Crítica: João de Deus – O Silêncio é uma Prece

Abadiânia, Casa de Dom Inácio de Loyola, interior de Goiás. O documentário João de Deus: O Silêncio é uma Prece começa apresentando seu protagonista e um dos mais conhecidos “filhos” da região, o médium João Teixeira, popularizado pelo nome João de Deus, que ganhou fama em todo o mundo por suas cirurgias espirituais realizadas na casa Dom Inácio de Loyola. Com mais de cinquenta anos em atividade, o médium traz consigo uma legião de devotos e tem seu trabalho reconhecido internacionalmente por figuras como a apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, que já dedicou uma matéria do seu programa para apresentá-lo aos americanos, e a artista Marina Abramovic, que aparece brevemente no documentário. É uma pena que um personagem tão curioso acabe sendo objeto de um filme tão “chapa branca” que, no lugar de ajudar a ressaltar suas virtudes, fazendo um retrato multidimensional do biografado, acaba construindo uma narrativa cheia de omissões e artificialismos na forma que em nada engrandecem sua figura central.

Antes de ir mais adiante nas nossas considerações sobre João de Deus: O Silêncio é uma Prece, deixo claro que o intuito do texto não é questionar o legado de João Teixeira e a fé daqueles que creem na sua figura. Esse não é o objetivo do texto que, como crítica cinematográfica, irá se ater a maneira como a narrativa sobre João de Deus é costurada no documentário de Candé Salles (de Para Sempre teu Caio F.). O objeto de nossas preocupações não é João de Deus, suas ações e aqueles que creem no seu legado, mas o filme no qual ele está inserido.

Assim, do ponto de vista formal, a sensação que João de Deus: O Silêncio é uma Prece passa o tempo inteiro para o espectador é a de um vídeo institucional encomendado por uma assessoria de comunicação, com respostas prontas para as naturais questões que surgem ao longo da narração e pré-concepções sempre positivas sobre o seu protagonista. Em momento algum as ações de João Teixeira são dimensionadas com o mínimo de complexidade a fim de problematizá-lo enquanto personagem. E quando menciono a urgência da sua problematização, nada tem a ver com um enfrentamento inquisidor sobre a sua figura, mas uma abordagem que dê conta da construção desse protagonista como um homem complexo, repleto de virtudes e defeitos.  Tudo no documentário é entregue como verdade incontestável e não há contraditório que promova um interesse naquilo que está sendo mostrado a fim de que o espectador tire suas próprias conclusões e construa por si só um inventário daquilo que foi visto.

O filme tem a narração de Cissa Guimarães, cujas palavras não acrescentam muito àquilo que é contado imageticamente e via depoimento dos envolvidos, mas está ali apenas para engrandecer o seu protagonista e endossar a elevação da espiritualidade na crença nele. Tecnicamente, o documentário ainda explora recursos pouco inventivos ou sutis como os feixes de luz branca entre os eventos narrados e os caracteres para apresentar os entrevistados pelo filme ao público. Seguindo uma estrutura convencional que oscila entre depoimentos, registros pela câmera do diretor Candé Salles acompanhando o dia a dia do protagonista do filme e imagens de arquivo,  a maioria das “falas” de terceiros que surgem no filme são de devotos de João e quando não são, acabam soando como dizeres marcados pela ausência de espontaneidade, como é o caso do médico que opera João Teixeira em dado momento (não que o que ele diga soe como mentira, mas parece uma fala decorada para ser dita diante da câmera).

Há uma sensação dominante de que tudo o que é posto no documentário e da forma como é apresentado surge como indício do filme não desejar dar conta da complexidade de temas que envolve o seu protagonista de maneira adulta, ou seja, complexa o suficiente para construi-lo como uma figura rica o suficiente para despertar o interesse do espectador que não tenha (ou deseje ter) o menor vínculo  com os atos de João de Deus, a começar talvez pelo tema mais espinhoso que o filme convoca, a fé. João de Deus parece temer a espontaneidade típica da descoberta do documentarista quando vai a campo. Quando Salles visita e acompanha João Teixeira parece que todos os movimentos já estão previstos.

Ao menos não podemos acusar o documentário de desonestidade. Ainda que ele não deixe claro em palavras que tipo de filme quer fazer, desde o primeiro instante o espectador mais sensível a esse tipo de material vai compreender que não assistirá um discurso necessariamente “neutro” e um realizador interessado em conhecer o personagem principal do seu filme com o desenrolar da narrativa e sem pré-concepções sobre ele. Não apresentando nenhum cuidado em camuflar a sensação de que tudo é produzido com o intuito de enaltecer o seu protagonista, ao menos João de Deus: O Silêncio é uma Prece é honesto com o seu espectador, não simulando ser aquilo que não é, ou seja, um filme isento e com propósitos autorais. O documentário tem sim um ponto de vista e para fazer com que o mesmo venha à tona omite informações e não esmiúça temas passíveis de controvérsia. Portanto, se o espectador estiver à procura de um filme endossado pela casa de Dom Inácio de Loyola, João de Deus: O Silêncio é uma Prece serve a tais propósitos. No entanto, quem desejar algo mais profundo sobre o assunto (e é por esse parâmetro que estamos avaliando o título em questão e nunca o seu personagem já que não temos esse direito), certamente não será contemplado pelo documentário.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira460 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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