Crítica: Bingo – O Rei das Manhãs

Inspirado na vida de Arlindo Barreto, que durante anos viveu o palhaço Bozo, Bingo: O Rei das Manhãs indicava ser uma espécie de biografia controversa, tendo em vista que a história do seu personagem central é marcada por uma série de eventos polêmicos. Para quem não se recorda, Bozo era um palhaço que apresentava uma atração matinal no SBT e chegou por diversas vezes a ultrapassar a audiência da Rede Globo. Por trás da maquiagem do personagem estava o ator Arlindo Barreto, que durante um bom tempo estrelou títulos da pornochanchada. Nos auge do sucesso na TV, Barreto consumiu diversos tipos de drogas e saiu com muitas mulheres. Depois de chegar no fundo do poço, o ator conheceu a Igreja e virou pastor. Ou seja, não é pouca coisa e tudo o que fora divulgado sobre Bingo indicava um material tão explosivo quanto a vida do próprio Arlindo. Parecia que estávamos diante de um material extremamente anárquico, uma abordagem coerente, inclusive, com o próprio personagem “biografado”.

Não que Bingo: O Rei das Manhãs deixe de ter a sua dose de anarquia com o choque entre a figura tradicional do palhaço no imaginário do circo e tudo o que o seu intérprete representava fora das câmeras, porém, o longa de Daniel Rezende, conhecido e premiado internacionalmente por seu trabalho como editor em filmes como Tropa de Elite Cidade de Deus, é uma biografia  extremamente convencional como tantas outras no circuito, “careta” até. Isso não chega a ser um indício de catástrofe, mas coloca o filme num patamar aquém daquilo que se esperava e exibe um longa que parece não compreender o tom da abordagem que seu personagem principal demanda. O que o espectador verá em Bingo: O Rei das Manhãs é toda uma sucessão de acontecimentos na vida do seu Augusto Mendes (o Arlindo Barreto do filme, interpretado por Vladimir Brichta) sem tirar nem pôr, representando o já conhecido arco de filmes do gênero com a ascensão, derrocada e redenção do seu protagonista.

Estruturalmente, Bingo: O Rei das Manhãs não é inventivo, irônico ou corrosivo, esqueça essa promessa. O longa é “quadradão”, do tipo que não condiz com a própria natureza irreverente do seu protagonista e que também não encontra eco na própria carreira de Rezende até então, um editor que surpreendeu a todos (aqui e lá fora) com o resultado incomum de seu trabalho na montagem de Cidade de Deus, por exemplo. Mesmo que você não conheça patavinas da vida de Barreto, a trajetória do personagem no filme é semelhante a de tantos outros artistas “polêmicos” cuja vida e carreira foram retratadas no cinema em biografias marcadas pela sucessão linear de eventos e por um olhar levemente pasteurizado para seu protagonista. Além disso, Bingo oferta muito pouco do que já não saibamos sobre o ator que vivera o Bozo, no filme em si não há muito ineditismo.

O fato de ser formatado como uma cinebiografia convencional, no entanto, não significa que o público não terá bons momentos no cinema. É interessante o trabalho de arte do filme, que nos insere de fato nos anos 1980, tendo cuidado com detalhes de figurino e direção de arte, mas também sacadas como seus créditos e legendas que nos remetem ao videotape. O longa também conseguiu contornar muito bem o fato de não usar os nomes dos principais envolvidos na história, realizando substituições proporcionam leituras curiosas, como chamar a Rede Globo de TV Mundial. Além disso, Bingo: O Rei das Manhãs é guiado pela ótima interpretação de Vladimir Brichta no papel título, um desempenho exitoso ao se comprometer em oferecer nuances particulares para o personagem durante toda a sua conturbada trajetória .

Como parte das produções do nosso tempo, talvez o maior erro de Bingo: O Rei das Manhãs tenha sido se vender como uma obra tão controversa quanto a vida do próprio personagem que a inspira. No final das contas, o longa segue a esquemática cartilha de biografias cinematográficas que, independente da correspondência dos eventos com a vida de Arlindo Barreto (não é isso que está em jogo aqui), parece lutar contra a própria rebeldia, intensidade e natural subversão do seu próprio protagonista, que parece ser maior do que o próprio filme que habita. Não chega a ser uma obra descartável e me parece correta no alcance dos objetivos que propõe, mas fica latente em cada momento do longa que estamos diante de uma história protagonizada por um personagem que parece desejar romper os filtros impostos pela própria obra.

Assista ao trailer do filme:

 

Wanderley Teixeira430 Posts

<p>Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.</p>

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