Crítica: A Lenda de Tarzan

Mais recente encarnação do clássico personagem de Edgar Rice Burroughs a ganhar as telas, A Lenda de Tarzan é um filme que não é o desastre que parte da crítica internacional alardeou. É verdade que o longa quando erra, vai fundo nos seus deslizes, mas, de uma maneira geral, o filme oferta perspectivas interessantes a respeito do seu personagem e foge ao que convencionalmente se espera de mais uma história sobre a lenda das selvas, ou seja, mais um título a explorar sua origem em uma trama de ação escapista. A Lenda de Tarzan, no entanto, vai por um caminho inesperado, tenta fazer uma revisão histórica e se preocupa com o que ocorreu com o protagonista após anos de sua inserção na “civilização”. Acontece que a execução desses conceitos apresenta derrapadas sensíveis e o filme tem no centro das atenções um intérprete de Tarzan que não consegue dar conta do recado, o ator Alexander Skarsgard, mais conhecido do público por ter vivido o vampiro Eric Northman na série True Blood.

Em A Lenda de Tarzan, o diretor David Yates (dos filmes da franquia Harry Potter desde A Ordem da Fênix) faz uma releitura do trabalho de Burroughs com o clássico personagem. No novo longa somos apresentados a um Tarzan que já vive há um tempo em Londres ao lado da sua esposa Jane. Estamos na década de 1930 e o personagem é convidado a retornar a selva do Congo como um emissário do Parlamento inglês. Chegando lá, o personagem se depara com uma outra realidade que envolve o tráfico de escravos e o comércio de minerais e ainda confronta pendências do seu passado que põem em risco a vida da sua amada Jane.

Com todo o seu propósito revisionista, não apenas da própria obra literária, como também do seu contexto histórico, o resultado de A Lenda de Tarzan é um filme desajustado e instável na relação que estabelece com o seu público. Por um lado, ele te mantém interessado pelo desenlace das suas tramas já que te apresenta a uma série de questões que as últimas adaptações das histórias do personagem não apresentaram e, além disso, o diretor David Yates adota um tom e um visual interessante para seu filme, uma mescla de sobriedade e realismo que se exterioriza em uma fotografia de paletas acinzentadas e um design de produção que evita exageros. Em contrapartida, o filme tem uma péssima execução das suas cenas de ação e uso de efeitos visuais confuso, fazendo com que o público nunca saiba ao certo como os personagens se movimentam. Além disso, a exceção da sequência de abertura, a maioria das cenas de ação mostram-se banais ao espectador.

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Acontece que ainda que mantenha o público levemente interessado por toda essa cartilha interessante de recursos que possui, a trama de A Lenda de Tarzan sempre apresenta algum elemento que emperra uma relação mais forte e entregue do espectador com o filme, tornando seus erros, quando ocorrem, crassos. Por exemplo, o longa tem o desenvolvimento do seu conflito principal imobilizado por uma sucessão de flashbacks descartáveis a respeito da origem de Tarzan e do nascimento do seu romance com Jane, algo que não cabe na própria proposta e cuja apresentação ao público é dispensável (todos sabem da origem de Tarzan). Esse retorno ao passado e à clássica história de Burroughs emperram e não ajuda em nada os intentos revisionistas de A Lenda de Tarzan. Além disso, o olhar que o filme reserva a trama dos escravos, se por um lado, revela uma pertinência muito grande, sobretudo quando somos familiarizados com as motivações do personagem de Samuel L. Jackson, por outro, é enfraquecida quando tem como eixo da revolução das populações nativas do Congo o homem branco, representado por Tarzan e Jane.

A mesma oscilação que apontamos anteriormente é percebida no resultado das performances do seu elenco. Temos uma Margot Robbie interessante como uma Jane mais atuante, Samuel L. Jackson compondo um personagem que acrescenta muito à trama e até mesmo um Christoph Waltz que, a despeito de repetir um tipo que anda fazendo há anos, consegue compor uma variação interessante de vilão. Em contrapartida, somos apresentados a um protagonista inexpressivo. Como Tarzan, Alexander Skarsgard confunde o lado selvagem do personagem e a natural introspecção de um homem que ainda está se aclimatando ao novo ambiente com a composição de uma figura marcada pela apatia e pelo olhar lânguido em cena. O ator não esboça reação alguma, nem mesmo quando a vida de sua esposa, a pessoa que ele mais ama no mundo, está em perigo. Ter um protagonista como Skarsgard acaba custando muito caro a A Lenda de Tarzan, sobretudo em momentos da projeção no qual deveria existir um interesse maior do espectador pelos sentimentos que mobilizam o seu personagem.

É através dessa estranha lógica de falhas e compensações que A Lenda de Tarzan funciona em parte. Trata-se de um filme que avança consideravelmente em relação a outras adaptações do clássico personagem, mas também promove recuos consideráveis, ficando sempre no meio termo. A Lenda de Tarzan não é um fiasco, mas é um longa que titubeia em sua própria zona de risco e não consegue sustentar com vigor seu intuito de promover um outro olhar para velhos e conhecidos personagens e histórias.

Assista ao trailer do filme:

 

Wanderley Teixeira414 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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