Crítica: Lion – Uma Jornada para Casa

Com apenas cinco anos de idade, o pequeno Saroo perdeu-se de seu irmão mais velho em uma estação de trem de Calcutá. Sem saber a localização precisa da sua casa, o menino perambulou pelas ruas da Índia sem destino certo até ser adotado por um abastado casal de australianos, Sue e John Brierley. Quando completou 25 anos de idade, mesmo com todo o conforto e afeto que encontrou no lar dos Brierley, Saroo passa a ser tomado pelo desejo de reencontrar a família biológica, retomando uma jornada que na verdade nunca fora interrompida pois as imagens da sua infância difícil volta e meia surgiam na vida do rapaz.

Toda a trajetória do protagonista de Lion: Uma Jornada para Casa é baseada em fatos reais e funciona como um rolo compressor de emoções. O relato da infância de Saroo Brierley possui uma força emocional que não precisaria de muitos esforços para arrancar lágrimas do mais resistente e amargo dos espectadores. Graças a sensibilidade do diretor estreante em longas Garth Davis, Lion não é apelativo, pelo contrário. Do início ao fim, Davis tem plena segurança do poder da sua história e do seu protagonista, se agarra nele com unhas e dentes  e com tamanho respeito que evita qualquer produção artificial de emoção ao longo da narrativa, deixando que a conexão genuína de afeto entre seus personagens (Saroo e seu irmão, ele e suas mães biológica e adotiva) dê o tom desejado no filme. Isso tudo dá a Lion a comunicação com o público que o filme sempre buscou e que não pode ser encarado como demérito: emocionar o público. É emoção genuína que Lion almeja e é isso que ele consegue.

Descoberto por Jane Campion (diretora de O Piano), Garth Davis foi seu pupilo em alguns episódios da sua série Top of the Lake. Lá, o diretor já demonstrava manejar com destreza um tema delicado como a pedofilia, que exigiu de Davis ser incisivo com a questão sem ser sensacionalista. Aqui, Davis consegue efeito semelhante trazendo para o espectador a história de um menino vivendo em extrema pobreza, perdido da sua família e posteriormente, já adulto, tentando reencontrá-la. Da poderosa primeira hora do filme, dominada pela revelação Sunny Pawar (o pequeno Saroo), à segunda parte do longa, assumida por Dev Patel (de Quem quer ser um Milionário?, o Saroo adulto), Davis demonstra saber o momento certo em que deve estimular sua cartela de emoções no espectador e quando deve sair de cena, deixando que seu elenco e a poética fotografia de Greig Fraser (de Foxcatcher) assuma a condução da jornada de Saroo. Há ênfase na emoção? Claro que há. Seria estranho inclusive que Davis conduzisse com distância emocional a história do seu protagonista (seria desrespeitoso com a mesma até). Contudo, nada disso faz com que o realizador transforme Lion em um melodrama barato.

A primeira hora de Lion, ambientada nas ruas de Calcutá, é inegavelmente mais poderosa e visualmente estimulante para Davis e sua equipe. O longa não procura nesse momento estetizar o lado mais pobre da Índia, mas o apresenta na perspectiva do olhar curioso e assustado de uma criança para todo aquele contexto em que é subitamente jogado. Na segunda hora, ainda que perca um pouco do viço incial ao mudar para os ares australianos, Lion demonstra outras qualidades. Aqui, um dos aspectos mais positivos do filme é a maneira como lida com o tema da adoção. Desmistificando visões românticas acerca da questão, Davis consegue mostrar a dificuldade de adaptação de Saroo e, mais gravemente, seu irmão Mantosh, também adotado, à nova vida, salientando que mesmo com todo o carinho dos Brierley ambos ficarão marcados e serão assombrados por toda as dificuldades que passaram. Nesse momento do filme, tanto Dev Patel, quanto Nicole Kidman, que interpreta Sue Brierley, a mãe adotiva de Saroo, são fundamentais para Davis conseguir conduzir estas questões. Patel evidencia em momentos singelos como as imagens da infância difícil de Saroo o tomam de assalto nas situações mais triviais que possam evocá-las, como quando se depara com uma iguaria indiana que nunca tivera a oportunidade de experimentar quando criança, já Kidman torna sua Sue uma das figuras mais calorosas de todo o filme.

Ainda que encontre na segunda parte do longa alguns “calcanhares de Aquiles”, representado pelo uso duvidoso que faz do Google Earth (e ainda assim podemos dar um desconto, afinal, quantas vezes vemos os personagens  de outros filmes usaram equipamentos da Sony ou da Apple e ninguém saiu reclamando?) e por uma certa prolongada no roteiro, nada retira o impacto do desfecho de Lion, que sintetiza em um catártico registro real os sentimentos que governam o longa e aqueles que o realizaram e viveram aquela história de fato. Com muita simplicidade, Lion demonstra a forte conexão que uniu realidades aparentemente desconexas mas que convergiram por força de sentimentos bastante nobres e humanos. Ao final de Lion você só sente admiração e afeto por Saroo, por suas mães Sue e Kamla e por suas respectivas jornadas que nos remetem a olhares positivos sobre a existência humana. O cinema está ai para problematizar o mundo e expor com criticidade suas incoerências, mas também nos mostrar o que existe de mais bonito entre nós. Lion está ai pela segunda missão.

Assista ao trailer do filme:

 

Wanderley Teixeira391 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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