“Deu ruim”: Cinco franquias que não vingaram

O verão norte-americano e, consequentemente, as férias de junho/julho no Brasil, é abarrotado de séries cinematográficas. No entanto, nem toda empreitada dá certo. Várias franquias para o cinema foram emperradas por fatores diversos, boa parte deles ligados a um saldo negativo nas bilheterias. A equação mal resolvida entre valores gastos pelos estúdios e os ingressos vendidos nunca é exata, muitas vezes o filme tem que render mais que o dobro para ser considerado rentável. Selecionamos cinco títulos que nasceram com pretensões de “dar cria”, mas que acabaram tendo suas carreiras completamente podadas:

Millenium
Craig, Mara e Fincher saíram do barco após ficarem impacientes com a indefinição da Sony sobre a continuação de “Millennium”.

 

#01. Millennium

Filme: Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres

Orçamento: 90 milhões de dólares

Bilheteria: 102 milhões (EUA) + 130 milhões (outros) = 232 milhões de dólares

Críticas: 86% dos críticos aprovaram

Baseado na trilogia policial Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson, que transformou-se em best-seller mundial logo após a morte do autor, Os Homens que não Amavam as Mulheres ganhou uma versão cinematográfica pelas mãos do norte-americano David Fincher, diretor já familiarizado com as tramas de assassinatos e investigações policiais semelhantes aquelas protagonizadas pelo jornalista Mikael Bomkvist e pela hacker Lisbeth Salander.

A primeira – e única – produção foi lançada nos cinemas em dezembro de 2011 e contava a história do desaparecimento de uma mulher na Suécia. O caso passa a ser investigado pelo jornalista Mikael Blomkvist, que trabalha em uma famosa revista no país, a Millennium. Ele é ajudado por uma hacker anti social chamada Lisbeth Salander. O filme de Fincher foi antecedido por uma trilogia cinematográfica sueca relativamente bem sucedida e que tornou conhecido o nome de Noomi Rapace, intérprete local de Salander. No entanto, não foi a existência de uma outra versão para a história que interrompeu o andamento de Millenium.

Após O Curioso Caso de Benjamin Button  e A Rede Social, um retorno de David Fincher ao gênero que o tornou célebre era esperado com muita expectativas, afinal ele ganhou visibilidade no meio com Seven. Atrizes como Keira Knightley e Scarlett Johansson disputaram a tapa o papel de Lisbeth, que acabou nas mãos de Rooney Mara, dirigida por Fincher em A Rede Social. A dedicação de Mara na caracterização da hacker impressionava a cada foto oficial, transformando sua Salander em uma personagem visualmente mais crível que a versão sueca. Além disso, os primeiros teasers da produção ao som de “Immigrant Song”, de Led Zeppelin, na interpretação de Karen O. e dos inseparáveis Atticus Ross e Trent Reznor, deixaram os cinéfilos com grandes expectativas. Quando lançado, o filme recebeu excelentes críticas, mas enfrentou problemas nas bilheterias. Com orçamento de U$S 90 milhões, o longa encontrou dificuldades para superar esse valor nas bilheterias nas primeiras semanas, sobretudo por ter sido lançado em pleno Natal (conseguir publico para um filme tão denso e sombrio em dezembro foi um desafio imposto à produção que nem mesmo as cinco indicações ao Oscar, uma delas a de melhor atriz para Rooney Mara, fez concretizar). Resultado? As duas continuações, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, permaneceram no limbo por um bom tempo. O roteirista do primeiro longa Steve Zaillian esteve vinculado às continuações, mas David Fincher descartou a ligação e já engatou a adaptação de outro best-seller, Garota Exemplar, que chega aos cinemas esse ano, e sua versão de 20.000 Léguas Submarinas. Em entrevistas concedidas a alguns veículos, a atriz Rooney Mara afirmou que a probabilidade das continuações acontecerem é bem pequena.

A Bússola de Ouro
Fronteiras da criação: Divergências criativas entre o estúdio e o director Chris Weitz foram as principais razões apontadas para o fracasso de “A Bússola de Ouro”.

 

# 02. Fronteiras do Universo

Filme: A Bússola de Ouro

Orçamento: 180 milhões de dólares

Bilheteria: 70 milhões (EUA) + 302 milhões (outros) = 372 milhões de dólares

Críticas: 42% dos críticos aprovaram

A Bússola de Ouro é um dos típicos casos em que a interferência de um estúdio que julga saber tudo sobre todos os departamentos sabotam um projeto promissor. Primeira parte da trilogia Fronteiras do Universo do inglês Philip Pullman, A Bússola de Ouro (o livro), trazia a trama de uma órfã criada em uma Universidade que descobre um universo paralelo ao seu ocultado por um grupo de fundamentalistas religiosos chamado de Magistério. Ao longo de seus livros, Pullman faz críticas severas ao catolicismo e sua relação com a Ciência e com as altas esferas de poder político, através da atuação do Magistério. Em virtude desse teor, Fronteiras do Universo foi execrado em algumas instâncias e recebeu inúmeras ações de boicote, inclusive quando chegou ao conhecimento de todos que um filme baseado na série literária estava sendo realizado em Hollywood.

