitações do amigo, o trata como igual e não se intimida por elas e nem tenta superprotegê-lo.
Outra boa sacada de Daniel Ribeiro é a maneira como explora a reação dos outros sentidos de Leonardo à presença de Gabriel. Na ausência do visual – sentido que nossa cultura hipervaloriza na sexualidade -, é o som da voz de Gabriel, seu toque ao segurar o braço do amigo para guiá-lo, o cheiro impregnado no moletom, entre outras características, que despertam os desejos de Leonardo.

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Diferente: Leonardo vive um período complicado no qual colidem os seus conflitos de identidade oriundos da fase adolescente e da sua deficiência visual.

 

E se Leonardo se mostra pouco incomodado com sua possível paixão homossexual por Gabriel, a homofobia internalizada, que dá o desafio da auto aceitação, é muito bem representado por Gabriel. Ele demonstra confusão e insegurança em vários momentos do filme quanto a seu sentimento por Leonardo. Em uma determinada cena, por exemplo, ele beija o amigo no final de uma festa e diz que não lembra de nada no outro dia porque bebeu demais, em outra sequência, os dois tomam banho juntos durante um passeio da escola e ele fica constrangido com sua excitação ao ver o corpo nu de Leonardo. Seria por causa da ausência das imagens estereotipadas que constroem parte da homofobia em nossas cabeças e que Leonardo não possui, em parte, devido sua condição?

Essas são algumas das questões levantadas por esse que é disparado um dos melhores filmes que abordam não só a temática LGBT, mas a própria questão da identidade. Personagens bem construídos, narrativa simples e o uso eficiente da linguagem cinematográfica para retratar, com bastante sutileza, a realidade vivenciada por pessoas cegas e também pelos LGBT. Daniel Ribeiro mostra que os dramas vividos pelas pessoas que possuem identidades sexuais e de gênero que escapam às normas sexistas não precisam ser retratados sempre de forma tão negativa para nos trazer um pouco de compreensão sobre essa questão tão complexa e ainda tão incompreendida da identidade e da diferença.

 

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