Crítica: Como Nossos Pais

Quando Como Nossos Pais tem início a família de Rosa, personagem da atriz Maria Ribeiro, está num típico almoço de família, marcado pela bagunça das crianças, cutucadas de irmãos e DRs públicas de casais. Eis que Clarice, matriarca da família interpretada por Clarisse Abujamra, faz uma revelação a Rosa na frente de todos: a moça é fruto de uma relação que ela teve fora do casamento anos atrás quando viajou para um congresso de Sociologia. A informação faz com que a rotina de Rosa vire de ponta-cabeça e a fará repensar uma série de escolhas e encaminhamentos em sua vida.

O mais recente longa da cineasta Laís Bodanzky (de Bicho de Sete Cabeças As Melhores Coisas do Mundo) não quer tratar de uma busca incessante de Rosa pelo seu pai biológico, mas entender isso como o estopim para uma verdadeira revolução na vida da personagem que avalia uma série de questões ao longo do filme, a principal delas sua posição como mulher no âmbito micro e macro da sociedade. Micro porque Rosa passa a entender que existe algo de errado na dinâmica do seu casamento, que, apesar de toda uma atmosfera nada conservadora, lhe delega um acúmulo de funções e renúncias que passam longe das obrigações assumidas pelo seu marido Dado nesse contexto. Ao mesmo tempo, na medida em que ela passa a conhecer a fundo a história da sua mãe sem maiores julgamentos, Rosa passa a entender que ela própria, como outras mulheres, sem se dar conta, se deixou levar por uma espiral de convenções  que silenciosamente minaram suas aspirações pessoais.

Aos poucos, a protagonista de Maria Ribeiro começa a entender, por exemplo, que mais importante do que a requisição da monogamia no casamento é fundamental a sinceridade do parceiro quando o mesmo percebe sentir-se atraído sexualmente por outra pessoa. Por esse mesmo impulso de auto-análise, Rosa percebe como a maternidade fez com que ela assumisse um enfrentamento mais pragmático da sua própria carreira, optando por atividades que lhe trouxeram um retorno financeiro mais imediato para manter o seu padrão de vida confortável, enquanto a paternidade não impediu que Dado buscasse aliar o trabalho com uma atividade prazerosa dosada pela sensação de estar fazendo algo de significativo para a sociedade.

A direção de Bodanzky no filme é eficiente sobretudo quando exibe o contraste entre as funções de homem e mulher no ambiente familiar, como num plano no qual, durante uma manhã qualquer, exibe Dado prolongando o seu sono na cama do casal, enquanto Rosa se prepara para acordar suas filhas para ir ao colégio. É interessante como Bodanzky, junto com o roteiro co-escrito com seu habitual parceiro Luiz Bolognesi, procuram expor essas questões sociais em contextos do cotidiano banal de um núcleo familiar comum, com o qual todos podem se identificar, evidenciando como os papéis domésticos acabam se repetindo não por uma vilania de sujeitos individualizados por gênero, mas porque tendemos a dar continuidade a erros incrustados na sociedade. Ao mesmo tempo, o roteiro do filme enxerga uma solução bem simples para esse cenário sem envolver eventos grandiosos como grandes reformas ou protestos sociais, mas no próprio movimento da sua protagonista de pensar sobre a sua própria vida e dar fim a perpetuação de determinados modelos familiares fadados naturalmente ao fracasso.

Assim, Como Nossos Pais consegue deixar o seu recado sobre questões sociais ao inseri-las no contexto de um cotidiano com personagens que são gente de verdade não pela posição que ocupam , afinal temos que levar em consideração que a família de Rosa é formada por intelectuais acadêmicos e jornalistas, mas pelos dilemas internos e pelas ranhuras das dinâmicas de relacionamento que exibem. Com uma condução que possibilita ao filme trazer questões sérias com leveza (nada é muito sisudo, apesar de tratarmos de questões complexas e que exigem tratamento comprometido), o longa permite a seus atores entregarem performances naturais que são capazes de gerar empatia instantânea na plateia, sobretudo Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra e a participação luminosa de Jorge Mautner como o pai adotivo da protagonista. Como Nossos Pais é um filme sincero que certamente falará com muita gente.

Assista ao trailer do filme:

 

Wanderley Teixeira414 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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