Crítica: Rua Cloverfield, 10

Em 2007, J.J. Abrams, ainda colhendo os frutos da série de TV Lost, gerou muita expectativa para os fãs de filmes de monstros com a viralização de materiais a respeito do longa Cloverfield – Monstro, sua empreitada como produtor nos cinemas. Tratava-se de um filme calcado em recursos estéticos e narrativos do found footage, tipo de cinema que simula a captura de imagens por câmera amadora para contar uma história de ficção que passou a ser usado à exaustão por realizadores do gênero terror. O filme estreou em 2008 e apesar de ser muito eficiente em sua linguagem, com uma narrativa tensa que acompanhava um grupo de jovens tentando sobreviver a um ataque alienígena em Nova York, sofria do mal que parte das produções que se apoiam no recurso sofrem, não conseguindo tornar a filmagem “amadora” orgânica a sua própria história. Eis que em 2016, J.J. Abrams, através das mesmas estratégias de viralização pela internet e ofertando o mínimo que pôde sobre a sua trama, traz para o público Rua Cloverfield, 10, um derivado do cultuado filme de 2008 que não é uma continuação dos eventos narrados ali.

Rua Cloverfield, 10 inicia sua história com um acidente de carro na estrada sofrido por Michelle, personagem de Mary Elizabeth Winstead. A moça é socorrida por Howard, papel de John Goodman, que cuida dos seus ferimentos, mas a leva para um bunker construído por ele mesmo em sua propriedade rural. Alegando proteger Michelle de um ataque químico que tornou impossível a vida de qualquer ser vivo na Terra, Howard diz para a moça que ela deve viver com ele e com um outro rapaz que também procurou abrigo na sua propriedade pelo período de dois anos até que o planeta volte a ser habitável. Acontece que Michelle começa a duvidar das boas intenções de Howard, o que a faz supor que toda essa teoria apocalíptica criada pelo seu “protetor” seja fruto da sua cabeça paranóica.

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O público que assistir Rua Cloverfield, 10 em busca de conexões da trama com Cloverfield – Monstro pode sair frustrado. Aparentemente, até o presente momento, não há conexão, nem mesmo cronológica entre os eventos dos dois filmes. A única ligação possível entre os longas é que ambos possuem como evento catalisador invasões alienígenas. Lá pelo final do filme, o longa estabelece uma possível vinculação entre os eventos, mas isso não é o carro-chefe ou a grande preocupação da obra. Nem mesmo o found footage de Cloverfield – Monstro é usado aqui. Os diretores também são diferentes. Enquanto o filme de 2008 era conduzido por Matt Reeves, que atualmente comanda a nova franquia Planeta dos Macacos, Rua Cloverfield, 10 é dirigido pelo estreante Dan Trachtenberg que surpreende por apresentar o mesmo pulso e ritmo na condução de uma trama de tensão ascendente, produzindo um efeito semelhante na fita àquele que Reeves apresentava em Cloverfield – Monstro. Assim, o espectador tem garantida durante toda a projeção da obra, uma trama ágil e de deixar os nervos de qualquer um à flor da pele.

Adotando uma estética mais “convencional” que Cloverfield – Monstro, Rua Cloverfield, 10 se beneficia pela ausência do found footage, que, como já antecipado, ao mesmo tempo que conferia uma linguagem interessante e que estava à serviço da construção de uma atmosfera apavorante no filme de 2008, não conseguiu ganhar a organicidade necessária na própria história. Liberto desse recurso, o diretor Dan Trachtenberg realiza um filme sem eventuais estranhamentos visuais que prende o espectador no mesmo clima de paranoia vivenciado por sua protagonista, encurralada pela dúvida acerca dos riscos que estão fora e dentro do bunker do personagem de John Goodman. Trachtenberg confere um ritmo tão frenético e angustiante para a sua história como aquele que Reeves conseguir compor em Cloverfield – Monstro, com o adendo de que a trama de Rua Cloverfield, 10 está muito mais aberta a momentos de respiro e introspecção dos seus personagens do que o longa de 2008.

Beneficiado pelas performances comprometidas de Mary Elizabeth Winstead, impecável como a grande heroína da história, e John Goodman, muito interessante na composição de um tipo que inspira sentimentos dúbios não apenas na sua protagonista mas também na plateia, Rua Cloverfield, 10 é um filme inquietante de execução precisa, mexendo com os nervos do público desde as suas primeiras sequências. Como estreia e sob o apadrinhamento de J.J. Abrams, o diretor novato Dan Trachtenberg soube aproveitar muito bem a oportunidade que lhe foi dada, realizando um filme psicologicamente tenso que serve muito bem aos propósitos dos gêneros, formatos e temas com os quais procura flertar como suspense, a paranoia pós-apocalíptica, os filmes de invasão alienígena etc.

 

Wanderley Teixeira391 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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