Crítica: Mad Max – Estrada da Fúria

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Novo Max: Personagem de Tom Hardy inicia o filme como refém de uma gangue que detém controle de petróleo e água.

A primeira franquia Mad Max sempre se apresentou como uma série cinematográfica cindida em duas abordagens. Aquela do longa de 1979, um filme sóbrio, revisitando o western e a distopia em um conto sobre a vingança de um homem tomado pela raiva após uma ação cruel de uma gangue de motoqueiros contra sua mulher e filho, e outra representada pelas suas duas continuações, Mad Max 2 – A Caçada Continua Mad Max – Além da Cúpula do Trovão, marcadas pela ação desenfreada e ininterrupta, inserindo personagem-título, já apresentado ao público, no olho do furacão das disputas de gangues rivais por água e combustível. Este reboot (ou recomeço) da franquia pelas mãos do mesmo realizador que a idealizou em 1979, o australiano George Miller, está mais para a segunda fase Mad Max do que para a primeira.

Em Mad Max – Estrada da Fúria, Miller está pouco interessado na apresentação dos seus personagens. Para ele, Max Rockatansky é uma espécie de mito que está no inconsciente coletivo e dispensa apresentações. Tampouco o cineasta quer fazer um filme em temperatura mais branda. Aqui, do início ao fim, o espectador é tomado pela ação frenética. Curiosamente, se preferia na trilogia inicial a abordagem do longa inaugural, a decisão do realizador de tornar Mad Max – Estrada da Fúria um longa de ação insana sem grandes pausas ou construções graduais de personagens parece a mais acertada possível.

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Immortan Joe: Vilão do novo filme é vivido por Hugh Keays-Byrne.

No filme, ainda ambientado no futuro pós-apocalíptico que conhecemos nos longas anteriores da franquia, Max Rockatansky, encarnado desta vez por Tom Hardy (o Bane de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge), é capturado por um grupo liderado por Immortan Joe, que detém o controle de água e combustível. O grupo é surpreendido pela ação de um dos braços direitos de Immortan Joe, a Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), que, sem a ciência do líder, rapta as jovens que a gangue mantém como “parideiras” para levá-las a um lugar onde não sejam exploradas sexualmente. Dai, para frente é só perseguição frenética em duas, quatro ou seis rodas na velha tradição Mad Max, porém em uma versão turbinada.

Mad Max – Estrada da Fúria parece ser a realização plena de George Miller para a segunda fase da franquia Mad Max dos anos de 1980. O diretor consegue finalmente fazer um filme de ação insana com a tecnologia (ou dinheiro) necessários para dar vazão a certas extravagâncias e ambições visuais. Diferente dos filmes da primeira trilogia, aqui as cores são mais fortes, beirando os tons de HQs, sem deixar de lado a preocupação de ambientar sua trama em um universo inóspito, árido, cujas temperaturas elevadas sentimos na pele através dos olhos que visualizam a predominante utilização de tons amarelados e o sol a esquentar a areia e os corpos dos personagens.

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Nux, Furiosa e as “parideiras”: Personagens fogem da gangue de Immortan Joe.

Na direção, George Miller demonstra um vigor adolescente, filmando sequências de ação bem orquestradas e que permitem que o espectador entenda o que ocorre em cada cena e qual a participação dos seus personagens nelas. Nos momentos introspectivos, que são muito poucos, mas pontuais e dosados de maneira precisa pelo realizador para que entendamos as motivações de cada um dos personagens e nos identifiquemos com elas, Miller conta com um elenco afiado encabeçado pelo excelente Tom Hardy, que não faz feio diante da história do seu antecessor Mel Gibson. Além dele, Charlize Theron ganha a atenção imediata do espectador ao conduzir sua Imperatriz Furiosa com doçura e sensibilidade, mas também com firmeza e força física quando necessário, um trabalho impecável da vencedora do Oscar. Outra performance que vale a pena destacar é a de Nicholas Hoult, intérprete de Nux, um jovem dissidente involuntário do grupo de Immortan Joe que em uma única cena arranca um dos momentos mais emocionantes da história.

Ampliando um universo que intuitivamente possuia uma extensão ilimitada, George Miller pôde com Mad Max – Estrada da Fúria se redimir de qualquer eventual falta que tenha cometido nos episódios dois e três da antiga franquia estrelada por Mel Gibson. O novo filme possui um visual arrebatador proporcionado pelo que de melhor a tecnologia de ponta do cinema pode oferecer, nutre a carência de personagens femininas com voz ativa em Hollywood e proporciona entretenimento de primeira grandeza que só a grande tela pode fazer o espectador vivenciar sem correr o risco de ver o seu veículo ser destruído deserto afora por um grupo de ensandecidos.

 

Wanderley Teixeira391 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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