Crítica: Doentes de Amor

Produção de Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos O Virgem de 40 Anos), um dos Midas da comédia inteligente estadunidense, Doentes de Amor é uma das mais adoráveis surpresas do ano. A comédia é uma espécie de Casamento Grego dos nossos tempos na qual um comediante de stand-up comedy paquistanês que vive desde pequeno nos EUA começa a repensar seu posicionamento diante dos costumes da sua família a partir do momento em que se apaixona por uma jovem americana. O filme tem como base a história do seu próprio protagonista, Kumail Nanjiani, que co-assina o roteiro com sua esposa fora das telas, Emily V. Gordon, interpretada no filme pela atriz Zoe Kazan. Nesse entrelaçamento entre a ficção e a biografia do próprio Nanjiani, Doentes de Amor encontra o tom delicioso de um filme sensível sobre relacionamentos humanos e conflitos culturais decorrentes de uma realidade marcada por tensões e preconceitos, mas também por um intercâmbio e hibridização constante de costumes.

O fluido roteiro de Nanjiani e Gordon para Doentes de Amor é cheio de méritos. Ele constrói seu protagonista como um sujeito que se vê encurralado pelo dever que tem com sua família, temendo contrariar a rigorosa matriarca a partir de uma recusa aos constantes encontros que a mesma marca nos jantares de família com pretendentes paquistanesas. Ao mesmo tempo, o Kumail de Doentes de Amor é um rapaz que, apesar das origens, é mais um cidadão americano que paquistanês, à vontade com o american way of life de americano médio. Assim, Kumail é um personagem extremamente humano, fugindo por completo de estereótipos reservados a personagens orientais (em alguns momentos até mesmo fazendo ironia com isso) e mostrando, ao mesmo tempo, camadas interessantes a serem exploradas e também sendo capaz de exibir características que produzem empatia instantânea em quem assiste ao filme.

O roteiro de Doentes de Amor é perspicaz e sensível não apenas na maneira como concebe suas personagens como figuras multidimensionais, sem fazer com que isso as torne aborrecidas (pelo contrário, é agradável passar o tempo da projeção com todas elas e até lamentamos o fato do filme chegar ao fim), mas também porque o longa consegue costurar a jornada do seu protagonista com fluidez. Tomamos intimidade e criamos vínculo com Kumail, sua trajetória e seu conflito pois acompanhamos o início do seu relacionamento com Emily e tudo o que sucede o mesmo, percebendo no protagonista o seu amadurecimento emocional e a maneira como os laços dos relacionamentos que estabelece com os demais personagens da história são fortalecidos. Esse caráter do roteiro de Doentes de Amor faz com que o filme transborde humanidade e afeto.

O longa ainda conta com um elenco que exibe performances certeiras que jamais sobem o tom do filme ou se sobressaem em momentos de vaidade cênica. Entre os destaques está o próprio Kumail, centro de toda a narrativa conseguindo cativar o espectador com seu simpático e comum protagonista, ganhando em definitivo o público com um monólogo emocionado durante uma apresentação stand-up. Há ainda espaço para seus coadjuvantes como os pais de Emily interpretados por Ray Romano e por uma inspiradíssima Holly Hunter, uma protetora e justa matriarca. Também é delicioso acompanhar a sempre carismática Zoe Kazan em cena fazendo dobradinha com Kumail. Enfim, temos atores que conseguem fazer justiça à humanidade com que esses personagens são concebidos pelas linhas do roteiro que foge dos vícios de representação da comédia americana ao mesmo tempo em que utiliza toda a base da mesma para construir uma história que transborda empatia, doçura e carisma.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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