As feminilidades de Xavier Dolan

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O canadense Xavier Dolan vem se destacando no cinema internacional como um pródigo diretor, roteirista e ator nos últimos anos. Colecionando premiações a cada filme lançado, este ano, o jovem dividiu o prêmio dado pelo júri no 67º Festival de Cannes com o consagrado Jean-Luc Godard graças a sua última produção, Mommy.

Marcado por uma estética bem autoral, tanto nos aspectos narrativos quanto nos audiovisuais, os filmes de Dolan atravessam a temática LGBT a partir de personagens complexos e cinzentos que carregam o fardo da castração de seus desejos – e aqui, destaca-se, não apenas sexuais, mas até mesmo do que eles considerariam uma vida, uma relação familiar e amor ideais.

Talvez, esta seja a maior diferença do diretor quando comparado a outras produções recentes que abordam a temática LGBT. Em Dolan, o tema serve apenas como um plano de fundo, uma base de construção de seus personagens, porém, não é este universo e seus conflitos (a saída do armário, a homofobia, o despertar da sexualidade etc.) o eixo principal de seus filmes.

Apesar desses tópicos também serem tratados em suas obras, eles não são o centro da narrativa. Em Eu Matei Minha Mãe (J’ai tué ma mère), por exemplo, o centro narrativo é a conflituosa relação entre o protagonista e sua mãe; já em Amores Imaginários (Les amours imaginaires), o enfoque se dá sobre a relação de amizade entre um rapaz e uma moça que começa a colapsar a partir do momento em que os dois começam a disputar a paixão por uma mesma pessoa.

Curiosamente, o filme que trato nesta edição da coluna, Laurence Sempre (Laurence Anyways), é o que, como exceção à regra, a sexualidade e a identidade de gênero surge com um peso maior no enredo do filme – apesar de, Dolan, novamente, surpreender pela abordagem original com que ensaia sobre a temática em sua produção (outra curiosidade que vale ressaltar é a ausência dele como ator principal no filme, uma exceção que se repete apenas em Mommy).

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No filme, Laurence Alia (Melvil Poupaud) e Frédérique (Fred) Belair (Suzanne Clément) formam um jovem casal de adultos apaixonados que, como a maioria dos casais, possuem seus diversos rituais particulares, como a produção de uma lista de coisas que lhes tiram o tesão. Levam uma vida romântica e feliz, apesar das coisas no emprego (ele é professor, ela é produtora de audiovisual) e com os familiares de ambos não irem tão bem assim.

Porém, Laurence começa a se sentir cada vez mais pressionado a viver uma identidade que sempre reprimiu: sua feminilidade. Em meio aos trinta e poucos anos, ele resolve assumir sua identidade trans e iniciar a transformação para o sexo feminino. Mas ele não quer deixar seu relacionamento com Fred, que passa a se sentir bastante confusa e, ao longo do filme, que atravessa a década de 1990, vai passar por um questionamento de seus padrões identitários talvez ainda maior que os de Laurence. A partir daí, Xavier Dolan realiza um ensaio bastante instigante sobre identidade e desejo, normalidade e marginalidade.

O grande trunfo do diretor aqui é problematizar a questão identitária de maneira mais ampla do que apenas centrar-se na transição de gênero realizada por Laurence, que serve apenas como estopim do centro narrativo, que é o relacionamento extremamente passional entre ela e Fred, assim como a própria crise de identidade que esta começa a viver.

Apesar de a princípio tomarmos Laurence como protagonista, é a crise identitária vivenciada por Fred que acaba roubando a cena. Tanto é que nos lapsos temporais que marcam as fases da transformação de Laurence, pouco nos é mostrado de suas questões internas – Laurence surge como uma trans confusa e insegura no início do filme, mas se torna determinada com o avançar do longa, e pouco é problematizado sobre isso. Em curtos momentos (e nem por isso, menos importantes para a nossa compreensão da personagem), temos uma visão de seu relacionamento com a mãe, com quem compartilha uma conflituosa relação, em princípio, mas uma terna cumplicidade posteriormente, assim como sua vivência com um clã de senhoras – as Rose – que a integra como membro da família.

Assombrada pelos padrões identitários normalizados pela sociedade do que é ser mulher, de seus desejos e do que se espera de uma (casar, ter filhos etc.), Fred se encontra dividida entre viver seu amor com Laurence ou seguir uma vida “normal”. E Suzanne Clément nos entrega uma interpretação próxima do sublime com Fred – a atriz consegue representar de forma maravilhosa a culpa e o medo da personagem, assim como sua confusão entre viver aquilo que sempre acreditou ser uma mulher ideal ou se libertar de suas amarras identitárias e se permitir viver sua paixão por Laurence.

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No começo, a moça ainda tenta dar continuidade ao seu relacionamento com Laurence, servindo, inclusive com um dos principais apoios na transformação dela – é Fred que incentiva Laurence a ir trabalhar vestida de mulher pela primeira vez na escola – aliás, pontos para a excelente cena da entrada de Laurence em sala de aula e em seguida sua caminhada pelos corredores do colégio (que também faz referência a outra ótima cena da abertura do filme), encarando os olhares de espanto, surpresa, cumplicidade, e outros mais variados sentimentos pelos alunos e funcionários do colégio que indicam o jogo identitário que envolve a indiferença, a aceitação ou a repulsa ao diferente.

O ponto decisivo para Fred se dá, no entanto, quando se descobre grávida e decide fazer um aborto justamente por se sentir culpada e confusa com relação aos seus papéis identitários enquanto mulher e o papel de pai de Laurence, que não mais se identifica enquanto homem. Fred entra em depressão e o relacionamento com Laurence começa a decair até o momento em que, após sofrerem um constrangimento num restaurante e conhecer um outro homem em um baile, ela decide romper a relação. Daí em diante, encontros e desencontros entre as duas protagonistas seguem até o final do longa, com uma tensão cada vez maior entre elas.

Mais do que falar sobre a identidade trans, Dolan parece querer discutir algo mais amplo que é a noção de feminilidade, ou o que nossa sociedade e cultura considera enquanto feminino e modos de vida femininos. Isso se evidencia tanto pela centralidade em tornos dos personagens femininos quanto do modo com que ele projeta essas vivências femininas: temos Fred que vê sua vida se confrontando com o que sempre considerou ser mulher ao amar uma pessoa que nasceu homem mas tem uma identidade feminina; temos Laurence numa busca de uma identidade feminina que sempre reprimiu na sua vivência masculina; temos a mãe de Laurence que se vê aprisionada a um casamento infeliz e o papel de dona de casa, mas encontra outra maneira de viver sua feminilidade a partir da coragem da filha; temos a mãe e a irmã de Fred que tentam defender um padrão ideal do que é ser mulher.

Com Laurence Sempre, em suas quase três horas de duração, Xavier Dolan entrega um filme belo, complexo e profundo que, com a premissa de seu enredo, poderia facilmente cair numa proposta batida do amor impossível, mas acaba tomando o caminho contrário e apresenta uma odisseia das diversas formas de vivências femininas dentro de uma sociedade sexista que, em grande parte, reprime, subalterniza e violenta essa identidade.

 

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