Crítica: Uma Dobra no Tempo

A Walt Disney Pictures é mundialmente conhecida pelos seus sucessos estrondosos de bilheteria, proporcionando a ela um selo de qualidade e bons resultados. O velho Mickey Mouse representa um aglomerado de Oscars, uma montanha de dinheiro e um universo mágico amado por milhões de pessoas. Contudo, até mesmo o senhor Mouse pode cometer erros, como no caso da nova produção da Disney em parceria com a Whitaker Entertainment.

Uma Dobra no Tempo, dirigido por Ava DuVernay, chegou aos cinemas brasileiros nessa semana com a promessa de ser um sucesso entre as crianças e os fãs do livro. Baseado no romance homônimo escrito por Madeleine L’Engle, em 1962, o filme é uma ficção fantástica que retrata de um universo científico e criativo. De acordo com a diretora, o longa foi destinado para um público infantil, fazendo com que este se inteirasse da parte inicial desse vasto universo criado por Madeleine há décadas atrás. Existe um único problema em todo esse plano, ele não foi bem executado. Muito pelo contrário, o resultado do filme é catastrófico.

O casal de cientistas Dr. Alexander e Dra. Kate Murry (Chris Pine e Gugu Mbatha-Raw) trabalham para o governo americano e estudam sobre as possibilidades de viagens dimensionais, através de uma dobra no tempo. Um dia, de maneira inesperada, Alexander desaparece. Após a chegada de uma estranha mulher (Reese Witherspoon) em suas vidas, Meg e Charles Walter (Storm Reid e Deric McCabe, respectivamente), filhos do casal de cientistas, irão embarcar numa jornada para salvar o pai. Mas, para isso, eles dois contarão com a ajuda de três mulheres de outra dimensão e um colega de sala de Meg para deter o mal que está aprisionando seu pai em outro mundo.

O longa-metragem representa o capítulo inicial de uma jornada que foi dividida pela autora da saga em cinco livros. O filme, entretanto, não apresenta ao público nenhuma possibilidade de continuação. Ele simplesmente acaba da maneira mais estranha possível. As atuações são completamente artificiais e forçadas, como se todo o elenco fosse constituído por robôs e Kristens Stewarts. Até mesmo os efeitos especiais falham em alguns momentos – mas falham de uma maneira muito nítida e incômoda. O único acerto da diretora foi dizer que a película é destinada para crianças bem pequenas, afinal elas vão se atentar as cores e a graça do filme porque, de resto, nada se salva.

Ava é uma promissora diretora, roteirista e produtora. Ganhou notoriedade em Hollywood graças ao extraordinário Selma: Uma Luta pela Igualdade, de 2014, e ao poderoso documentário A 13ª Emenda, de 2016, e agora, o esperado pelo público era que seu novo filme fosse algo lindo em todos os aspectos cinematográficos. Ava não consegue dessa vez. A obra como um todo é repleta de falhas que fogem do alcance da diretora e terminam por dominar toda a produção, exatamente como o Aquilo – o pior vilão já feito – tenta fazer com as personagens da película.

O roteiro feito por Jennifer Lee (cujo também escreveu Detona Ralph, de 2012, e Frozen, de 2013) em parceria com Jeff Stockwell (Ponte para Terabítia, de 2007) é extremamente confuso, cheio de lacunas e não consegue prender a atenção de ninguém. Ao decorrer do longa, o público tenta se apegar a alguma das personagens, mas tudo acontece de maneira tão rápida e rasa que é impossível criar o vínculo espectador-personagem. Além disso, os acontecimentos são mal costurados, frágeis e bobos. Mesmo trabalhando com um conto infantil e com o objetivo claro de entreter e focar nesse público, deveria haver uma obrigação lógica em agradar também aqueles que estão acompanhando as crianças na sessão, mas isso não ocorre. Qualquer pessoa minimamente razoável vai querer deixar a sala de cinema após a primeira bizarrice do filme – coisa que não demora nem 20 minutos para acontecer.

Para alívio (ou nem tanto) de quem assiste Uma Dobra no Tempo, existem duas coisas que são boas nesse emaranhado de desastres. O ator mirim Deric McCabe é uma distração agradável durante o filme. Com toda a sua desenvoltura e talento, ele é capaz de trazer uma pitada de emoção nesse abismo de desânimo – isso até que o roteiro sem nexo destrua a sua atuação com aquela sequência final. A outra válvula de escape é a mensagem. Por mais clichê que seja, a Disney manteve ao menos o seu padrão de prestar lições de vida enriquecedoras para o público infantil.

A dúvida que resta acerca dessa produção é como será a sua desenvoltura ao decorrer dessa primeira semana. O resultado final dessa história nada mágica e pouco feliz será definido em breve. Números podem enganar. Uma bilheteria estrondosa ou razoável pode significar apenas que a Walt Disney Pictures tem um poder assustador atuando nas pessoas, fazendo com que até o seu lixo se torne luxo.

Assista ao trailer!

 

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