Os direitos de adaptação foram comprados pela New Line, em ascensão na época após o êxito da trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson, e um elenco encabeçado por Nicole Kidman, Daniel Craig e Eva Green foi escalado. Mais do que qualquer outra obra de fantasia, Fronteiras do Universo foi anunciada de cara como a trilogia sucessora de O Senhor dos Anéis. Toda a campanha de marketing salientava que o mesmo estúdio responsável pela trilogia de Tolkien, que ressucitou o interesse do público por fantasias, estava trazendo para a audiência A Bússola de Ouro. O primeiro teaser trailer do filme reforçava essa associação ao transformar o Um Anel de Gollum e Frodo na bússola de Lyra, protagonista de Fronteiras.

O que se sabe é que, nos bastidores, as relações entre aqueles que estavam por trás das câmeras foram muito complicadas. Dois anos após o lançamento do primeiro e único filme da trilogia, o diretor inglês Chris Weitz, realizador do longa, contou como foram tensas suas reuniões com os executivos da New Line, que faziam inúmeras exigências no tom da abordagem do filme sobre o Magistério e deletaram inúmeras cenas que poderiam ter transformado A Bússola de Ouro em outro filme. Uma das exclusões mais lamentadas, por exemplo, foi o desfecho da trama que traria o esperado encontro entre a grande vilã da história, a Sra. Coulter (Nicole Kidman), e do cientista Lord Asriel (Daniel Craig). A cena, que faz mais sentido como encerramento de um episódio da história, é substituída no longa que assistimos por uma conversa ingênua entre Lyra e Roger que sugeria uma continuidade dos eventos (algo como “aguardem nossas próximas aventuras!”, o que, ironicamente, nunca aconteceu).

Quando estreou em 2007 com um marketing massivo, A Bússola de Ouro foi um grande desastre comercial, ficando menos tempo que o esperado em cartaz nos cinemas norte-americanos, o que, por si só, já encerra qualquer sobrevida de futuros projetos. A tragédia financeira só não foi maior porque o longa encontrou sucesso em outras praças de exibição na Europa, América Latina etc. No entanto, a arrecadação não foi o suficiente para a New Line bancar a continuidade, que teria que ser engatada logo, afinal, sua protagonista Dakota Blue Richards estava crescendo e a história de Pullman não tem uma evolução tão drástica assim no tempo. No final, ficou tudo por isso mesmo e não houve continuidade na trama. De saldo positivo, somente a vitória surpreendente no Oscar de 2008 na categoria efeitos especiais, derrubando o grande favorito da época Transformers.

Principe da Pérsia
Sem credibilidade: Fãs de “Príncipe da Pérsia” protestaram contra a escalação de Jake Gylenhaal para o protagonista.

 

#03. Príncipe da Pérsia

Filme: Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo

Orçamento: 200 milhões de dólares

Bilheteria: 90 milhões (EUA) + 245 milhões (outros) = 336 milhões de dólares

Críticas: 36% dos críticos aprovaram

O caso de A Bússola de Ouro permite que a gente entenda um pouco outros casos semelhantes em que os estúdios pensam que podem aplicar “fórmulas” de êxito de outras produções em novas franquias e as coisas acabam não saindo conforme combinado. Príncipe da Pérsia, por exemplo,morreu na praia” de forma parecida.

A Disney bancou a adaptação do popular game como uma possibilidade de colher os mesmos frutos que colheu com o estrondoso retorno financeiro dos três longas de Piratas do Caribe, trilogia que reativou o interesse do estúdio no desenvolvimento de filmes em live action. Tradicionalmente, a Disney é a casa das animações, mas entre o final dos anos de 1990 e o início dos anos 2000 enfrentou a baixa popularidade de suas empreitadas em razão do desgaste da tradicional narrativa do estúdio (as clássicas animações musicais) e a agressiva concorrência das novas animações em 3D. Quando Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra foi lançado em 2003, com faturamento em bilheteria que ultrapassou largamente o seu orçamento, o estúdio vislumbrou uma tábua de salvação que se firmou nas duas continuações da franquia.

Com Príncipe da PérsiaAs Areias do Tempo as desconfianças surgiram desde o início, apesar da inicial aprovação do público com a contratação do inglês Mike Newell (que foi muito bem em Harry Potter e o Cálice de Fogo). A escalação de Jake Gylenhaal como o príncipe fugitivo do título gerou reclamações de fãs mais fervorosos do game e de cinéfilos em geral. Gylenhaal não correspondia exatamente a descrição física de um persa. No entanto, não podemos atribuir ao ator a culpa do fiasco de Príncipe da Pérsia. O primeiro e único filme até que faturou bem para garantir uma possível continuação, mas como tem acontecido com as grandes produções nos últimos anos, o orçamento (o que inclui as campanhas de divulgação do longa) foi muito alto e não compensou os lucros. Assim, todos os planos iniciais de uma trilogia foram abortados.

