Crítica: A Colina Escarlate

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Atmosfera: Del Toro explora a estética gótica uma das marcas de toda a sua filmografia

 

Se formos enquadrar A Colina Escarlate em um gênero, o filme poderia ser classificado com mais propriedade como um romance de horror ou romance gótico. A força motriz do novo longa de Guillermo Del Toro (O Labirinto do Fauno) são as paixões que mobilizam todos os seus personagens, toda a história é centrada no amor vivido por Edith Cushing (Mia Wasikowska) e Thomas Sharpe (Tom Hiddleston). Contudo, o caminho dos amantes é atravessado por medos da infância, fantasmas, uma casa repleta de segredos e violentos assassinatos, enfim, tudo com o “gostinho de sangue” que Del Toro adora. Esta mistura de romance vitoriano e terror, no entanto, funciona parcialmente. Se, por um lado, existe toda uma atmosfera que parece contribuir para as intenções do realizador e sua trama consegue prender o espectador até a metade da sua projeção com manutenção dos segredos por trás da relação entre os irmãos Sharpe (Hiddleston e Jessica Chastain), por outro, Del Toro perde-se na contemplação do seu próprio estilo e oferece ao espectador revelações previsíveis e um romance que não empolga em nenhum momento o público.

Ambientado nos EUA e na Inglaterra do século XIX, A Colina Escarlate traz a história de Edith Cushing (Mia Wasikowska), uma jovem escritora que se apaixona por Thomas Sharpe (Hiddleston), um inglês misterioso que logo ganha a antipatia do pai da moça. Edith insiste na relação e se casa com Sharpe, partindo para a Inglaterra junto com ele e sua fria irmã mais velha, Lucille (Jessica Chastain). Os três passam a morar no casarão da família Sharpe e Edith começa a presenciar eventos sobrenaturais que confirmam premonições que ela teve na infância: o lugar não é nada amistoso e sua vida corre um sério risco se ela permanecer lá.

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Destaque: Interpretação de Jessica Chastain é um dos pontos altos do longa

 

Talvez a grande “sacada” de A Colina Escarlate seja salientar que o mundo dos vivos é muito mais assustador, perigoso e doentio do que o mundo dos mortos, mas o grande problema do filme é lidar com o seu romance central. A história de Edith e Thomas não chega a ser inspiradora e isso é problemático para o filme sobretudo se pensarmos que trata-se do seu grande mote. Apesar de toda a atmosfera gótica que Del Toro sabe oferecer como ninguém ao público, o realizador não consegue sustentar sua história de amor, detectada pela plateia apenas pelas palavras proferidas pelos personagens, jamais ela é de fato sentida por quem está do outro lado da tela.

Tecnicamente, A Colina Escarlate enche os olhos, fazendo do seu visual um dos elementos responsáveis por conferir a atmosfera sombria que virou marca do Del Toro, mas nada que surpreenda. Trata-se de uma variação daquilo que já conhecemos em O Labirinto do Fauno, A Espinha do Diabo e a franquia Hellboy. Sobre o elenco, Mia Wasikowska, Tom Hiddleston e Charlie Hunnam estão corretos em seus respectivos papéis, mas não resta dúvidas ao final da projeção que a grande performance desse longa é a de Jessica Chastain. A despeito das revelações em torno da sua personagem não serem nada surpreendentes, a atriz consegue ser precisa na composição de Lucille, uma mulher que tenta esconder suas obsessões por trás de uma persona fria e austera.

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Calcanhar de Aquiles: Aspecto fundamental da história, romance entre os personagens de Mia Wasikowska e Tom Hiddleston é fraco

 

Falhando por uma certa falta de sensibilidade do realizador naquilo que deveria ser mais à flor da pele na história, A Colina Escarlate não é um desastre na carreira de Guillermo Del Toro, trata-se de um filme no qual a sintonia do cineasta não está na mesma frequência da sua narrativa. A Colina Escarlate não evoca a passionalidade que deveria evocar e por vezes fica emperrado no admirável senso estético do realizador. Se em O Labirinto do Fauno ou A Espinha do Diabo, Del Toro soube lidar com o choque entre o universo inocente da infância e os monstros e fantasmas do nosso imaginário, em A Colina Escarlate o romance de Edith e Thomas causa indiferença no espectador e o horror fica somente na exposição visual, sendo poucas vezes sentido. Em suma, falta sensorialidade e sobra estilo.

 

Wanderley Teixeira426 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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