Crítica: Florence – Quem é essa Mulher?

Uma das maiores qualidades de Florence: Quem é essa Mulher?, do inglês Stephen Frears (Ligações Perigosas e A Rainha), é conseguir humanizar uma protagonista que tinha tudo para cair no ridículo e que, em determinado momento da trama, testa o senso de humor do espectador. Claro que Frears conta com uma atriz como Meryl Streep no comando da sua personagem, o que facilita seu exercício de humanização de Florence Foster Jenkins, mas não fosse a usual delicadeza que o diretor costuma imprimir em suas histórias e o interessante olhar que ele tem para a situação da sua protagonista, o longa poderia se tornar uma obra de humor escrachado sobre uma socialite aspirante a cantora de ópera que não tem o menor talento vocal para tanto.

A trama, baseada em eventos reais, é conhecida do público brasileiro e fora daqui também. A vida de Florence Foster Jenkins, a pior cantora que já se teve notícia, ganhou uma montagem teatral no Brasil com Marília Pêra no papel principal intitulada Gloriosa e, recentemente, teve uma versão cinematográfica na França batizada de Marguerite, longa Xavier Giannoli vencedor de 6 Césars (prêmio máximo do cinema francês), incluindo o de melhor atriz para Catherine Frot. Florence era filha de um banqueiro e herdeira de um grande patrimônio que era apaixonada pelos palcos e sempre sonhou em soltar a sua voz como cantora de ópera. Receoso em desapontar a esposa, St. Clair Bayfield contrata um professor de canto, um pianista particular e organiza uma apresentação para Florence, mas tudo é arranjado de uma maneira que ela não descubra o desastre que é quando resolve soltar a voz. Acontece que as ambições de Florence crescem e ela passa a desejar uma apresentação no Carnegie Hall, importante casa de shows americana, fazendo com que todo o aparato criado por Bayfield para protegê-la das opiniões de terceiros saia do controle.

florence

Como já antecipado, o mérito de Stephen Frears em Florence: Quem é essa Mulher? foi buscar na história potencialmente jocosa da sua protagonista o teor humano. Frears transforma a desastrosa jornada de Florence nos palcos em uma história de verdadeira e sincera devoção à arte. Apesar de não fugir das situações potencialmente cômicas criadas pelas bizarras apresentações de  Jenkins, Frears enriquece a história da sua protagonista com dados sobre a sua vida que fazem com que ela e o filme ultrapassem a barreira do ridículo, do absurdo e do estapafúrdio. Existem informações sobre o passado de Florence que tornam nobres as razões pelas quais Bayfield protege tanto a sua esposa da verdade e que fazem o espectador cúmplice dos seus atos e cada vez mais apaixonado pela pureza da aspirante a cantora. Por diversos momentos, o público se enternece com a situação de Florence e passa da gargalhada à empatia em razão de segundos. A cada um dos esforços sinceros e apaixonados de Florence em sua busca pela carreira de cantora e os movimentos daqueles que a cercam a fim mantê-la sob uma redoma de mentiras, o espectador dá de cara com momentos que tornam a biografia simpática e terna.

Parte do interessante resultado alcançado em Florence: Quem é essa Mulher? é fruto do desempenho de Meryl Streep, que consegue acessar particularidades das emoções de Florence com as nuances e sutilizas que são usuais em alguns dos seus melhores desempenhos. Há também esforços louváveis de Hugh Grant, que está muito bem na pele de St. Clair Bayfield e torna sua relação com Florence um dos pontos altos do filme através de uma cumplicidade com Streep que salta a tela. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de Simon Helberg, intérprete do pianista Cosmé McMoon. O ator vai por um caminho completamente oposto ao dos colegas e no lugar de buscar a humanidade que existe por trás de toda a situação vivida por seu personagem, opta pelo humor com tonalidades fortes e exageradas, algo fora de tom e que soa deslocado sobretudo no terceiro ato do filme, quando a história ganha contornos mais dramáticos.

No fim das contas, Florence: Quem é essa Mulher? é uma história de amor e dedicação à arte que ultrapassa a própria vocação ou talento artístico. Ao final da sessão, saímos com a certeza de que em Florence existe um sentimento sincero de carinho e respeito aos palcos que, provavelmente, artistas com mais talento que ela não têm. Frears conduz tudo isso com muito cuidado através de uma direção que, se não consegue estar em pé de igualdade com alguns dos seus melhores trabalhos, ao menos é coerente com seus propósitos e afetuosa com sua protagonista, conferindo múltiplas e profundas camadas de leitura e emoção ao filme.

 

Wanderley Teixeira414 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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