Desventuras em Série
Indiferença: “Desventuras em Série” não fez feio, mas também não impressionou. O resultado morno não entusiasmou a Universal a dar continuidade a trama.

 

#04. Desventuras em Série

Filme: Desventuras em Série

Orçamento: 140 milhões de dólares

Bilheteria: 118 milhões (EUA) + 90 milhões (outros) = 208 milhões de dólares

Críticas: 72% dos críticos aprovaram

Escrita por Lemony Snicket, pseudônimo do autor Daniel Handler, Desventuras em Série é uma série literária composta por treze livros lançada em 1999 e que conta a história dos irmãos Baudelaire que são jogados em uma série de acontecimentos infelizes após a morte de seus pais em um trágico incêndio. A tutela de Violet, Klaus e Sunny passa pelas mãos de amigos e parentes dos seus pais e o caminho das crianças cruza com o do vilão Conde Olaf, um ator que usa suas habilidades dramáticas para enganar os tutores dos Baudelaire a fim de ganhar a guarda dos três e ficar com a fortuna herdada por eles.

A Universal demonstrou interesse na série, seguindo a tendência das adaptações de livros infanto-juvenis inspirada pelo sucesso de Harry Potter, e resolveu transformar as três primeiras obras (Mau Começo, A Sala dos Répteis e O Lago das Sanguessugas) em um único filme. Brad Silberling, diretor de Gasparzinho e do romance Cidade dos Anjos, foi contratado para comandar o longa e Jim Carrey ficou responsável por dar vida ao Conde Olaf, o que animou muita gente já que o ator seria a figura ideal para interpretar um personagem tão multifacetado quanto ele. Meryl Streep, Jude Law, Dustin Hoffman e Catherine O’Hara completaram o elenco com participações pontuais. Emily Browning (de Beleza Adormecida, Pompeia e Sucker Punch, criança na época), Liam Aiken e as gêmeas Kara e Shelby Hoffman foram escalados para viver os irmãos Baudelaire.

O filme recebeu três indicações ao Oscar (direção de arte, figurino e trilha sonora), venceu uma estatueta do prêmio (melhor maquiagem), recebeu críticas moderadas, as crianças foram aprovadas, bem como a interpretação de Jim Carrey, tudo conforme o figurino. Contudo, Desventuras em Série desapontou com sua pálida performance comercial e por isso também não foi adiante como franquia cinematográfica.

Guia do Mochileiro da Galáxia
O peculiar humor ingles não ajudou “O Guia do Mochileiro das Galáxias” a ser um projeto mundialmente bem sucedido.

 

# 05. O Guia do Mochileiro das Galáxias

Filme: O Guia do Mochileiro das Galáxias

Orçamento: 50 milhões de dólares

Bilheteria: 51 milhões (EUA) + 53 milhões (outros) = 104 milhões de dólares

Críticas: 60% dos críticos aprovaram

Série de ficção-científica inglesa concebida por Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias começou como um programete de rádio na BBC Radio, transformou-se em uma série de seis livros, série de TV, jogo de computador, HQ para só então chegar às telonas em 2005.  O Guia do Mochileiro das Galáxias segue a jornada de um grupo incomum pelo espaço a partir da captura de Arthur um inglês completamente azarado. Entre os personagens que o acompanham estão o deprimido e existencialista robô chamado Marvin e Trillian, uma garota que Arthur conheceu em uma festa.

A produção foi uma colaboração entre produtores norte-americanos e ingleses e chegou a eles a partir do êxito que a história tinha nessas diversas plataformas. No entanto, o caráter massivo do cinema, e necessário a esse tipo de produção com orçamento razoável, tornaram O Guia do Mochileiro das Galáxias refém dos números de bilheterias.

Ainda que parte da crítica tenha caído de amores pelo diretor Garth Jennings, que contou com a colaboração do próprio Adams na adaptação, e um elenco de atores promissores na ocasião – e hoje reconhecidos pelos cinéfilos como Martin Freeman (O Hobbit), Zooey Deschannel e Sam Rockwell, contando ainda com as vozes de Stephen Fry, Alan Rickman e Helen Mirren- , em números, o filme não agradou mundialmente. Um dos maiores entraves na popularidade do longa foi o típico humor inglês que funciona tão bem nas fronteiras do país, mas encontra resistência em mercados mundiais.

 

Fontes: Informações referentes a orçamento e bilheteria foram retiradas do site Box Office Mojo, já as aprovações da crítica correspondem a porcentagem de críticos que deram cotações positivas aos longas no RottenTomatoes.com

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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