Crítica: Os Oito Odiados

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Repetições: Os Oito Odiados mantém as marcas do filme do realizador, mas acaba se mostrando como um dos seus filmes mais efêmeros.

 

Em seu anunciado oitavo longa-metragem, Quentin Tarantino reitera elementos que são marcas do realizador ao longo de toda a sua carreira: os diálogos afiados, a estrutura narrativa por vezes acronológica, muita violência e as dezenas de referências a todos aqueles filmes que são cultuados pelo realizador. Os Oito Odiados fortalece suas origens tarantinescas ao trazer para sua trama todos esses recursos. É bem verdade que o longa acaba não sendo o mais memorável da carreira do diretor e em determinadas situações suas marcas de autoria soam como repetição, mas em mais de três horas de projeção, o realizador mantém o espectador atento a sua história e a seus personagens trabalhando um domínio narrativo que poucos cineastas contemporâneos possuem.

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Homem de confiança: Samuel L. Jackson mais uma vez brilha em um filme do realizador. Na foto, ao lado de Walton Goggins

 

Em Os Oito Odiados, Quentin Tarantino traz a história de John Ruth (Kurt Russell), um carrasco que em sua viagem leva como prisioneira a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh). Ruth captura Daisy a fim de trocá-la por uma volumosa quantia em dinheiro como recompensa. No caminho, Ruth e Daisy enfrentam como dificuldade uma violenta nevasca e se deparam com um caçador de recompensas (Samuel L. Jackson) e um homem que acaba de ser empossado como xerife de uma cidade (Walton Goggins). Os quatro acabam se juntando e buscam abrigo em um armazém até que o temporal passem. Lá, eles conhecem quatro sujeitos que também estão no local aguardando a nevasca passar. No decorrer da trama, os oito personagens vão descobrindo os segredos dos seus companheiros de abrigo e, isolados do restante do mundo e obrigados a conviver  no mesmo local, acabam entrando em um inevitável confronto.

Assim como fizera em Django Livre, em Os Oito Odiados, Tarantino retorna ao western. Contudo, este filme do realizador é bem diferente do seu longa de 2012. Aqui, Tarantino surge mais descompromissado com propósitos que vão além do entretenimento e se por um lado isso é bastante positivo pois permite que o realizador se entregue aos extremos da sua própria assinatura cinematográfica, por outro, não deixa de trazer para Os Oito Odiados uma certa sensação de repetição. Assim como seu segmento no projeto Grindhouse, o filme À Prova de Morte, Os Oito Odiados acaba mostrando-se como um bom entretenimento, porém esquecível ao final da projeção. Não há personagens memoráveis ou diálogos e cenas a se destacar como em Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, Bastardos Inglórios ou mesmo Django Livre, pelo qual confesso ter algumas reservas, mas reconheço as qualidades. A sensação após uma sessão de Os Oito Odiados é que a narrativa que nos foi apresentada tem uma correta execução, mas de que tudo é relativamente efêmero.

Elenco: Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh e Bruce Dern são alguns dos atores afiados que Quentin Tarantino dirige em seu novo filme

 

Tarantino acerta mais uma vez na escalação e na condução do seu elenco. Como destaque há a marcante presença de Jennifer Jason Leigh como a prisioneira Daisy Domergue e, claro, Samuel L. Jackson que como o caçador de recompensas Marquis Warren demonstra mais uma vez que talvez não exista ator no mundo que compreenda mais as palavras e o olhar de Tarantino para os seus personagens do que ele. Há ainda que se pontuar os trabalhos de Kurt Russell, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e Channing Tatum em performances equilibradas e orgânicas ao universo proposto pelo diretor.

Longe de ser um dos melhores filmes de Tarantino, mas também bem distante de um desastre cinematográfico – afinal, com um diretor consciente da linguagem cinematográfica e com o repertório como Tarantino dificilmente o filme cairia nessa zona de perigo – Os Oito Odiados agrada sobretudo aos fãs do estilo do cineasta. É certo que o longa não representa nada que já não tenhamos visto Quentin Tarantino fazer e que a “luz vermelha” de alerta pode começar a piscar para o realizador sinalizando que, de alguma maneira, ele tem que seguir outros caminhos para sair de uma relativa zona de conforto que ele mesmo criou (com dois filmes no gênero a cota de westerns do Tarantino já está mais do que cumprida, por exemplo), mas o filme apresenta uma narrativa construída com fluidez e domínio, entretendo a plateia com a usual assinatura do cineasta. Esse mérito, ninguém pode lhe tirar.

 

Wanderley Teixeira430 Posts

<p>Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.</p>

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