Crítica: Cidades de Papel

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Margo e Quentin: Conexão imediata e milagrosa, afirma o protagonista vivido por Nat Wolff

 

John Green tornou-se uma espécie de porta-voz da juventude. Com livros como A Culpa é das Estrelas, Quem é você, Alasca?, O Teorema de Katherine e outros já traduzidos para o Brasil, inclusive, o diretor conseguiu cativar a preferência dos jovens de toda parte do mundo com histórias humanas sobre o amadurecimento. Quando A Culpa é das Estrelas recebeu sua versão para os cinemas, no entanto, muita gente se dividiu. E não era para menos. O filme sobre dois adolescentes diagnosticados com câncer era um drama que, forçadamente, tentava arrancar litros e mais litros de lágrimas do espectador. Pouca coisa ali era espontânea, ainda que a história tivesse os seus méritos ao tratar um tema delicado como o câncer de maneira respeitosa e pontualmente inteligente. A boa notícia é que aqueles que não gostaram de A Culpa é das Estrelas e os fãs incondicionais de John Green podem enfim se conciliar em Cidades de Papel, que não só é superior ao longa protagonizado por Shailene Woodley como também evidencia e sintetiza para os não iniciados na obra do autor as razões do seu sucesso. Cidades de Papel é um belo filme que dimensiona para o público que está fora dessa bolha de idolatria em torno de John Green o motivo dele cativar tantos leitores a cada livro que lança.

Cidades de Papel conta a história de Quentin (Nat Wolff), um adolescente reservado que nutre uma paixão mal resolvida pela impetuosa Margo (Cara Delevingne). Quentin e Margo eram “unha e carne” na infância, mas na adolescência ela se afastou dele e quando conhecemos os dois no filme eles mal trocam olhares nos corredores do colégio. Uma noite, quando Quentin prepara-se para ir dormir, Margo entra pela janela do seu carro e o convida para pôr em prática um plano de vingança contra todos aqueles que a trairam. Os dois se reaproximam naquela noite, mas no dia seguinte Margo desaparece. Quentin resolve então desvendar o mistério em torno do desaparecimento da amiga.

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Trio: Quentin e seus amigos são responsáveis por alguns dos momentos mais bacanas do filme.

 

Há um grande motivo que faz Cidades de Papel ser mais bem resolvido como experiência cinematográfica que A Culpa é das Estrelas (me perdoem, mas as comparações são inevitáveis). Cidades de Papel produz emoções espontâneas no espectador, como já antecipamos, é um filme que não precisa da “muleta” do “drama sobre o câncer” acompanhada daqueles diálogos constrangedoramente lacrimosos para comover o seu público pois trata de questões cotidianas que naturalmente mobilizam o seu espectador, fazendo com que ele se identifique com toda a trajetória do seu protagonista, torça por ele e, portanto, tenha sentimentos autônomos. Em Cidades de Papel dá para entender porque tantos jovens gostam de John Green porque vemos uma história sobre a trajetória de cada um de nós. Sem apelações ou artifícios melodramáticos, vemos a vida projetada na tela através de situações rotineiras dos ritos de passagem para a idade adulta: os medos e as dúvidas sobre o futuro, o desejo de viver cada segundo do presente, as amizades e frustrações, a maturidade do amor etc.

Jake Schreier, do indie  Frank e o Robô, dirige Cidades de Papel e transforma-o em um típico exemplar dos cultuados filmes sobre a adolescência que tomaram conta dos estúdios hollywoodianos na década de 80 (cito principalmente os filmes de John Hughes, como Curtindo a vida adoidado e Clube dos Cinco, além de Conta Comigo, de Rob Reiner) que, provavelmente, devem ter uma ponta de inspiração na literatura do próprio Green. O olhar do filme para essa fase da vida não é tolo, tampouco é hipersofisticado, o que se vê na tela é o retrato de uma época muito divertida, mas também cheia de introspecção, melancolia e aprendizado, enfim, a vida de um ser humano comum. O longa conta com o expressivo Nat Wolff na pele do seu protagonista e uma magnética Cara Delevigne cujos poucos minutos em cena são o suficiente para torná-la presente em toda a história. Há coadjuvantes bem interessantes e que não só servem de alívio cômico para a história como têm a sua própria função no desenrolar da trama principal, como Halston Sage, Justice Smith e, claro, Austin Abrams, que tem potencial para fazer uma geração se lembrar de um clássico musical da década de 90 de uma forma um tanto quanto original.

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Maturidade: Personagem se transforma através das relações que desenvolve ou fortalece ao longo do filme

 

O filme pode ser o retrato da adolescência como uma jornada inesquecível se os seus dramas forem superados através da amizade. O título Cidades de Papel, como o filme explica, vem de um termo usado por cartógrafos para identificar em mapas localidades que não existem mas estão lá só para garantir que seus nomes posteriormente não venham a ser usados por outros. Em um momento do filme Margo usa esse termo para definir a forma como todos levam suas vidas no presente: “Todas aquelas pessoas de papel, vivendo suas vidas em casas de papel, queimando o futuro para se manterem aquecidas”. O filme portanto fala sobre necessidade de viver o presente de maneira concreta e intensa e não fingir que estamos vivendo um agora forjando-o sob a forma de conjecturas sobre o futuro. Nossa vida não pode se resumir ao medo ou ao planejamento do que está por vir. Por ter a grandeza de sempre oferecer um afago para as novas gerações, e esse é o seu segredo no diálogo com elas, o John Green que conhecemos em Cidades de Papel merece o nosso respeito e agradecimento.

 

Wanderley Teixeira430 Posts

<p>Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.</p>

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