Crítica Festival Varilux 2018: O Amante Duplo

O Amante Duplo é o mais recente exemplar da carreira do cineasta François Ozon, que desta vez mergulha a fundo no terreno da psicanálise com esta livre adaptação de um romance da escritora Joyce Carol Oates. Isso acontece porque seu casal de protagonistas passa a estabelecer  um relacionamento amoroso depois de criarem intimidade como paciente e terapeuta. Quando Paul percebe que está se afeiçoando demais a Chloé, jovem que chega ao seu consultório com um severo quadro de depressão, ele se abre para a paciente dizendo-se apaixonado e decide não mais estabelecer uma relação estritamente profissional com ela.

Realizando um thriller erótico que durante boa parte da projeção procura entender a natureza da relação entre paciente e psicanalista, O Amante Duplo tem muitos acertos, principalmente quando utiliza a relação sexual como forma de estabelecer metáforas que deem conta dos estágios desse relacionamento, como o liame que por vezes embaralha o profissional e o afetivo e os jogos de dominação que podem surgir em casos severos como os da protagonista do filme. Quando Ozon trafega por esse território o filme ganha muito.

No início do terceiro ato, no entanto, o longa anuncia a existência de um plot twist. Aqui a obra fica  menos afeita a metáforas e subjetivismos do que o espectador imaginava. Nesse momento, O Amante Duplo acaba esbarrando em convenções e se contentando com o clichê de filmes dos gêneros com os quais dialoga, como o melodrama. Aqui, Ozon perde alguns pontos e reduz o desfecho da sua história a algumas soluções cafonas até mesmo visualmente, sugerindo metáforas visuais bem mais pobres do que aquelas que predominaram durante todo o início e o desenvolvimento da trama.

Apesar de desejar um erotismo na realização das suas cenas de sexo com os atores Marine Vacth (que já trabalhou com o diretor em Jovem e Bela) e Jérémie Renier o filme tem zero apelo nesse sentido e todas essas sequências são marcadas por composições imagéticas extremamente frias. Não muito feliz na articulação entre esta e outras estratégias, O Amante Duplo acaba perdendo a oportunidade de se apresentar ao espectador como um denso e instigante mergulho no processo da psicanálise para encerrar sua trama numa investida banal em chavões de um cinema que o sabota.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira460 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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