Crítica: Todo o Dinheiro do Mundo

Uma coisa não pode ser negada. É louvável a maneira como o veterano Ridley Scott conseguiu contornar a tormenta que tomou conta de Todo o Dinheiro do Mundo às vésperas do seu lançamento comercial, entregando uma obra que não foi afetada criativa e artisticamente por suas refilmagens. Para quem não está por dentro dos acontecimentos, Scott decidiu refilmar as cenas protagonizadas por Jean Paul Getty no filme porque Kevin Spacey, ator que o interpretava, se envolveu num número sem fim de denúncias de assédio sexual em 2017. Em dezembro, o filme estrearia comercialmente e um mês antes Ridley Scott substituiu o ator por Christopher Plummer. É certo que o trabalho não foi muito tendo em vista que o personagem apesar de importante para o filme aparece pouco e na maioria das vezes sozinho. No entanto, há que se reconhecer a habilidade com que o diretor conseguiu sair rapidamente de uma saia justa como essa.

Todo esse contexto é sintomático de uma característica do próprio Todo o Dinheiro do Mundo. Trata-se de um filme que é cercado de indícios da habitual competência e adaptabilidade de Ridley Scott a qualquer gênero ou trama. Tendo passeado por ficções científicas (Blade Runner) e épicos (Gladiador), Scott sempre demonstrou ter a habilidade de atender às demandas de quaisquer roteiros que caiam em suas mãos. Com Todo o Dinheiro do Mundo não seria diferente, o filme destoa no tom, no gênero e na ambiência dos seus dois últimos títulos , por exemplo, Alien: Covenant Perdido em Marte. Aqui, Scott se interessa pela história real da família Getty tendo como gatilho da sua trama o sequestro do jovem John Paul Getty de 16 anos nos anos de 1970 e o conflito entre a mãe do rapaz e seu sogro Jean Paul Getty, um magnata do petróleo que por avareza recusou pagar o resgate do neto.

Apesar de correto e feito com disciplina pelo seu diretor, é preciso notar que, como alguns exemplares na carreira do realizador, Todo o Dinheiro do Mundo também sofre por um aspecto decorrente da mesma adaptabilidade de Scott que mencionamos anteriormente: o seu olhar burocrático ou protocolar para certas histórias. Como em outros dos longas de Ridley Scott, ainda que exiba uma história tecnicamente competente e com pouquíssimos elementos que possam depor contra o seu resultado, Todo o Dinheiro do Mundo parece um filme que não tem pulso ou “sangue” que corra por suas veias. Ainda que crítico e claramente tendo algo de pertinente a dizer sobre seu tema central, a ganância, Scott insiste em se manter distante de sua trama e dos seus personagens, o que faz com que o longa não renda uma experiência minimamente envolvente para um espectador que passa mais de duas horas acompanhando a sua sucessão de acontecimentos.  

Atores como Michelle Williams e Christopher Plummer estão bem em seus papéis, mas poderiam estar melhores caso Scott buscasse se aproximar um pouquinho mais das relações afetivas (ou ausências de relações afetivas) da família Getty. Está claro que a frieza com que Scott conduz o sequestro do neto de Getty e toda a tensa relação dele com sua nora está vinculado àquilo que o realizador tem a dizer sobre o próprio personagem de Plummer, um sujeito que praticamente se isolou do mundo para preservar sua riqueza. A proposta de Scott parece ser a seguinte: tornar Todo o Dinheiro do Mundo um filme frio sobre a natureza corruptora do dinheiro porque assim eram as relações que o velho Getty estabeleceu com os membros da sua família. No entanto, em alguns momentos, isso acaba sendo um problema para a obra, sobretudo quando envolve outros personagens como Gail Harris (Williams), uma mulher evidentemente no limite das suas emoções pelo sequestro do filho, mas com quem, muitas vezes, o público não consegue estabelecer elos mais fortes justamente pela insistente frieza com que Scott se relaciona com sua história e protagonistas.

Todo o Dinheiro do Mundo é correto pela usual competência do seu diretor, o filme é um thriller sombrio e cheio de tensão com um olhar mordaz para as relações sociais e familiares pertencentes às esferas por onde circulam as grandes fortunas do mundo, mas também é um longa que não marca o espectador por características que também são próprias à filmografia de Ridley Scott. Incapaz de provocar empatia no público com a trama do resgate desesperado de um filho por sua mãe, o filme tem muito a dizer sobre os temas que aborda. No entanto, às vezes isso é muito pouco para garantir a atenção do espectador e fazer com que sua obra marque de alguma forma o cinema ou a biografia do seu realizador.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira465 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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