Crítica: Meu Rei

Integrante da seleção oficial do Festival de Cannes em 2015, Meu Rei é um filme que aborda a possibilidade de intensas relações amorosas apresentarem, com o tempo, sequelas psicológicas tão severas que beiram a patologia. A jovem realizadora Maïwenn, que tempos atrás chegou ao circuito brasileiro com Polissia, pretende explorar esse lado do amor através de uma relação particular. O que se deseja retratar é um tipo de relação que costuma causar incômodo e até mesmo rejeição por uma parte da plateia de cinema, mas que sempre é capaz de formar obras que encontram reflexão crítica e empatia dentro da sua própria melancolia e pessimismo.

Meu Rei é um filme que trata sobre o amor, um sentimento que, no caso dos personagens da obra, é tão intenso e avassalador que é capaz de proporcionar àquele que é atingido pelo mesmo, efeitos colaterais que vão de encontro às sensações de bem estar e plenitude às quais  a realização amorosa costuma ser associada com muita frequência. Em termos comparativos, o filme da realizadora tem uma proposta parecida com a de exemplares contemporâneos bem conhecidos como Closer – Perto Demais, Namorados para Sempre, Amantes, Apenas uma Noite e a trilogia Antes do Amanhecer de Richard Linklater, expondo as relações amorosas aos desafios impostos pela realidade, sem os floreios de um romance com previsível final feliz. Uma pancada, mas também um afago pois tem carinho por seus personagens em suas falhas e qualidades.

Na trama, Emmanuelle Bercot vive Tony, uma advogada submetida a um tratamento de fisioterapia após se acidentar em uma pista de esqui. Paralelo ao processo de recuperação da personagem, o filme acompanha sua vida antes daquele acidente, quando ela vive uma intensa relação com o envolvente Georgio Milevski, interpretado por Vincent Cassel. Entre idas e vindas dessa relação, a dificuldade de adaptação de Georgio ao casamento e os desafios na criação do filho, Tony é consumida pelo forte sentimento que nutre pelo amado e passa do encantamento dos primeiros anos de namoro à completa instabilidade emocional pós-casamento.

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Em Meu Rei é interessante observar todo esse caminho na relação dos protagonistas, algo que é bem particular, mas também passível de empatia,  através da perspectiva de Tony, vivida com muita sensibilidade e dedicação por Emmanuelle Bercot, desde já, uma das grandes interpretações do ano (não à toa, venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes na sua edição). A maneira como a personagem administra o que sente por Georgio é a síntese de como a cineasta enxerga a natureza daquele amor dos seus personagens: um sentimento intoxicante. Maïwenn traça esse caminho com muita sutileza, seja na maneira como sua câmera capta a intimidade do casal e seus olhares de desejo (como na exemplar cena final), seja na forma como extrai dos seus atores principais interpretações em “carne viva”.

Não só Bercot é fundamental aos propósitos da realizadora, como também Vincent Cassel, que torna Georgio uma figura incontestavelmente apaixonante nos primeiros momentos do longa, o que nos faz compreender a intensidade do sentimento de Tony por ele, mas também um sujeito repleto de falhas de caráter que acabam sendo reveladas somente mais tarde para o público e sua protagonista (ou muito provavelmente sempre estivera lá, mas tal qual Tony não conseguíamos enxergar, tamanho o fascínio e magnetismo daquele homem). Assim, Maïwenn, sabiamente, ao lado de Cassel, constrói um determinado personagem para depois de algum tempo “puxar o nosso tapete” e mostrá-lo de uma maneira não tão agradável, quase que repulsiva, sublinhando que o olhar da diretora não é complacente com aquela relação, ao menos não tanto quanto antes.

Ao fazer um pertinente recorte sobre o seu tema, Meu Rei se apresenta ao público como uma jornada emocionalmente intensa. É um filme terno com seus personagens, sobretudo com a sua protagonista, mas também implacável com os mesmos, apresentado-os em suas admiráveis qualidades e incômodos defeitos. Desconstruídos ao longo da projeção, Tony e, principalmente, Georgio mostram as suas ranhuras.

Maïwenn acaba realizando com sua obra uma jornada emocional e cinematograficamente madura a respeito dos encontros amorosos em todo seu caráter contraditório e suas idealizações arriscadas. Calibrado por interpretações entregues e irretocáveis de Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel, o filme ganha ainda mais força e pulsão. Tão inebriante, intenso e devastador quanto o sentimento que busca entender ao longo de toda a sua projeção, o longa também acaba se tornando uma grande crítica da sua realizadora à “síndrome do príncipe encantado” e à sociedade que contribui para a perpetuação de um modelo de relação baseado na internalização do encantamento da vida de conto de fadas.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira387 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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