Crítica: Os Incríveis 2

A arte tem um dos papéis sociais mais diversificados. Ela aproxima, inspira e emociona as pessoas; move economias; desenvolve mentes e expande repertórios; além de ser o meio de vida de milhares. Dentre as mais belas artes está o cinema, a amada sétima arte. Capaz de alcançar as mais distintas gerações, a 7ª arte cativa mais e mais espectadores com seus encantadores, marcantes e brilhantes filmes. Vínculos de fidelidade são feitos por meio de sagas, franquias e películas relacionadas ao universo compartilhado de dado fã. Essa semana o público brasileiro pôde vivenciar isso com a estreia do tão aguardado Os Incríveis 2.

Após 14 anos de espera, todo o mundo finalmente poderá conferir a nova aventura da família Pêra. Repleta de ação, momentos hilários e uma discussão social muito madura, a sequência dos heróis mais queridos da Pixar chega aos cinemas do mundo quebrando recordes. Com apenas duas semanas que estreou nos Estados Unidos, Incredibles 2 (título original) teve a maior bilheteria de abertura da história da produtora de animações e já arrecadou quase que o mesmo valor mundial do longa-metragem anterior.

Três meses após derrotarem o Syndrome, a família Pêra continua atuando sob suas identidades secretas. Quando a tentativa de impedir o Escavador de atacar Metroville falha, os Incríveis se veem mais uma vez obrigados a esconderem os seus poderes permanentemente. No entanto, o magnata das comunicações, Winston Deavor (Bob Odenkirk), está disposto a reconquistar o apoio e a confiança do público para mudar a lei contra os super. Para isso, os papéis dentro da família Pêra vão precisar se inverter. Helena/Mulher Elástica (Holly Hunter) terá que assumir o papel de símbolo do movimento enquanto seu marido, Beto/Senhor Incrível (Craig T. Nelson), enfrentará o desafio que é cuidar de sua super família.

Há mais de dez anos, o diretor e roteirista Brad Bird (O Gigante de Ferro, de 1999, Os Incríveis, de 2004, e Ratatouille, de 2007) disse em entrevista que ele tinha uma missão com os fãs de seu trabalho e, por isso, que só faria uma continuação da história da família Pêra se fosse possível entregar um trabalho melhor do que o anterior. Hoje o público tem a certeza de que Bird cumpriu com sua palavra e entregou um longa mais incrível que sua primeira história. O talentoso diretor – cujo também é o dublador que dá voz a fantástica Edna Moda – se mostrou mais uma vez um artista inteligentíssimo e sensível.

Tendo em sua essência a obrigação de cativar todas as idades, fazer uma animação é bastante desafiador no quesito enredo. A necessidade de prender a atenção do público infantil ao mesmo tempo que entretém os espectadores mais maduros é a parte mais difícil do gênero. E é por essa razão que Brad Bird é inigualável. Sua narrativa diverte a mente infantil enquanto faz com que mentes maduras discutam sobre problemáticas pós-modernas. Na sequência sobre a super família, Bird continua a tratar problemáticas cotidianas do século XXI – como o papel dos pais no desenvolvimento dos filhos, o heroísmo por trás das funções do lar, relacionamentos familiares e amorosos, empoderamento feminino etc – de uma forma ainda mais profunda.

O roteiro de Brad Bird precisa ser parabenizado em diversos aspectos – como a coerência com a primeira história e seus personagens e o desenvolvimento harmonioso de cada um dos integrantes da família Pêra – contudo o destaque maior vai para a metáfora por trás de toda a história. Desde o primeiro longa-metragem, Bird tenta levar para as telonas uma discussão sobre vida adulta e responsabilidades. Com os dois opostos, Helena e Beto, o diretor mostra que amadurecer é uma difícil tarefa e que acontece de formas diferentes para cada pessoa. Em sua nova história, o foco será na importância de um amadurecimento das relações. Numa família, todos precisam passar pelas mais variadas funções para que desempenhem o seu melhor papel, seja esse de pai, mãe ou filho(a). E é justamente por isso que aconteceu a inversão dos papéis familiares propostos pelo primeiro longa. A Mulher Elástica passará a prover a família – e ainda terá o seu momento de glória, mostrando sua força como mulher – e o Senhor Incrível terá que a aprender uma das maiores lições de sua vida: Ser um bom pai é um dos atos mais heroicos que alguém pode fazer; como a própria Edna Moda diz em um dos trailers liberados pela Disney/Pixar. Portanto, a nova (e brilhante) proposta do diretor e roteirista é fazer uma reflexão sobre amadurecimento a partir de cada um dos personagens conhecidos pelo público, dando um destaque para Helena e Roberto.

Para potencializar o brilhantismo desse roteiro, a parte técnica do longa é impecável. Como jogada muito inteligente da produção, foi mantida quase que em completude a equipe técnica do primeiro filme, ocorrendo apenas uma mudança com a entrada de Mahyar Abousaeedi (O Bom Dinossauro, de 2015) como novo diretor de fotografia. As imagens do longa são pura perfeição. O detalhamento nos desenhos e a verossimilhança com a realidade são impressionantes. O premiado Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras, de 2010) traz para a narrativa a nostalgia do passado e a força renovadora do presente através de sua composição. A trilha sonora leva o espectador às suas memórias da infância, diretamente para o momento no qual assistiu Os Incríveis pela primeira vez. Para completar a maestria técnica ainda tem o trabalho excepcional de Stephen Schaffer (WALL-E, de 2008) e a sua montagem extraordinária que traz o equilíbrio perfeito para esse filme de super heróis.

A beleza d’Os Incríveis 2 está no cuidado com o qual o longa foi elaborado. Uma produção repleta de planejamento desde a concepção da ideia de uma sequência até a sua execução fazem dessa obra um produto diferenciado. A delicadeza de Brad Bird ao dar continuidade as personagens amadas por milhões de pessoas fez a diferença no resultado desse filme. A continuação da vida da família Pêra foi feita com muito carinho. Carinho esse que resultou em uma narrativa inteligente, madura e harmoniosa. O ponto-chave que transformará essa obra em um marco na história da Disney/Pixar é justamente a profundidade de tudo que rodeia a trama e a elaboração dela. Esta é uma película que faz jus aos quatorze de espera. E o resultado final é um largo sorriso no rosto de cada uma das crianças – sejam elas crianças de alma ou no sentido literal da palavra – que deixam a sessão completamente extasiadas com o resultado.

Assista ao trailer!

 

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