Crítica: Raw

Em algum lugar entre o bizarro e o sedutor está localizado Raw, tradução em inglês arranjada pela Netflix Brasil para o terror francês Grave da diretora Julia Ducournau, que chega esse mês no site de streamings. O filme ganhou fama mundial no último Festival de Toronto quando foi noticiado que alguns espectadores desmaiaram na sua exibição durante o evento. E motivos não faltam! Raw é, de fato, um filme para estômagos fortes. Ao mesmo tempo, também é daqueles títulos que grudam o espectador na tela até o fim, tamanha a curiosidade de saber para onde sua realizadora nos irá levar com o banho de sangue que promove na tela.

O longa é centrado em Justine uma jovem estudante de medicina veterinária que acaba de chegar à universidade onde estuda sua irmã mais velha Alexia. Como caloura, Justine passa por toda uma dificuldade de adaptação à vida fora da casa dos pais já que tem que morar no campus universitário onde estuda. Sem experiência sexual alguma, a jovem divide o quarto com Adrien, um rapaz por quem acaba se afeiçoando e que se assume homossexual na universidade. As coisas se complicam quando Justine se descobre interessada em comer carne humana, um desejo que cresce incontrolavelmente e que colide com todas estas novas questões que surgem em sua vida.

Como uma boa história de vampiros, e a trilha de Jim Williams parece propositalmente evocar temas musicais de filmes do gênero, as personagens canibais de Raw atraem e são atraídas por suas vítimas por um ímpeto sexual, que também tem relação com os hormônios à flor da pele e a liberdade sexual de um campus universitário habitado por calouros que tem uma voracidade por tudo relacionado à vida fora da vigilância dos seus pais. Ao mesmo tempo, as canibais andam pela universidade como verdadeiras zumbis e seus ataques às vítimas passam em questão de segundos dessa ambiência sexualizada para  algo mórbido, macabro…

Um mérito do roteiro e da direção, ambos de Julia Ducournau, é saber dosar a quantidade de informações que fornece ao espectador, acompanhando numa crescente o estado de inquietação da sua protagonista que resiste à natureza canibal revelada à própria. Assim como Justine é tomada por um desejo cada vez maior de fazer aquilo que conscientemente sabe que não deveria fazer, como uma espécie de maldição em seu gene, o filme é tomado por um tom febril que culmina num desfecho infeliz para alguns de seus personagens.

Em Raw, Ducournau acerta não apenas no tom da sua história, mas também na cartela de referências do gênero que se apropria para criar uma mitologia própria que está à serviço de toda uma potencial carga simbólica do filme ao receber uma ambiência universitária. Esta perspicácia em entender que Raw ganha muito mais se cercando dessas escolhas e sendo perturbador sem ser gratuito ou sensacionalista, mas incorporar seus elementos gore à jornada de amadurecimento da sua protagonista e torná-los importante para tal, faz valer cada decisão de Ducournau no resultado desse filme. É interessante ao espectador notar, por exemplo, como uma informação lançada pela diretora no início do longa, o fato de Justine ser vegetariana e sua família temer sua aproximação com qualquer tipo de carne, nos vai ser útil para compreender o canibalismo da personagem na cena final.

Raw se junta a já tão propagada leva de filmes de terror dessa geração no reverenciado pós-terror. Porém Raw consegue se estabelecer como uma narrativa palatável, algo que alguns deles não conseguem, se interessando em dialogar não apenas com nichos cercados de repertório cinéfilo, mas com uma audiência que consegue compreendê-lo e localizá-lo enquanto gênero a partir de uma série de marcas bem apropriadas por sua realizadora. Vale cada segundo.

Raw está disponível no catálogo Netflix.

Assista ao trailer do filme (SOMENTE PARA MAIORES DE 18 ANOS) : 

 

Wanderley Teixeira430 Posts

<p>Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.</p>

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