Crítica: Pequeno Segredo

Independente de todo o processo de escolha do candidato brasileiro a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2016 e que culminou com o preterimento de Aquarius e a eleição de Pequeno Segredo, todos devem assistir ao filme sobre a família Schürmann desprendidos de toda e qualquer pré-concepção. É o ideal e o mais recomendável. Ainda assim, mesmo com toda boa vontade do mundo, é possível que você constate que os critérios de escolha da comissão foram equivocadas e que estamos diante de um filme que não faz jus a uma competição com títulos como Toni Erdmann ou Julieta, de Pedro Almodóvar. Pequeno Segredo não só é um filme menor e pouco marcante em nossa cinematografia como também tem tudo para ser esquecido em um rápido espaço de tempo.

Investindo numa tentativa de prever o resultado das votações da Academia de Hollywood, categorizando o longa como “filme de Oscar” (ainda numa ultrapassada concepção reproduzida no senso comum de que as escolhas e os gostos do grupo de votantes são previsíveis), a comissão do MinC fez o seu usual papel de “Mãe Diná” e esqueceu de olhar para a obra em si, que apesar de não ser de todo intragável, possui defeitos crassos e escancarados. Claro que todo grupo de votantes têm suas características predominantes e muitas vezes o jogo político impera nas premiações, mas o que importa mesmo numa competição é a qualidade da obra e títulos como Amor, A Grande Beleza, Ida e O Filho de Saul, vencedores do Oscar de filme estrangeiro, correm por fora daquilo que se considera como “filme de Oscar”. Mais, em categorias centrais, como explicar o êxito de títulos como Onde os Fracos não têm Vez ou mesmo Birdman? Ambos não têm cara de Oscar.

Pequeno Segredo conta parte da vida da família Schürmann, conhecida pelas histórias das suas viagens marítimas ao redor do mundo. Dirigido por um dos filhos de Heloísa e Vilfredo Schürmann, David Schürmann, o longa cruza a trajetória da família com a de outros núcleos dramáticos: um estrangeiro e sua história de amor com uma brasileira e um casal de australianos. No longa, as tramas se encontrarão para entrar mais a fundo na história de Kat, filha mais nova dos Schürmann falecida em 2006, que entrava na adolescência e somatizava uma série de conflitos potencializados pela fase e por alguns problemas de saúde que já vinha apresentando há alguns anos.

No filme, Schürmann parece investir num olhar pessoal para a história explorando, sobretudo, a relação entre sua mãe Heloísa e a irmã. Acontece que alguns diretores conseguem relatar eventos pessoais sem cair nas armadilhas do olhar excessivamente parcial para os eventos narrados e personagens que desfilam na tela. Esse foi o caso, por exemplo, de Elena, cuja realizadora Petra Costa conseguira contar com muita sensibilidade a história de vida da sua irmã Elena, e de maneira muito honesta e humana, revelando facetas até mesmo obscuras de alguém  que fora tão importante para a sua formação pessoal sem com isso perder o afeto por sua protagonista.

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David Schürmann não consegue fazer o que Petra Costa realizara em seu documentário “autobiográfico”. Ao ter como protagonistas do seu filme sua mãe e sua irmã, Schürmann realiza um longa repleto de chavões do melodrama familiar, não sabendo inclusive se escancara de vez sua veia assumidamente açucarada ou se adere à chave de um “projeto” de cinema de arte, com direito a quadros que sugerem uma riqueza simbólica.  O filme descamba para diálogos e cenas clichês que supostamente conferem um ar beato a vida das suas personagens, sobretudo Heloísa Schürmann retratada como alguém isento de falhas ou contradições, e a garota Kat. Em contrapartida, transforma a avó da menina, interpretada por Fionnula Flanagan (de Os Outros, do Alejandro Aménabar), em uma vilã de desenho animado.

Não há na condução de Schürmann um equilíbrio entre o filho, o irmão e o cineasta interessado em contar uma história para uma plateia mais ampla. As emoções parecem entorpecer o realizador que transforma figuras reais em personagens unidimensionais que optam pelo bom mocismo ou pela vilania cartunesca. Em outros departamentos, Pequeno Segredo volta-se para chavões igualmente ultrapassados como a trilha sonora intrusiva de Antonio Pinto (o mesmo que fora responsável pela obra-prima de Central do Brasil) e a fotografia que emula a assepsia de comerciais de margarina ou leite em pó, com direito a Feng Shui e tudo.

Pequeno Segredo também sofre com o ritmo arrastado, demorando a engatar dramaticamente. Até o público de fato se interessar pelas suas personagens e por seus dramas já se passaram quase uma hora de filme. Até lá, somos apresentados a uma série de histórias e núcleos paralelos, cujos conflitos e dinâmicas de relacionamento (a puberdade da garota, o romance entre o estrangeiro e a brasileira e os problemas do casal de idosos) geram pouca empatia na plateia.

O filme é beneficiado pela impactante história da família Schürmann, que, em dado momento, até se coloca à frente dos incômodos efeitos que as escolhas esquemáticas do cineasta proporcionam. A relação entre Heloísa e Kat, por exemplo, é algo que acaba se impondo emocionalmente no longa, abrindo espaço, inclusive, para um desempenho sensível de Júlia Lemmertz (Do Começo ao Fim). Contudo, até mesmo quando vai abordar o falecimento de Kat, David Schürmann prefere metaforizar, investindo em paralelos com contos infantis através de uma associação entre a garota e as fadas.

Não funcionando nem mesmo como relato pessoal, já que todo o afeto investido pelo diretor na história do filme resulta em escolhas ineficazes para uma aderência emocionalmente espontânea do público com a obra, Pequeno Segredo resulta num filme estranho. De um lado, temos uma forte história de vida que merece respeito, não há dúvidas. Por outro, a maneira como Schürmann resolve contar essa história derrapa em um sentimentalismo exagerado que faz com que ele esqueça de enxergar suas personagens e sua própria vida de maneira mais humana, problematizante e, consequentemente, mais interessante e empática.

Se o intuito da comissão do MinC para o Oscar era escolher, dentre os filmes à sua disposição, aquele que acessasse o público através da emoção, o argumento revelou-se uma grande furada. Tal qual a escolha estapafúrdia da mesma comissão por Olga em 2004 com argumento semelhante, Pequeno Segredo não reúne elementos o suficiente para sensibilizar o espectador, tamanha artificialidade dos recursos usados ao longo. A sensação que fica é a de que a vida da família Schürmann merecia um filme melhor.

Assista ao trailer do filme: 

 

Wanderley Teixeira391 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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